Terra Magazine

novembro 7, 2008

País dos Homens Íntegros é alvo de documentário de músicos brasileiros

por Ricardo Tacioli

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Em Burkina Faso. Ao fundo, com a filmadora na mão, Márcio Werneck. Patrick Lavaud

Provavelmente você nunca ouviu falar em Burkina Faso. Muito menos sabe onde fica, o que tem, quem vive lá e o que faz. Então, por que falar de um lugar que pouca gente conhece? Bom, se esse motivo não basta, outro é mais que suficiente: a possibilidade de reconhecer as semelhanças e diferenças com o Brasil.

Burkina Faso não é um lugar encantado de um livro de histórias. É um país localizado na África Ocidental, margeado por outros seis países, estendendo-se entre o deserto do Saara e o Golfo da Guiné. Ali tem floresta ao sul, deserto no norte e, ocupando a maior parte, savana. O país está a cerca mil quilômetros do mar. Com uma população em torno de 11 milhões de habitantes, uma taxa de alfabetização de 24%, e 80% da população dependente da agricultura de subsistência, Burkina Faso deixou de ser colônia francesa em 1960 mas não perdeu o posto no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Segundo levantamento de 2007 da Organização das Nações Unidas, o país possui o segundo pior IDH de uma lista com mais de 170 países. Ganha apenas de Serra Leoa. E para piorar, a realidade de um dos países mais pobres do mundo ainda fica nas mãos de São Pedro: durante todo ano, quase não chove em Burkina Faso.

Mas antes de ser Burkina Faso, Burkina Faso era Alto Volta e assistiu sucessivas ditaduras militares que se revezaram no poder pós-1960. Foi num desses golpes e contra-golpes que a história tomou outro rumo. Em 1983 o capitão Thomas Sankara assumiu o bastão e tentou ditar novas regras. Combateu a corrupção, incrementou a educação e a agricultura, ampliou os direitos da mulher e estimulou a democracia participativa. Em seus discursos, falava sobre “descolonizar a mente”. Mudou o nome do país para Burkina Faso, que quer dizer País dos Homens Íntegros. A classe média local e os países ocidentais não gostaram. Não deu outra. Foi assassinado em 15 de outubro de 1987. No poder desde então, Blaise Compaoré.

Impulsionado pela sua participação no NAK – Noites Atípicas de Koudougou, um dos mais importantes festivais de música da África, o violonista e historiador Carlinhos Antunes registrou em 2007 este cenário e produziu, ao lado do também músico e companheiro de viagem Márcio Werneck e do francês Patrick Lavaud, o criador do festival, o documentário Sete Dias em Burkina. Ao longo de 52 minutos, o vídeo retrata a trajetória de duas pessoas que, unidas pelo mesmo sonho, fundaram instituições culturais e educativas para crianças e jovens nas cidades de Koudougou e Bobo-Dioulasso.

“Foi muito difícil fazer esse trabalho, porque sobre a África a gente tem duas visões: de pena e de glamour, que abomino. O exótico é sempre glamouroso. Nesse sentido, o Brasil é legal, porque tem essa dupla faceta: é tanto Europa, quanto África, Índia”, declarou o violonista ao Blog Zonas de Conflito. O documentário foi exibido pela primeira vez no Brasil durante o Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito, realizado no Itaú Cultural, em São Paulo.

“A gente não foi com a visão Estamos aqui na África para entrevistar. Nenhuma entrevista teve um pré-roteiro. Eles não sabiam que estávamos fazendo um documentário. A gente fez milagre em oito dias em Burkina Faso, porque lá tem muita coisa. E gravamos tudo com uma câmera só. E ainda há muito para mostrar sobre o África, principalmente sobre as diferenças entre as etnias e os possíveis conflitos.”

Um dos protagonistas do documentário é Koudbi Koala, fundador da Associação Benebnooma que atende mais de 300 crianças todos os dias e mantém uma escola regular primária e cursos profissionalizantes de serralheria, carpintaria, informática, enfermagem, corte e costura, e rádio e TV. “O mundo é uma vila, uma cidadezinha”, declarou Koala, que esteve no Brasil para participar do Antídoto. “O meu sonho é que as pessoas dividam as coisas, que as pessoas se entendam e dividam tudo entre si e outros países; é a solidariedade”, revela o também fundador do grupo de música e dança Saaba.

“Na África, em uma família de 20 pessoas, somente uma pode estudar. E é muito raro quem pode estudar fora da África. A história desse documentário é a de uma pessoa que pôde estudar e voltou, e de outra que não pôde estudar e queria que todo mundo estudasse”, esclarece Carlinhos Antunes. “O índice de alfabetização ainda é muito baixo, mas antes apenas 5% do país era alfabetizado. Hoje você tem um índice de 25, 30%, que ainda é muito baixo. Isso foi abortado quando mataram Thomas Sankara, que investia muito em educação”, conta.

“O cara (Koudbi Koala) volta ao país, junta dinheiro dando aula e monta uma escola para as crianças. Descolonizar a mente é convencer as pessoas de que aquilo que ele está fazendo, e que ninguém acredita, é verdadeiro. É utilizar a arte como uma ferramenta revolucionária. Então, o que é capaz de descolonizar a mente é a arte”, filosofa o violonista-historiador.

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O violonista Carlinhos Antunes - em primeiro plano - em uma sala de aula em Burkina Faso. Patrick Lavaud

“Ela propicia que você valorize sua cultura; propicia que você conheça o mundo mas sem a visão de quem não quer ficar na África. Isso é muito sério: eles não vão para a França para ficar na França. Eles vão à França e voltam com mais vontade de ficar no país de origem”, conta Carlinhos.

“A França tirou tudo da gente. E quando as pessoas vão para lá, elas respeitam os franceses e sabem a distância entre o que são os outros e o que elas são”, elucida Koala sobre um dos princípios que alimentam a tese de “descolonizar a mente”.

“A gente acha que é como aqui (no Brasil), que o sonho é ir para os Estados Unidos, morar lá e se estrepar. É melhor ser nada lá do que digno aqui. Para eles, não! Você é um imigrante, como a maioria dos imigrantes que vivem mal. Eu sei porque morei cinco anos fora do Brasil. Então, você é um imigrante e vai perdendo a sua cultura. Você vai deixando de ser o que é e não se torna em nada. Você nunca vai ser um francês. Você vai se diluindo. Você pode dizer Ah! Mas eu tenho uma conta bancária… Tudo bem, estou falando de cultura. Você se dilui como pessoa. Descolonizar a mente seria isso, valorizar o que você tem. Isso veio do Thomas Sankara”, defende Carlinhos.

Num país há pouco tempo independente e com 60 etnias, a noção de identidade nacional é construída, segundo Koala, respeitando a diversidade. “Todos são diferentes, mas se complementam e se respeitam. Então, a diversidade é a riqueza, que é cultivada. Isso pode ser visto com relação à religião: numa mesma família pode-se ter um muçulmano, um cristão, um animista. Não existe briga por conta das diferentes religiões.” No entanto, Carlinhos Antunes aponta outros ângulos para defender a construção de identidade nacional.

“Burkina tem 60 etnias. Outros países tem mais de 200. Novamente, o papel do Thomas Sankara foi fundamental. Ele dizia que não bastava ser independente politicamente da França, porque se toda a dependência cultural e econômica continuasse, seria uma independência de fachada. Tinha de ser um país e não uma tribo. Ele diz que você somente consegue viver dignamente se pensar como um africano, e não como um europeu. E outra coisa é valorizar a sua cultura e suas diferenças; e as diferenças não são conflitos, mas riquezas. E a pobreza ajudou a uni-los. Se tivesse uma região muito rica em petróleo, outra em minério, outra em qualquer matéria-prima, o país estaria dividido. Então, os habitantes de Burkina Faso se igualaram pela pobreza. Isso faz com que exista menos discrepância social, portanto menos conflito. Em outras palavras, há menos donos dos meios de produção… E a partir de 1980, Sankara deu o nome de País dos Homens Íntegros; você pode ser corrupto, mas nasce com uma responsabilidade.”

Koudbi Koala estudou na França. Na volta, trabalhou no governo, que não entendeu o porquê de sua saída para montar a associação. “O governo não ajuda, mas não atrapalha. Na verdade, é o governo quem deveria educar essas crianças. Hoje, ele convida a Associação para fazer propostas de ensino técnico porque reconhece que ela está a frente”,  revela Koala.

E há pouco tempo o Brasil instalou  sua primeira embaixada em Uagadugu, capital de Burkina Faso.

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outubro 31, 2008

“Minha meta é tirar 100 meninos do crime”, afirma ex-detento

Por Ricardo Tacioli

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O policial civil Beto Chaves e o ex-presidiário Norton Guimarães. Cia de Foto

A parceria não somente parece, como é inusitada. Um jovem policial civil e um ex-presidiário de extensa ficha corrida promovem há um ano palestras em escolas e empresas para alertar jovens sobre os perigos do mundo do crime e das drogas. O primeiro é Beto Chaves, 32, inspetor da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA), do Rio de Janeiro. O segundo é Norton Guimarães, 51, ex-presidiário de Bangu III, onde cumpriu sete anos e seis meses de prisão.

Nas palestras, a dupla narra experiências pessoais, cada um de um lado da linha que os separou por muito tempo. Hoje falam a mesma língua e são grandes amigos.

Norton assaltou bancos, carros-forte, e liderou rebeliões em presídio. Tornou-se um símbolo na criminalidade. Mas foi o pedido de sua filha mais nova, Thayssa, então com cinco anos de idade, que fez com que abandonasse de vez a vida que levou por mais de 30 anos. A caçula disse no Natal de 2005 que o presente que gostaria de ganhar de Papai Noel era ver o pai fora da prisão. E em fevereiro de 2006 Norton se despediu da cadeia pela porta da frente.

Nunca envolvido com tráfico, como faz questão de grifar, Norton enfrentou um dos problemas que afetam todos os egressos do sistema penitenciário, a (re)integração à sociedade. Passou por maus bocados para tentar sustentar a mulher e a filha até se tornar agente de projetos sociais do Grupo Cultural AfroReggae, como o que tenta tirar meninos da marginalidade e empregá-los no mercado de trabalho. Mais de 70 garotos já foram empregados com carteira assinada, garante Norton.

“Fui assaltante, e sempre gostei muito de dinheiro para comprar jóias, carros e alimentar as minhas farras. Hoje, de coração, vejo que essa “mega-sena” não surte o mesmo efeito em mim como esse trabalho que faço, de ajudar as pessoas que estão saindo do sistema penitenciário, que estão querendo se livrar da criminalidade,  e que estão na beira da criminalidade… Hoje sou uma referência pra essas pessoas! Pô, já ganhei mais de 70 mega-senas”, afirma Norton. “O que mais me estimula nisso tudo é tentar transformar as pessoas no mesmo vitorioso que sou hoje.”

Dezenove anos mais novo que o parceiro e amigo, o cabeludo Beto Chaves também nasceu e se criou na Zona Norte carioca, onde empinou pipas, jogou futebol na rua e trabalhou no comércio. Hoje, além das investidas policiais em morros e das investigações de praxe, faz pós-graduação em Segurança Pública e representa o Escola Segura, projeto criado pela Polícia Civil carioca que promove ações sócio-pedagógicas em escolas.

Mas foi a partir de uma palestra do AfroReggae conduzida por Norton para os meninos-internos do Departamento Geral de Ações Socio Educativas (DEGASE) que Beto encontrou seu parceiro ideal. Nascia aí o projeto Papo de Responsa, braço do Escola Segura que, com discursos diretos de um policial e de um ex-presidiário, fala das armadilhas das drogas e do sistema que elas alimentam aos meninos das escolas do ensino fundamental e médio.

Leia a entrevista que Beto Chaves e Norton Guimarães cederam ao Blog Zonas de Conflito durante o Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito, promovido entre os dias 2 e 23 de outubro, no Itaú Cultural, em São Paulo.

Norton, o que é uma polícia ideal?
Uma polícia ideal é uma polícia cidadã, uma polícia interaja e que perceba os problemas da comunidade. Uma polícia que veja que um menino pode a qualquer momento se envolver com tráfico de drogas porque não tem opções; a vida não dá isso pra ele. A polícia ideal não é a polícia repressora, a polícia combativa, de confronto. É a polícia que respeita. Imagino um dia um policial, civil ou militar, passar na comunidade e falar para as pessoas “Bom dia!” e elas “Bom dia!”, mas ele armado com suas armas de policial sem precisar do fuzil e daqueles aparatos de guerra.

Beto, esse discurso de buscar uma nova polícia existe dentro da corporação?
Eu me pergunto todo dia a quem interessa tudo isso que a gente está vivendo. A quem interessa batermos todo dia na polícia? Ao policial não interessa. Ao cidadão não interessa. À sociedade não interessa. A quem interessa manter todo mundo acreditando que a polícia é somente isso? A quem está interessa fazer com que a sociedade acredite que não existe mais solução? E na polícia há o mesmo questionamento e também o desejo de querer ser vista de uma outra maneira. Brinco dizendo que a gente não veio de Poliçópolis. A gente veio dos bancos escolares, a gente fez faculdade - e na polícia civil do Rio quase 90% dos homens e mulheres tem curso superior -; muitos são músicos, professores, trabalham com segurança. Mas a polícia hoje é um gigante bobo, porque não consegue se colocar para a sociedade. Existe problema de corrupção na polícia? Existe, como também existe no hospital, no Congresso, na escola… A quem interessa pontuar somente este retrato de instituição corrupta? Quem é que diz não? Não são os bombeiros que dizem não. Não são os médicos quem dizem não. É a polícia que diz para você não fazer. Que cidadão quer que um policial o multe ou diga “Não faça isso!”? Que corrupto, que sonega imposto, que quer que o policial diga “O senhor está preso, porque a sonegação de impostos…”. O comerciante que faz isso quer que o policial o prenda? Então, pra muita gente interessa que o policial continue ganhando pouco, sendo mal visto. Mas para o policial, para os cidadãos de bem que necessitam do serviço de segurança pública não interessam. Para o policial não interessa vestir o uniforme e saber que o cidadão o vê um safado, um arbitrário, um corrupto, um truculento. E dentro da polícia há movimentos fortes de pessoas íntegras que dizem “Não quero isso! Olhem de uma outra maneira”. Mas existe um grande muro que a gente não ainda sabe a altura e o comprimento que tem. Sou uma pessoa extremamente otismista, mas muito realista, e essa movimentação está acontecendo.

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Norton Guimarães. Do crime e da prisão para o AfroReggae, em que atua como mediador social. Cia de Foto

Norton, entrevistei os meninos do Afro Samba (um dos projetos musicais do Grupo Cultural AfroReggae) e um deles me disse que “Sei que é errado, mas ver o bandido rolando com a arma dá uma empolgação”… Pra você, um mediador social, como buscar e estimular outra empolgação que não essa que o crime oferece?
Fico muito feliz quando vejo os meninos dos subgrupos do AfroReggae, como o Afro Mangue, Afro Samba, Afro Lata ou a trupe de teatro. Eles foram criados na comunidade, então viram o que é o outro sucesso, que é namorar meninas bonitas da comunidade, ter seus carros, seus ouros, portar um fuzil, ter dinheiro. Mas hoje em dia, a gente faz um trabalho social que mostra que eles podem ter isso tudo dignamente. Fico tão feliz quando vejo os meninos viajarem para shows no Uruguai , em Londres, Índia, China… Caramba, são pessoas da comunidade, da periferia! Esse é o sucesso real, porque quando voltam para seus familiares, podem ouvir “Meu filho voltou para mim!”. Há pouco tempo perdemos um menino do Afro Samba (o cavaquinista Mauricio que faleceu vítima de problemas cardíacos). Foi um choque para todos! Estávamos no cemitério quando ouvi uma frase muito interessante de uma parente dele. Eu a abracei, e ela falou assim: “Norton, ele morreu aos 20 anos de idade. Era muito feliz com o que fazia no AfroReggae. Fico triste vê-lo ir embora, mas o que me deixa mais feliz é saber que quem tirou a vida dele foi Deus, não foi o homem com um tiro, com uma granada, com uma facada”.

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Beto Chaves é um dos policiais que promovem palestras sobre drogas e segurança pública em escolas e empresas. Cia de Foto

Beto – Falo para o Norton que a polícia não pode ser a primeira a entrar nas comunidades. Tem de entrar primeiro a saúde, habitação, saneamento, asfalto, trabalho… Tudo para diminuir a desigualdade. “Vamos diminuir a maioridade penal?” “Vamos dar primeira a oportunidade? E depois a gente cobra?” É complicado cobrar sem dar. É o que acontece na polícia, que tem um salário muito pequeno, trabalha em condições precárias e aí é cobrada. “Pô, você vai cobrar de um mendigo para que se comporte no cinema se ele nunca teve oportunidade de ir ao cinema? Para muitos presentes no Antídoto foi uma surpresa ver que o policial sabe falar, que estuda.

Norton, como o seu trabalho é visto pelos amigos que estão em situação de risco – em presídios ou no crime ainda?
Ninguém gostaria de estar nesses lugares . Depois de nove meses de gestação, o médico bate na bundinha da criança e diz  “É homem ou mulher”, e não diz “Esse vai ser bandido!”. As oportunidades e as escolhas fazem a criança seguir um ou outro caminho. Então, tenho consciência e certeza de que a maior parte dos que estão no sistema prisional hoje me vêem como uma referência. E muitos gostariam de estar no lugar que estou ocupando. Mas agora o que mais almejo na vida é chegar em 2010 e ter tirado do sistema penitenciário, da criminalidade ou do risco da criminalidade, 200, 300, 400, quem sabe até 500 meninos. Quero chegar no fim deste ano tendo empregado 100 jovens. Esse é o meu ideal!

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outubro 27, 2008

“Temos de devolver homens e não bandidos para a sociedade”, afirma diretora de presídio

por Ricardo Tacioli

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A diretora do presídio de Caruaru (PE) Cirlene Rocha. Cia de Foto

Imagine um lugar feito para comportar 98 pessoas. Pode ser um vagão de metrô ou um salão de festas. Mas em vez de 98, imagine mais de 700 marmanjos. Qualquer um apontaria o indicador aos céus e protocolaria uma queixa, se desse para erguer o braço, claro. Bom, diferentemente de um vagão ou de um salão de festas, o lugar não tem esse mesmo clima e trânsito. Afinal, trata-se de uma penitenciária.

Assim, como em boa parte do sistema prisional brasileiro, a superlotação também é um dos problemas da Penitenciária de Caruaru (PE), administrada há seis anos por Cirlene Rocha.

Primeira mulher a assumir uma penitenciária masculina no Nordeste, Cirlene administra o presídio com muita criatividade. “Quando cheguei vi um lugar que tinha capacidade para 98 presos com 700. Setenta porcento eram homens entre 19 e 28 anos, ou seja, em plena fase produtiva. Eu tinha de fazer alguma coisa”, afirmou ao Blog Zonas de Conflito. “Ali inimigos têm de fazer as pazes porque não tem como separá-los.”

Graduada em Direito, a bem-humorada Cirlene nasceu há 38 anos em Vitória de Santo Antão, cidade com mais de 100 mil habitantes e próxima a Caruaru. Quando menina sonhava ser policial civil, porque defendia as pessoas. Em vez da polícia, prestou concurso para agente penitenciário no início dos anos 1990. “Fiquei uns meses em Recife fazendo revistas, guarda interna de presídio feminino; somente depois fui transferida para Caruaru, onde estou há 13 anos”, conta a diretora que antes trabalhava no Setor de Laborterapia da unidade que dirige, responsável pelos cursos profissionalizantes e atividades culturais.

Tendo como norte o “respeito ao homem encarcerado”, Cirlene notou que não era possível manter os internos em suas celas. “Tinha de tornar o ambiente menos tenso.” Em vez de deixá-los presos em suas celas - por falta de espaço dormem nos corredores e no refeitório -, viu que a melhor maneira de ocupar o tempo ocioso era prendê-los em atividades que, muitas vezes, eles mesmos gerenciam. “Tive de descobrir as potencialidades e capacidades de cada detento. Assim, eles passam os dias soltos, mas sempre ocupados, fazendo atividades”, relata.

Tem a Rádio Fênix, que é uma rádio interna em que os reclusos fazem a programação; biblioteca, concursos de redação e de decoração natalina dos pavilhões, com escolha da melhor por designers e artistas plásticos; atividades esportivas, cursos de alfabetização, capela ecumênica e até casamento gay, como a diretora contou à platéia do Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito, realizado no Itaú Cultural, em São Paulo. “Lá é uma comunidade, com suas necessidades e atividades, que cada preso assume”, afirma Cirlene.

Um dos empreendimentos que surgiu no presídio e que ganhou as páginas da imprensa internacional foi o projeto Liberta Moda, que é a marca das roupas que são inteiramente confeccionadas pelos detentos e apresentadas em desfile. Os modelitos são comercializados até em grandes lojas do Nordeste.

A experiência de inclusão social não se limita ao presídio. Segundo Cirlene, “os filhos dos presos têm chances, considerando o exemplo dos pais, de se tornarem futuros presos”. Para tentar inverter esse quadro, são promovidos encontros com palestras e atividades lúdicas em chácara e passeios em parques aquáticos (como no Dia das Crianças). “Falo para as crianças que existe um mundo além deste que vocês vivem nos semáforos”, conta. “E quando os vejo nos semáforos, sempre me perguntam quando haverá outros encontros.”

E hoje, 27 de outubro, às 21h45, no Canal Multishow, o Liberta Moda será tema do terceiro programa Conexões Urbanas, conduzido por José Junior, coordenador executivo e um dos fundadores do Grupo Cultural AfroReggae.

Leia a entrevista que Cirlene Rocha cedeu ao Blog Zonas de Conflito.

Qual é a fragilidade de você sair da direção, outra pessoa assumir e este trabalho terminar? Você teme isso? O que é feito para garantir a continuidade?
Na verdade houve um momento difícil quando teve a mudança de governo. Os presos ficaram ansiosos em saber se iria ou não haver troca da direção do presídio. Fiz um trabalho de preparação com eles, informando que a vida é feita de mudanças, e que eles deveriam aceitar. Eu aceitei a idéia da troca, afinal o cargo é de confiança e como havia mudado o governo… A tendência era de que todos os diretores saíssem, mas o governo não havia me comunicado nada. Na época, o Secretário de Segurança tinha ido pra lá para me tirar. Eu estava fazendo a aula inaugural no começo de ano, como tem em todo lugar. Chamo todo mundo para a quadra e digo “Teremos as seguintes aulas, os horários são esses, as regras são essas…”. Ele soube que eu ia fazer essa solenidade, que pra mim é normal, e foi lá… “Essa diretora pensa que é o quê?” Chegou lá meio revoltado e não falou nada. Eu disse: “Olha, Secretario, não tem convite porque é uma coisa muito administrativa. Já que o senhor está aqui, vamos conhecer o presídio?”. E saí mostrando os pavilhões e todos os departamentos da unidade.

Cheguei na quadra onde estavam todos reunidos. Um pessoal de hip hop e de capoeira fizeram se apresentaram. Quando o preso parou de tocar o berimbau, o Secretário disse: “Não, estou gostando… Mande mais uma música!” “Não dê ousadia pra eles, senão não vão parar mais de cantar!” Ele ficou perplexo! “Eu não acredito o que vi aqui. Tem de continuar!”. E hoje ele me defende, me elogia, fala mais do que eu mereço. A sociedade é muito participativa, porque espaço para ela participar. A Ordem dos Advogaos do Brasil (OAB) adotou o parlatório; as pastorais, as entidades religiosas e espíritas estão lá. Toda a sociedade está lá dentro. Se houver uma mudança que altere totalmente o que já foi feito será um boom social, porque todo mundo – empresários, Rotary Club, maçonaria, Lions – conhece e, de certa maneira, fiscaliza. A sociedade comenta e vê que não é um marketing, uma encenação. Então, se chegar alguém pra mudar, vai ter de brigar com a comunidade, porque ninguém quer ver aquilo explodir. Por mais aversão da sociedade que haja com o preso, eu não sou vista como “a doutora Cirlene que passa a mão na cabeça dos presos”, mas sim a diretora do presídio que busca capacitar e valorizar o preso para quando sair não ser mais um a agredir a comunidade.

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Como Caruaru vê esse trabalho?
Vê como um trabalho em que eles ajudam em tudo que a gente faz. E não é pedir, não, é intimar! “Vou fazer tal coisa e sua participação é com isso!” Então existe essa credibilidade, parceria e amizade… A capela ecumênica foi feita com doações. O Estado não entrou com nada. Isso é bom porque dou o direito do empresário fiscalizar, participar. Ele poderá dizer “Esse é um pedacinho de mim!”. Quando tem Festa das Crianças, festa de não-sei-de-quê, não tenho problema em conseguir um ônibus para levar as crianças para o parque. Quando a gente fez o desfile Liberta Moda, fui atrás de patrocinador. Uma empresa grande disse assim: “Adorei o projeto, amei!”. E silenciou por um tempo. E quando liguei de volta, “Veja bem, não é a política da instituição se ligar com presos… Veja, não é a minha opinião, não, mas é o que a instituição pensa…”  “Aé?! Fique sabendo que estou dando uma oportunidade da sua empresa fazer alguma coisa que preste, de mostrar uma coisa boa. Não sou eu quem estou pedindo, e sim quem está dando uma oportunidade para sua empresa.”

É essa mente retrógrada que não contribui com nada com a sociedade… Mas essa percepção está mudando na sociedade. E dois dias depois ela ligou e disse que iria participar… Então, é assim, eu acredito no projeto! Às vezes tem diretor que diz: “Cirlene só falta pedir esmola…” Não vejo por aí. Na verdade, eu me alio a várias pessoas para que a coisa funcione, mas também é uma oportunidade para que a sociedade esteja dentro, participando, contribuindo. É o dono da loja de construção que doa cerâmica, é o cara que ajuda a gente fazer uma obra.

A mediação com todos os atores – detentos, governo, sociedade – é sempre bem-humorada? 
É. A gente não pode ser truculento. Sou a diretora do presídio, o sistema em si já é difícil. Já cheguei a tirar o vigia do dia por ser mal-educado com as visitas. Tudo tem solução, se não tiver, solucionado está. Falo com os meus chefes desse jeito, eles sempre me dão apoio para fazer minhas atividades, não levo problemas para eles, sou daquelas “Se surgir o problema, eu tenho de ter uma solução!”

Você parece muito otimista, mas até onde vai este otimismo?
Às vezes tem o pessimismo… Têm pessoas dentro da instituição que se preocupam com coisas tão pequenas… Como a gente pode se preocupar com uma coisa tão pequena, se tem o macro, que é ação, a resolução? Eu não me preocupo com o marketing. Ele surge porque surge. Mas tem gente que se preocupa mais com o marketing do que com a obra. Tanto é que em todas as nossas ações a gente põe o nome da secretaria, do secretário, mesmo de alguns elementos que tentam boicotar a gente. Foi tão engraçado no dia em que ganhamos o primeiro lugar no Concurso de Fantasias Carnavalescas. A gente ralou, ralou. Disputávamos junto daqueles caras experientes de Carnaval. A gente nunca havia participado. Aí criamos uma fantasia que foi selecionada. Já foi uma vitória arretada! Mas rolou muita dificuldade, porque o pessoal da secretaria poderia ter facilitado, como na escolta, porque era um baile particular. Mas no desfile todo mundo torceu por nós: os seguranças, os faxineiros… Aí desfilamos e abalamos! Quando disseram que ficamos em primeiro lugar foi uma emoção! A primeira pessoa para quem eu liguei foi o cara que estava nos boicotando: “Alô, estou ligando para dizer que nós ganhamos, que o senhor é campeão!” “Eu, campeão? Parabéns pra você!” “Parabéns pra mim, não, parabéns para nós, porque fazemos parte da mesma secretaria, de uma mesma equipe, de um mesmo governo. Então, se eu ganhei, o senhor ganhou também. Ou não?” Essas coisas desanimam, mas em outros momentos, como esse em que ganhamos o concurso, dão sentido a tudo. É isso aí…

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outubro 25, 2008

“Sou uma sobrevivente”, diz cozinheira mais famosa de Vigário Geral

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Por Ricardo Tacioli

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A cozinheira Lizietia Rodrigues, mais conhecida como Chupetinha. Divulgação 

Era pra se chamar Elizeth. O escrivão dormiu no ponto. Virou Lizietia. Na certidão de nascimento, Lizietia Carmem Siqueira Rodrigues, lavrada há exatos 48 anos, idade que comemorou na semana que passou. Moradora da favela de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, onde nasceu e foi criada, Lizietia é uma figura querida e carimbada em toda a comunidade, tanto por nunca ter abandonado o hábito de usar chupeta, que lhe rendeu o apelido que a eterniza, Chupetinha, como também por ser a cozinheira mais famosa da região.

Chef de cozinha diplomada em junho de 2008 pelo SENAC, mantém há 12 anos na rua Paris o restaurante Pensão da Chupetinha que, além dos fregueses locais, já forrou o estômago de famosos como o músico escocês David Byrne (fundador da banda Talking Heads), o rapper Gabriel O Pensador, o jornalista Pedro Bial e a empresária Flora Gil. No cardápio, especialidades caseiras como feijão preto com arroz e farofa, frango à mineira, costelinha de porco e peixe à milanesa. “Tenho dois carros-chefe: a carne assada, que doro na cebola, e o creme fica parecendo molho madeira; e o bobó à mineira que, em vez de camarão, tem salgados e creme de aipim. É uma invenção minha. Menino, é um sucesso! Apresentei até no programa da Ana Maria Braga”, relatou ao Blog Zonas de Conflito.

Chupetinha comandou pela primeira vez, entre os dias 20 e 24 de outubro, uma cozinha que não a sua: assumiu o restaurante Café Cult, na sede do Itaú Cultural, em São Paulo, durante a terceira edição do Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito.

A entrevista de 20 minutos com a mulher que não se considera uma grande cozinheira (“Faço como todo mundo, mas cada mão é diferente…”) foi permeada de bom humor, lágrimas e três cigarros. Nela revelou que foi a partir da chacina de Vigário Geral, em novembro de 1993, quando 21 moradores inocentes foram assassinados por policiais, que sua vida tomou outro rumo. “Eu conhecia todo mundo (que morreu), porque nasci e me criei em Vigário Geral. Na casa em que morreram oito evangélicos fizeram uma ONG chamada Casa da Paz”, contou Chupetinha, que na época estava desempregada. “Aí fui trabalhar lá como faxineira e office-boy. Só que ela é próxima da minha casa. E como não havia nenhuma pensão na comunidade, na hora do almoço as meninas diziam: Bota mais água no feijão!” E foi botando mais água no feijão que Lizietia deixou a faxina e assumiu de vez o restaurante que fica na cobertura de sua casa.

“Sou uma sobrevivente, não somente da chacina de Vigário Geral, mas uma sobrevivente da vida, porque tive todas as oportunidades do mundo para ser uma mulher mundana, uma prostituta, uma mulher de bandido, mas Deus não deixou que isso acontecesse comigo. Tenho uma mania de brincar quando saio em jornais. Gente, saí n’O Globo, mas não foi na página policial!”, declara rindo.

Mas o riso rapidamente se transforma em lágrimas quando fala do passado ou das conquistas recentes. “Minha infância foi muito triste. Quando fiz sete anos de idade, meu pai faleceu. Vivia internado no Hospital Geral de Bonsucesso. Morreu do coração. E minha mãe ficou com sete filhos. O mais novo tinha nove meses. A mais velha tinha oito anos. Sou a segunda filha. Aí tive de ir para a luta. Fui trabalhar como babá na comunidade, senão como íamos comer?”.

Filha de Beatriz Felix Siqueira e Antônio Siqueira, Chupetinha estudou somente até a quarta série. Pelas dificuldades que enfrentou na infância, cravou no peito o sonho de nunca mais passar fome. “Hoje me sinto uma mulher muito rica, porque se eu quiser comer pão ou queijo, eu vou e como. Costumo dizer que já sonhei e não realizei. Mas já realizei o que não sonhei. Essa é a realidade da minha vida”, fala comovida. “Hoje posso dizer que sou o orgulho da minha família. Todos os meus irmãos estão empregados, mas eu sou a mídia. Não parece, mas para nós que moramos na periferia, isso é uma grande coisa, porque as pessoas acham que lá só se aprende coisas ruins. A luta não é pequena, mas eu consegui.”

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A cozinheira se encantou com o Mercado Municipal de São Paulo. Cia de Foto

Boa parte de sua trajetória é assistida, compartilhada e protagonizada com o marido João Azevedo Rodrigues, com quem se casou há 37 anos. Isso mesmo, Chupetinha tinha apenas 11 anos de idade quando trocou alianças com João, na época um rapazote de 17 anos. “O segredo deste casamento? É o amor. Toda vez que olho para o meu marido parece que estou com ele pela primeira vez, porque o João é uma pessoa muito amável.” Aposentado, João não cozinha, mas é o garçom, o administrador e o “faz-tudo” do restaurante. Da união nasceram Michele e Raphael, que fizeram cursos de inglês, de informática e faculdades; a primeira é dona de casa, e o segundo é bailarino e coreógrafo do Grupo Cultural AfroReggae, onde trabalha desde os 13 anos de idade.

“Nem meu marido, nem meus filhos fumam. Eu fumo. Chupo chupeta e nenhum deles – nem meus dois netos – chupam”, afirma Lizietia, que confessa que a preferência pelas chupetas mais ralés. “Só não gosto das transparentes e das ortodônticas. Você não tem idéia de que quantas chupetas eu tenho. Todo mês, quando meu marido vai fazer as compras para a pensão, ele traz um saquinho de 25 chupetas. A duração de cada uma depende do meu estado emocional. Hoje vou estourar uma, porque já são dez horas e a feijoada ainda está no fogo…”

Há alguns anos a saúde também fez com que estourasse muitas chupetas. “Tive um câncer de útero e tive de fazer esterilização. O tratamento é muito doloroso, mas estou curada. E há três anos tomei outro grande susto, fiquei doida, mas não era nada, somente um problema na tireóide.”

A mestre de Chupetinha na cozinha é sua mãe, de quem não nega uma pratada de macarrão. “Justamente o que eu não poderia comer, ainda mais depois da cirurgia da tireóide, já que fiquei diabética e hipertensa. Tive até síndrome do pânico, mas liberei tudo isso na cozinha e na chupeta.”

Além do clima caseiro e descontraído, a pensão também ostenta outras características. Ali não bebida alcoólica não é comercializada (“Se quiser, pode levar, mas somente cerveja”). E também não pode entrar armado. “Você sabe que em comunidade tem de tudo. Então implantei leis que, por eu ser muito respeitada, foram obedecidas. Tem uma placa bem grande que diz Mocinhos e bandidos são bem-vindos. Quem quiser almoçar na minha casa, pode, mas não pode entrar armado.”

Mas se o nobre leitor ficou com água na boca e quiser conhecer o tempero e as iguarias de Chupetinha, pode visitar sua pensão em Vigário Geral, que funciona de segunda a sábado, das 11h às 17h. Segundo a cozinheira que sonhava ser assistente social, não há problema algum com o tráfico caso queira em chegar até a sua pensão. “Basta dizer que vai ao AfroReggae, que é uma ONG muito respeitada, ou à Chupetinha, que ninguém coloca a mão. E ainda te levam”, garante.

Exemplo de superação dentro e fora da comunidade, que hoje agrega nove pensões (“Dá para todo mundo ganhar o seu trocadinho”), Chupetinha sonha em cursar a faculdade de gastronomia, mas nunca sonhou com um livro de receitas. Enquanto ele não vem, ela descreve o petisco que faz mais sucesso em suas mesas: aipim frito.

“Coloco aipim para cozinhar sem sal. Depois que está cozido, aí sim coloco sal e deixo mais um pouco na fervura. Tampo a panela e espero mais um pouquinho. Aí escorro e frito o aipim com bastante óleo. Por que bastante óleo? Se você botar pouco, o aipim vai ficar duro. Mas com bastante óleo, ele vai fritar tanto em cima quanto em baixo. Aí, quando você morde o aipim, ele está crocante por fora e molinho por dentro.”

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outubro 23, 2008

“O professor tem de ter ousadia!”, afirma diretora de escola do Jardim Ângela

Tags:, , , , , , - Ricardo Tacioli às 7:11 pm

por Ricardo Tacioli

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A professora paranaense Jucileide durante evento no Itaú Cultural. Cia de Foto

Baixa. Olhos grandes atrás das lentes. Cabelos coloridos. Sorriso pronto. Essa é Jucileide Rodrigues Mauger, 55, filha de Paranavaí (PR) e de primos retirantes nordestinos, que fugiram para casar. “Fui gerada na Rio-Bahia”, contou ao Blog Zonas de Conflito. Em São Paulo desde 1956, Jucileide é diretora da escola municipal Oliveira Viana.

A história é como o de tantas outras professoras. No entanto, a particularidade da escola que Jucileide dirige desde 1992 reside no bairro em que está localizada. Jardim Ângela, sul da Zona Sul paulistana, uma das regiões urbanas mais violentas do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). “Era morto toda semana. Corpos de criança na frente da escola”, disse nesta quarta-feira, 22/10, na apresentação no Antídoto - Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito, realizado no Itaú Cultural, em São Paulo. De acordo com a diretora, o auge da violência ocorreu na década de 1990 e foi resultado do desemprego, da desestruturação da família e da falta de perspectivas. “Nenhuma criança nasce bandida. Já tive de esconder meninos da Rota. Mas na escola eu não tenho bandido, e sim aluno!”, confessa a pós-graduada em Psico-Pedagogia com especialização em Gestão de Projetos Educacionais

A virada se deu quando notou que o sentido de escola – que foi criada em 1976 e hoje conta 2400 alunos divididos em quatro turnos - estava deturpado. A escola tinha de ser de todos. E assim, em vez de lutar contra os traficantes, convidou-os a estudar. E eles aceitaram. Abriu a escola aos sábados para promover bailes de rap, e pecebeu que naquela semana não morria ninguém. Implantou cursos de crochê e tricô, xadrez, capoeira, dança afro, campanhas de castração de animais e campeonatos esportivos, além de abrir para qualquer tipo de encontro, inclusive os matrimoniais. A escola, que recebe ex-presidiários e meninos em liberdade assistida, tem ainda fanfarra e trabalhos com crianças deficientes. “A escola tem de ser inclusiva.”

Leia abaixo a conversa que o Blog Zonas de Conflito travou com Jucileide.

Como era a escola de sua infância?
Estudei sempre em escola pública. Aquela escola tradicional em que você não podia olhar para os lados, aquela em que a professora te beliscava se você falasse, aquela em que você tinha de prestar atenção o tempo todo, não podia nem piscar. Claro que eu falava demais e vivia apanhando das professoras.

Que experiência dessa escola da infância você levou para a sua, o Oliveira Viana?
Tive uma professora de 1a série, a Dona Teresinha, que tratava muito bem os alunos. Eu falava “Vou ser professora”, mas quando cresci fiz Psicologia e cliniquei um ano. Detestei. Então comecei a dar aula no Estado e vi que adorava. Tanto que dei 12 anos aulas de Psicologia. Entrei na Prefeitura em 1980, na Escola Oliveira Viana, onde estou até hoje.

E qual é o prazer maior do magistério?
A experiência mais bonita que tive foi de alfabetização. Você vê a criança florescer. Você pega aquela criança que não conhece uma letrinha e no fim do ano ela está fazendo livrinho, escrevendo histórias, descobrindo o mundo… É maravilhoso!

Como as boas experiências do Oliveira Viana são compartilhadas com outras escolas?
Essas experiências circulam. Têm algumas escolas que copiam o que a gente faz lá. Na verdade, o que dá certo é visto por outras pessoas, que vão lá conhecer os projetos e levar para outras escolas. Projetos que tratar dessa questão de trazer o aluno para dentro da escola, mas que ele sinta que a escola é o onde ele tem liberdade pra falar o que pensar, para criticar, elogiar, brigar e cobrar. A gente diz que quer formar o aluno crítico, então tem de ter o direito de criticar.

Mas existe algum fórum em que essas experiências são compartilhadas?
Existe a reunião de diretores que a Coordenadoria faz. A gente sempre está trocando figurinhas com os diretores, com os coordenadores pedagógicos que se encontram uma vez por mês.

Essas realizações me parecem autônomas, dependendo da diretoria…
Exato. Infelizmente o diretor tem uma prática muito desagradável: acha que a escola é dele. “A minha escola, os meus alunos, os meus professores.” É tudo dele, as coisas boas e os problemas. E ele não deixa os professores fazerem nada. Se o professor quer desenvolver um projeto, não pode! E eu parto do princípio que a gente tem de errar tentando, mas não errar por omissão. Você tenta, se der certo, ótimo! Se não der, a gente assume o erro junto. O professor tem de ter ousadia! Ser ousado! Se ele não for ousado, ele não é educador, é somente um professor. E professor é papagaio que repete o que aprendeu. E ainda com os preconceitos que tem. Internaliza o que aprendeu, junta com os preconceitos, faz uma mistura e repete. E ainda quer que o aluno seja igual a ele.

Jucileide, faz quase 30 anos que você entrou na escola Oliveira Vianna. O que mudou no entorno da escola?
Melhorou muito. Entrei na década de 1980, que era o começo da violência. Muitos vinham do Nordeste tentar a vida em São Paulo, tentar trabalhar nas metalúrgicas da região do Rio Pinheiros. Depois tudo isso acabou e o pessoal ficou desempregado. As mães tiveram de sair de casa para sustentar os filhos. Viraram arrimo de família. Os pais foram para os bares. Então houve uma desestruturação familiar muito grande. Foi aí que começou a violência. Segundo a ONU, o bairro era o mais perigoso do mundo. E era mesmo, porque tinha fim de semana que morriam quatro, cinco meninos. E eu via os meninos, sabia que iriam morrer, chamava-os, conversava. Eles não tinham para onde ir, não tinham perspectivas. “Quem nasce tem de morrer, né!”, diziam. “Quem mata, morre! Para ele matar, ele tem de vir até a mim!” E no final o menino morria. E isso é muito triste, ver um jovem que tem a vida toda pela frente e que não dá valor.

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Entre tantos eventos, a escola testemunhou o casamento de sua diretora. Cia de Foto  

E hoje o entorno da escola mudou bastante?
Mudou muito. E hoje também tem muito incentivo, há as organizações não-governamentais (ONGs). Na década de 1980 elas não existiam. Elas começaram nos anos 90. Se há numa família alguém que tem problema de álcool ou droga hoje tenho para onde encaminhá-la. Criança que está abandonada a gente tem para onde encaminhar. Criança que tem problema, há o Conselho Tutelar. Se o Conselho não resolve, vou direto na Vara da Infância e da Juventude. Se precisar fazer uma denúncia de pedofilia, vou, faço e levo a denúncia até o fim. Quero dizer, tenho para onde correr. E antes não tinha. Tinha de ouvir e ficar quieta.

Você mora por ali?
Não, moro na Avanhandava (região central da cidade de São Paulo). São 25 quilômetros daqui até a escola. E lá é um favelão. Temos a idéia de que em favela só moram bandidos, mas não é assim. Aprendi que quando você não consegue resolver uma coisa com aluno, você deve visitá-lo. Então eu ia visitá-lo, tomar um café com a família, ficavam todos envergonhados. E nunca fui numa casa para falar mal do filho, e sim para elogiá-lo. Às vezes ele não valia nada, mas eu ia, elogiava, convidava para voltar para a escola. O dia em que picharam a escola toda, tirei o menino da cama e falei “Você vai comigo! Nós vamos resolver lá na escola! Não vou falar perto da sua mãe, porque é um problema seu e meu!”. Ele foi e no fim pintou tudo. Fizemos os grafites e ele foi um dos que organizadores e pintou o logotipo da escola no portão. Então sempre fui assim. Aí fiquei muito conhecida no bairro, porque os bandidos da época foram meus alunos, e hoje são pais e avós dos alunos. Então tenho liberdade para ir em qualquer lugar, cobrar qualquer coisa, falar o que penso… Aceito críticas, porque às vezes os pais me criticam. “É direito seu, tenho de ouvir. Posso não gostar, mas tenho de ouvir, porque também quero falar!”. E a gente sempre entra num acordo.

Mas você não vive ou viveu uma situação de risco?
Não! Nunca fui ameaçada. Pelo contrário: quando eu fazia os bailes rap, havia renda. A gente cobrava três reais para entrar. E os meninos, os manos, me escoltavam até o comecinho da M’Boi-Mirim, onde já não tinha mais perigo. Nunca roubaram nada na escola. Tem laboratório de informática com 21 micros; a escola tem 50. Tem DVD, televisão de 29 polegadas, impressoras, xérox. Se alguém precisa, passa lá e “Posso usar?”. A escola nunca foi roubada! E no começo não era assim, era um horror!

Vendo a utilização que você dá para a escola e o envolvimento da comunidade com ela, me veio à cabeça o método de alfabetização do Paulo Freire, que considera o meio em que a pessoa está como ferramenta de educação.
Nós não somos prestadores de serviço? Não é um equipamento da população? Como posso dizer que a escola é da comunidade se ela não pode usar? Que coisa é essa, tenho uma coisa que não posso usar? Eles fazem encontros políticos, reuniões de pais, de igreja, encontros de jovens, casamentos. Eu me casei na escola. E não peço policiamento, não peço nada. “Olha, gente, a escola está na mão de vocês. Cuidem bem porque é de vocês.”

Com atividades tão diversas, como funciona a capacitação dos professores para lidar com essa variedade?
Essa capacitação é feita no começo do ano. E o plano da escola não fica pronto no começo do ano como em todas as escolas. É feita durante o ano. Montamos o esqueleto e vai mudando de acordo com a necessidade. E no fim do ano a gente faz uma avaliação, quando os pais e alunos participam, para ver em que se errou. Aí se faz uma tabulação para que no ano que vem mude. Nosso plano sempre fica pronto no outro ano, quando mando encaderná-lo. Ele se torna um livro para a escola. É um livro com foto que conta o que aconteceu naquele ano. E é documento de pesquisa para o pessoal que vai fazer estágio. Normalmente os professores se adaptam. E aqueles que não se adaptam, vão embora.

E qual é a escola ideal?
Não existe. Escola ideal é aquela real em que você consegue desenvolver o seu trabalho e os seus ideais ou, pelo menos, plantá-los. Afinal, o ser humano é real (e não ideal)…

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outubro 22, 2008

Delegacia do Rio promove cursos de alfabetização e sessões de cinema

Por Ricardo Tacioli

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Jornalista e advogado, Zaccone instalou biblioteca e cursos na carceragem da 52a DP. Cia de Foto

O discurso é claro e envolvente. O orador desfila o texto citando Michel Foucault e Octavio Paz, e passa por temas caros à Sociologia e ao Direito. Assim foi a apresentação de Orlando Zaccone, 44, delegado titular da 52a DP de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense (RJ), no Itaú Cultural, nesta terça-feira, 21 de outubro, durante a programação do Antídoto - Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito.

Além da oratória ilustrada, Zaccone é um delegado que se diferencia do estereótipo do policial pela forma como lida com os detentos em sua delegacia. “O sistema prisional é uma máquina de moer pessoas”, disse Zaccone para quem o crime é uma forma de muitos se incluírem socialmente.

Baseado em sua formação acadêmica e na legislação que prevê assistência educacional e de saúde para aqueles que tiveram a liberdade cerceada, Zaccone implantou o projeto Carceragem Cidadã, que promove atividades culturais junto aos detentos de sua delegacia. Há cinema, com o Cine Clube 52ª, que exibe trabalhos audiovisuais seguidos de palestras e shows musicais, o jornal O Sol Quadrado Também Brilha!, feito pelos detentos, cursos de alfabetização, biblioteca e assistência médica. Os resultados positivos dessa experiência apontam caminhos para lidar com o problema da multilplicação e perpetuação da violência pós-prisão, desconstruindo a máxima de que cadeia é a escola do crime.

Mas antes de assumir a cadeira de delegado de Polícia Civil em 1999, Zaccone despejava seu nanquim em textos sobre comportamento e produção artística nos cadernos culturais de jornais cariocas. Somente depois, graduou-se em Direito e ingressou na Polícia. Mestre em Ciências Penais, atualmente faz doutourado em Ciências Políticas na Universidade Federal Fluminense.

“Tenho informações de diferentes áreas e procuro agir de acordo com o pensamento crítico que desenvolvi nesses cursos”, afirmou em entrevista do Blog Zonas de Conflito, que pode ser lida logo abaixo.

Zaccone, por que a Polícia?
Esse foi o primeiro concurso que passei. Quando fui fazer o curso de Direito, eu já trabalhava com o meu pai, que foi uma questão de foro íntimo, porque eu já tinha uma família constituída e o mercado de jornalismo não estava bom para mim. Tive uma brecha para trabalhar com o meu pai, mas teria de fazer o curso de Direito. E depois de formado vi que a vida de advogado é muito difícil para quem não tem um escritório forte de família. E o caminho natural para mim e para muitos brasileiros foi o concurso público. Comecei a prestar concurso sem definir nenhuma preferência. Fazia para Defensoria Pública, Polícia, Ministério Público, Magistratura. E o primeiro que passei foi pra Polícia Civil. Eu tinha muita vontade de fazer um mestrado, pois fiquei estudando três anos para o concurso. Assim que passei, priorizei minha formação acadêmica. Também sou professor. Depois de me aposentar como delegado, tenho vontade de me dedicar exclusivamente ao magistério.

Como jornalista, em qual editoria você atuava?
Por incrível que pareça, nunca trabalhei com (a editoria de) polícia, sempre foi com cultura. Trabalhei no Segundo Caderno, do Globo, e uma época na Revista de Domingo, do Jornal do Brasil. Sempre trabalhava com matérias de comportamento e da área de cultura.

Sua formação se diferencia muito do meio policial. Como ela é vista?
Infelizmente a formação dos policiais, principalmente dos delegados, é uma formação jurídica nos cursos de Direito. Há no Brasil um distanciamento muito grande do ensino jurídico das Ciências Sociais. Esse esvaziamento era uma estratégia. Então, matérias como Sociologia Jurídica e Filosofia do Direito, que são importantíssimas, sempre foram relegadas ao segundo plano nas Universidades. O que formamos hoje são técnicos em Direito. E os concursos públicos em todas as carreiras cobram um conhecimento técnico, um conhecimento da norma deslocado de qualquer visão social de sua aplicabilidade. Isso é muito ruim, porque temos hoje não somente delegados, mas tem juízes, promotores de justiça, defensores públicos que não têm uma visão crítica do trabalho que exercem. Aliás, isso não é um atributo somente de quem tem formação jurídica. Mesmo no jornalismo são poucos os que têm um conhecimento mais aprofundado e crítico da sua própria área de atuação. A mesma coisa com os médicos. Na verdade, se formos a fundo veremos que o tecnicismo tem prevalecido em todos os ramos do conhecimento, provocando esse esvaziamento das ações sociais dos agentes públicos. Você despolitizou a atuação profissional de vários segmentos; evidentemente que na área jurídica isso também se deu. E no caso da Polícia, a coisa fica mais gritante por conta do estereótipo do policial.

Zaccone, qual foi o estopim para você começar a trabalhar com cultura na carceragem?
Primeiro foi uma postura política que sempre tive. Tentei juntar a minha produção acadêmica com uma atuação profissional condizente. No mestrado produzi uma obra que foi publicada – Acionistas do Nada – Quem São os Traficantes de Droga. Então já tinha observado a seletividade punitiva, ou seja, os encarcerados são escolhidos entre os setores mais vulneráveis da sociedade. Isso existe por trás dos discursos punitivos de emergência, que tenta resolver os problemas do nosso modelo econômico por meio do encarceramento dos pobres, do extermínio dos que se rebelam. Então, tive muita vontade de aplicar essa visão crítica que adquiri por meio dos estudos. O criminoso que é preso em flagrante normalmente é o criminoso trapalhão, aquele cara enrolado, um batedor de carteira da pior qualidade. Esses caras estão enchendo os cárceres, assim como essas mulheres que tentam botar drogas nos presídios para os companheiros. Elas são selecionadas e rotuladas como verdadeiras traficantes. Então, estão ali por uma situação de vulnerabilidade e a gente tem de dar uma contrapartida. A sociedade tem de observar isso e entender que é mais do que necessário a gente dar um freio nesse sistema punitivo oferecendo algumas opções. Eu não trato mais a questão como ressocialização, porque acho que ressocializar é você devolver o cara para uma sociedade na qual ele já estava inserido, mas ele nunca esteve inserido nesse ambiente social. Hoje a gente trabalha com a idéia de redução de danos, ou seja, fazer com que a permanência o preso para cumprir sua medida punitiva seja feita de uma forma mais humana, que não gere violência institucional. Na verdade, pra mudar o quadro atual tem de atacar o modelo econômico, que já está mostrando que é fraco. Quando a gente iria imaginar que o Estado teria de botar dinheiro no sistema econômico. O papo não era que o capital se auto-regulava? E agora? É desse capitalismo tardio a estratégia de resolver problemas sociais por meio do encarceramento, do extermínio das “classes perigosas”. No entanto, isso é um processo autofágico, porque a reprodução da violência e da vulnerabilidade no cárcere depois retorna para a sociedade, porque esse preso não vai ficar lá pra sempre, ele vai voltar. Estamos alimentando o problema, e não resolvendo.

Há uma rotatividade de presos na delegacia?
Uma das nossas maiores dificuldades é exatamente essa. A rotatividade é muito grande. Para você ter idéia, conseguimos emitir 102 títulos eleitorais na unidade seis meses antes das eleições. Esse é o projeto Voto do Preso (permitido a presos provisórios). Seis meses se passaram e eu tinha somente 54 presos na unidade com o título para votar. Muitos saíram em liberdade. Mas tem um dado interessante: sete presos que estavam soltos foram à carceragem somente para votar. Isso foi muito legal, porque nem nós da administração esperávamos que um cara que já estava solto retornaria à carceragem para alguma coisa. Mas eles estiveram lá, acreditaram no projeto. Então, essa rotatividade é um problema, mas a gente não pára. Muitos presos começam a fazer o supletivo da primeira à quarta série do ensino fundamental, que dura um ano, mas com três, quatro meses conseguem o Alvará de Soltura. E o que vamos fazer? Aqueles dois, três meses estudados pra ele representam uma experiência de vida que a gente não consegue vislumbrar. Uma vez um preso, num debate em sala de aula, se emocionou, começou a chorar e disse para a professora que por alguns segundos teve a sensação de que estava livre. Então, criar dentro do cárcere um espaço para que os presos exponham suas idéias, dialoguem sobre vários temas, tenham sua voz colocada, representa muita coisa para eles.

E qual é a possibilidade de multiplicação dessa experiência em outras delegacias?
Vou ser sincero: atualmente vislumbro isso, porque os nossos esforços pra avançar naquele espaço são tão grandes e os resultados demoram tanto a vir que se tentássemos expandir isso acabaria encerrando o que conseguimos estruturar. Na verdade, são ações pequenas que darão um resultado maior. Em vez desse projeto ser estendido imediatamente a outras delegacias, prefiro que um preso que sair da carceragem e ingressar no sistema, se reúna com presos e eles mesmos consigam, junto às autoridades que estiverem gerenciando aquela unidade, implementar. São coisas que dependem de vontade política simples. Eu peguei um telefone, liguei para a Secretaria Estadual de Educação e disse que queria falar com o Secretário de Educação. “Tenho um espaço na carceragem. Posso conseguir doação de cadeiras, carteiras, quadro negro, mas eu preciso professor. Você consegue?” “Claro, consigo!” Botou dois! Sabe, às vezes com uma ligação telefônica você monta uma escola dentro da carceragem. Não é uma coisa que requer um volume grande de investimento, de recursos. É na simplicidade dos pequenos projetos que a gente vai avançar.

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outubro 20, 2008

Babu Santana afirma que atores do morro dão outro olhar sobre o bandido

Ricardo Tacioli às 6:54 pm

Por Ricardo Tacioli

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Babu Santana no papel do médico Simão Bacamarte. Cia de Foto

Ele já foi pescador, líder presidiário, bandido, carcereiro, feirante e bêbado. Um dos atores mais respeitados da nova geração, o carioca Alexandre da Silva Santana, o Babu, 28, agora encarna seu primeiro protagonista, e que não se enquadra nos tipos marginais e populares de sempre. É Simão Bacamarte, o médico mais prestigiado da praça, que chega à pequena Itaguaí para instalar um hospício e internar os sujeitos que julga ter alguma loucura.

Simão, Itaguaí, ciência e a relação entre a insanidade e a lucidez são elementos do mais novo trabalho do grupo Nós do Morro, a peça Machado a 3 X 4, que esteve em cartaz neste fim de semana no Itaú Cultural, em São Paulo. Dirigida por Fátima Domingues e Guti Fraga, a montagem é uma adaptação cênico-musical de O Alienista, conto que Machado de Assis escreveu em 1882.

Leitor de Nelson Rodrigues e Plínio Marcos, e dono de uma ficha corrida com mais de 30 filmes (Estômago, Maré, Nossa História de Amor), oito peças, novelas e minisséries televisivas, Babu cedeu uma entrevista ao Blog Zonas de Conflito em que falou de Machado de Assis e de como a representação de bandidos na produção audiovisual brasileira ganhou outra dimensão após a evidência de grupos como o Nós do Morro (clique aqui para assistir um vídeo institucional do coletivo).


Babu, como foi seu contato com teatro e com o Nós do Morro?

Nasci no Vidigal, onde cresci e sempre morei. Meus pais fizeram de tudo para me dar uma boa educação nas melhores escolas. Fiz natação, joguei basquete, já lutei tae kwon do. Mas o teatro sempre me fascinou. Comecei a fazer teatro na escola onde estudava e também em cursos livres que são bem visados no Rio, mas eu não me sentia feliz porque era de outro nível social. No início havia muito preconceito racial. O Guti Fraga (diretor da peça Machado a 3 X 4) morava do meu lado da minha casa e eu nunca tinha dado conta. Aí vi o Show das Sete, que era um talk show que o Nós do Morro tinha no Vidigal. Achei legal e conheci mais a fundo o grupo. Fiz o teste e me identiquei rapidamente porque a maioria das pessoas eu conhecia desde criança.

Por que essa predileção por teatro musical do grupo Nós do Morro?
Porque facilita o trabalho e a movimentação de elencos numerosos que o Guti tanto gosta.

Por meio da música o teatro se torna mais acessível?

Também. A gente tem um programa de formação de platéia. Hoje, com o espaço na mídia, a gente tem uma platéia mais variada, mas a maioria ainda é de moradores do Vidigal. Uma linguagem de fácil acesso, que não perca a essência dos autores que trabalhamos, é importante. E a música ajuda. Inclusive pra mim que sempre fui resistente a Machado de Assis. Acreditava que era uma linguagem muito difícil. Com a música eu entendo melhor o texto. Então, esse trabalho do Gabriel Moura (diretor musical) codifica muita coisa que eu não entendia. E isso também acontece muito com a nossa platéia.

Qual foi a maior descoberta em Machado de Assis?
Como ele é contemporâneo. Faz mais de cem anos que ele escreveu O Alienista, que é contemporâneo. Como Shakespeare que perdura até hoje. Ele consegue transcender o tempo dele e ser atual. E tem humor. Vendo aquela foto do Machado, nunca achei que ele pudesse ser um cara com humor. É bacana como o meu vocabulário cresceu lendo Machado. E como são fantásticas as palavras. Desde que entrei no Nós do Morro tenho o hábito de ler, que era um grande problema que eu tinha. Com Machado aprendi ler, porque ele sabe jogar com as palavras. É incrível: ele é contemporâneo (com textos) de uma época em que era difícil falar da sociedade. Ele se colocava de fora (“não sou eu quem está falando, me disseram”), e com esse artifício driblava uma questão social. Toda a história dele bate muito com a da gente. Somos afro-descendentes, pobres, quebrando barreiras dentro da sociedade.

E como foi o processo de composição do Simão Bacamarte?
Ele é um cara que exprime muito pouco os sentimentos, a não ser sua obstinação pela ciência e por perpetuar sua dinastia na terra. Essas são as informações básicas (do personagem). Tudo isso eu tentava fazer com menos emoção possível. Mas estava muito seco e sério. Então, como suavizar esse cara? Entraram as músicas, comecei a trabalhar a voz e fui compondo essas nuances do Simão. Eu hoje ainda luto para conseguir fazer essas nuances porque, como idealizador do personagem, eu o defendo e acho que ele não é louco. Eu acho só que ele é obstinado e as pessoas confundem, assim como ele confunde as pessoas; aí fica essa loucura. Mas não posso ficar apático e não passar isso pra platéia. Teve uma preparação corporal, de como passar essa aparente loucura e obsessão dele com o meu corpo. O texto, as músicas e a preparação corporal me ajudaram muito a compor Simão Bacamarte.

E alguma experiência pessoal entrou nesse processo de composição do personagem?
Minha mãe tem um problema. Ela tomava um chá de uma seita que prejudicou seu juízo. Ficou durante dez anos em tratamento psiquiátrico e, muitas vezes, como meu pai trabalhava fora, tive de cuidar da minha mãe. Ela já deu mais de 20 entradas no Pinel (Instituto Philippe Pinel). Já fui muito visitar minha mãe, já conversei muito com psiquiatra. Inclusive, uma das questões pelas quais o Guti ter me chamado foi por isso. Ele é nosso vizinho (e acompanhou tudo). A loucura foi apresentada muito cedo pra mim. E como esse drama da loucura (real) não era parte da nossa peça, peguei essas informações (pessoais) - como um médico conduz uma consulta - e vi até que ponto poderia usar, afinal naquela época não existia essa figura do psiquiatra. Inclusive na hora em que as pessoas julgam que o Bacamarte está louco, eu me baseio muito nas expressões que eu via na minha mãe, que pra mim até há pouco tempo eram traumatizantes.

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Simão examina Dona Evarista (Flávia Coutinho), sua futura esposa. Cia de Foto

E você chegou a alguma conclusão sobre o que é razão e loucura?
Olha, só me confundiu mais. Durante o processo, o Paulo (Luiz Paulo Corrêa e Castro, que foi quem adaptou o conto de Machado) falava: “A gente não pode ir na loucura fácil. A gente tem de pensar o seguinte: quem é louco? Esse cara é louco? Quem é louco, Babu? Todo mundo que curte baile funk ou que odeia o funk? Quem é maluco? Do meu ponto de vista todos vocês são loucos! Se as pessoas vão para o Maracanã, elas são malucas? Na maioria são pessoas que têm trabalho, família, mas também um momento de piração.” É legal essa dúvida: quem é o louco? Quem não é? Levantar essa questão faz a gente chegar mais próximo da sanidade, cada um respeitando a loucura do outro.

Geralmente, seus papéis são bandidos e tipos populares. Em Machado a 3 X 4 você é um médico que estudou na Europa. Qual é a diferença?
Divirto-me mais fazendo tipo popular. Muita gente diz que vou ficar estigmatizado, para eu tomar cuidado, mas era uma janelinha que abriu e por onde entrei. A porta estava muito longe pra mim. Se tiverem mais 50 bandidos para eu fazer, eu faço todos. O meu desafio será fazer 50 personagens diferentes. É claro que a função de uma pessoa diz muito o que ela é. Você é jornalista e todo o jornalista tem certas características. Todo bandido tem certas características, mas todos somos seres humanos independentes. Crio os meus personagens a partir do humano: um cara nervoso, tranqüilo, se lida bem ou não com certas coisas, se é torcedor fanático ou não, se ama ou odeia… Nós mudamos a forma como se vê o bandido. Antes de Nós do Morro e da galera de comunidades entrarem na mídia, vocês não sabiam o que eram os bandidos. Às vezes as pessoas pensam que estou defendendo (bandidos), mas não estou! O cara nasceu, foi criança, chorou de fome, já sentiu saudade, já se sentiu sozinho, já sentiu revolta, não teve pai, não teve mãe, namorou e foi trabalhar cedo, teve frustrações de adultos na infância. Todos esses seres humanos que a gente julga serem problemáticos têm uma riqueza em forma de personagem. Pra mim é muito mais complexo eu fazer um bandido do que o Bacamarte. Dele tenho informações, texto do Machado,  e pessoas mestres nesse assunto. Quando tenho de compor um personagem do nada, que é fruto da imaginação de um roterista, é muito mais complexo. Eu quero humanizar, dar vida, e não construir um bandido! Você tem uma vida e por um acaso é jornalista, que dita como vai levar sua vida, seus valores sociais… O bandido também; ele é um ser humano. E eu, infelizmente, vi muito amigo que até os 18 anos era uma pessoal normal e deu um revertério na cabeça dele do nada e o cara virou (bandido). Isso é muito esquecido! Antes dos atores de comunidade invadir a mídia, não se conhecia esse lado. Por isso que o Cidade de Deus teve esse sucesso todo. E tiveram críticas de que estava defendendo o bandido. Não, gente, ninguém defendeu ninguém. A gente trouxe o trabalho de ator para esse tipo de personagem que sempre foi marginalizado também nos roteiros, que entrava apenas para roubar bolsas. E quando você pára para contar a história dele parece que você está defendendo-o ou criticando-o. Na verdade, você está apresentando para que o espectador julgue.

Atualmente há mais negros e afro-descendentes nas produções audiovisuais. O papel deles hoje nas tramas é diferente do que era há algum tempo?
Hoje você vê um Milton Gonçalves fazer um político corrupto na novela das oito… Você pega o Lázaro Ramos e a Thaís Araújo protagonizando uma novela de comédia no high society que é uma coisa inimaginável há 10, 15 anos. E com isso você vai se vendo. Quando passo na rua na minha comunidade tenho um tipo de assédio muito gostoso, que não tem aquela coisa do autógrafo, do pegar; é aquela coisa de se identificar. Tem pessoas nordestinas da comunidade que foram ver o Estômago e se identificaram com a coisa perdida do João Miguel. “Falavam que não era possível existir alguém assim, tão inocente, mas eu dizia que era, sim, e ninguém acreditava. E eu me vi no filme.” Essa coisa de ver que o seu trabalho tocou uma pessoa de verdade a ponto dela vir e falar “até que enfim eu me vi na televisão!” é importante. Você só via aquelas mulheres maravilhosas, os carros maravilhosos, aquelas tramas; parecia de um outro país. Agora você se vê. Então, quando a gente se vê, se mostra, quando a gente se coloca, a gente gera polêmica porque nunca foi visto nem ouvido. Antigamente o garotinho mestiço como eu, quando tinha o sonho de ser ator, ligava a televisão e via o quê? Só nego branco de olho azul. Então, ele já apagava desde cedo o sonho de ser ator. E não somente nesta área. Dificilmente você via um político negro, um médico negro. Você achava que aquilo não te pertencia. Antigamente, as mães deixavam você fazer teatro se era bonitinho. A minha própria mãe achava que eu não tinha característica nenhuma de artista. “Mãe, para ser artista tem de ser bonito?” E hoje você vê lá no Nós do Morro todo tipo de criança: gordinha, magra, japonesa, negra, parda… E aí você olha para o espelho, que é a televisão, e vê negro, um cara mestiço, vê pessoas do Nós do Morro, os garotinhos do morro e não estão fazendo feio. Pelo contrário, fazendo bem.

E isso é transformador, Babu?
Acho que sim. É a possibilidade de se ver e de sonhar. A gente nunca pode desistir de sonhar. Hoje a gente sonha mais e corre mais atrás dos nossos sonhos.

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outubro 16, 2008

Percussionista diz que Ilê Aiyê o tirou do “caminho errado”

Ricardo Tacioli às 3:33 pm

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O Ilê Aiyê em SP. O vocalista Adelson Evangelista e o percussionista Mário Pam, ao fundo. Cia de Foto

Considerado o primeiro bloco carnavalesco afro da Bahia, o Ilê Aiyê é um marco no processo de reafricanização do carnaval baiano e um de seus cartões postais. Mas o início de sua história não foi motivo de festa na ex-capital do Brasil.

Fundado em Salvador em 1o de novembro de 1974 no bairro Liberdade, que possuía a maior população negra do país, o bloco sofreu logo em seu primeiro carnaval represálias policiais e reprovações da imprensa soteropolitana. Como prova a nota publicada no jornal A Tarde em 12 de fevereiro de 1975, abaixo reproduzida.

“Conduzindo cartazes onde se liam inscrições tais como: Mundo Negro, Black Power, Negro para Você, etc., o Bloco Ilê Aiyê, apelidado de Bloco do Racismo, proporcionou um feio espetáculo neste carnaval. (…) Pela própria proibição existente no país contra o racismo é de esperar que os integrantes do Ilê voltem de outra maneira no próximo ano, e usem em outra forma a natural liberação do instinto característica do Carnaval. (…) Não temos felizmente problema racial. Esta é uma das grandes felicidades do povo brasileiro. A harmonia que reina entre as parcelas provenientes das diferentes etnias, constitui (…) um dos motivos de inconformidade dos agentes de irritação que bem gostariam de somar aos propósitos da luta de classes o espetáculo da luta de raças.”

Muita coisa mudou desde então. Com quatro discos de carreira, festejado por Caetano Veloso na música “Um Canto de Afoxé para o Bloco do Ilê” (1982), passaportes carimbados em mais de 10 países, uma sede própria instalada num prédio de sete andares, a hoje associação cultural com mais de 3 mil associados promove atividades que valorizam a estima do negro. Tudo por meio da cultura e da educação que possibilitam outras opções profissionais aos afro-descendentes. “O Ilê Aiyê é uma instituição que é conhecida internacionalmente como modelo de entidade organizada por negros”, afirma Mário Pam, 31, um dos mestres de percussão e dirigentes do bloco.

O Blog Zonas de Conflito conversou com Mário Pam no fim de semana em que nove integrantes do Ilê Aiyê se apresentaram no Itaú Cultural, dividindo o palco com o AfroReggae, Lirinha e Z’África Brasil. Mário falou um pouco do trabalho e das conquistas entidade, como a participação no 1o Encontro de Afro-Argentinos que será realizado em novembro, em Buenos Aires.

Mário, como você entrou no Ilê?
Quando tinha um ano de idade, eu e minha família morávamos numa comunidade chamada Meireles, uma rua do bairro Pero Vaz, que é anexo à Liberdade. Minha mãe não tinha o marido próximo, que dava apoio, mas nem sempre estava junto dela. Ela é costureira. Não tínhamos luxo, mas o necessário para sobreviver. Morávamos numa comunidade de periferia, aberta a qualquer situação, onde as pessoas têm necessidades demais e poucas condições, e de uma hora para a outra se desesperam. Muitos dos meus amigos se interaram nesse processo e não estão mais presentes. Depois a gente foi para o Curuzu, quando eu já tinha 13 anos de idade. Como não tinha espaço para se divertir, surgiu a idéia de uma banda de crianças lá no Curuzu, e o Ilê Aiyê era o responsável. Isso em 1991. Nesse período, beirando a adolescência, época em que começam vir as vaidades, os desejos, todos os jovens da comunidade – uns 30, 40 garotos - entraram no projeto e tentaram dar o melhor. O projeto falava da negritude. Entramos dentro de um processo de renovação do quadro de artistas da Band’Aiyê, que era uma banda que estava fazendo shows internacionais com percussão, que era sua linha de frente. Não havia instrumentos melódicos; tirávasse a melodia dos instrumentos de percussão. A Band’Aiyê já estava fazendo isso antes da gente surgir. Já tinha ido aos Estados Unidos, África, Caribe. Depois, a gente tentou fazer algo novo, mas sempre com a preocupação de manter a tradição do bloco, de manter o respeito aos mais velhos, às mulheres, de tratar as pessoas como semelhantes. O Ilê deu essa educação pra mim, que era um jovem que poderia ter ido para um caminho errado como foram os meus amigos. O Ilê me deu o caminho de buscar o estudo como forma de desenvolvimento. E foi aí que comecei a fazer cursos profissionalizantes, que o Ilê tem em parceria com as organizações da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

O Ilê mantém essas parcerias?
O Ilê começou a desenvolver o seu projeto dentro da comunidade do Curuzu a partir desse embrião, que eram os cursos profissionalizantes organizados pela UFBA, em que pessoas de várias organizações participavam. Tinha gente do Ilê, do Olodum, de terreiros de candomblé. E tínhamos aulas de eletrotécnica, eletrônica e informática, isto associado à música. Esse projeto deu visibilidade para o Ilê, que hoje desenvolve um projeto similar, que é o Projeto Profissionalizante do Ilê, realizado lá no Curuzu. Dá curso gratuito para a comunidade. Atualmente tem os cursos de ajudante de cozinha, corte e costura, bolsas e calçados, informática básica. O Ilê educa socialmente usando a cultura como meio. O Ilê é uma entidade cultural que surgiu como bloco de carnaval na década de 1970 para mostrar para a Bahia sua negritude.

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Vi no site do Ilê a reprodução de uma matéria de 1975 do Jornal A Tarde…
Que falava que não havia discriminação racial no país… A democracia racial que o jornal dizia não existia. Os negros estavam presentes nas penitenciárias, desempregados ou prestando serviços para a comunidade. Quando (o negro) serve está tudo bem, mas se quer ter seu espaço, ser gestor de suas posições, aí surgem os confllitos. E o Jornal A Tarde quis mostrar isso logo de cara. Mas hoje o jornal mudou, tem outras pessoas.

Quando você entrou no Ilê, em 1991, você quis apresentar algo novo. Artisticamente, o que mudou no Ilê nesse tempo?
Quando o Ilê fazia os shows nos anos 1970 e 80 era muito mais pelo amor de realizar o show e do intercâmbio que rolava. O Ilê sempre foi uma entidade querida; as pessoas ficam emocionaas quando vêem o bloco na avenida. Os artistas são os propulsores dessa levada. Além da simbologia do Ilê, existem as pessoas que executam o trabalho – os dançarinos, percussionistas, os cantores, os técnicos – para deixar tudo fluir legal. Naquela época não havia tantos recursos técnicos como se tem hoje. Eles deixaram um legado muito bom para nós que chegamos mais tarde. Éramos novos, mas não tentamos mudar o foco da instituição. Eles faziam apresentações no Rio de Janeiro e em São Paulo, para onde vinha muito. Quando a gente começou a tocar no Ilê em 1991, 92, a gente tentou inovar. Uma das inovações: o Ilê tocava com uma baqueta de repique, como as escolas de samba do Rio, mas executando um compasso mais tranqüilo, mais melódico e não acelerado, sem dizer que o Rio não tenha melodia. A gente tentou implantar duas baquetas para tocar o repique, para fazer uns sons diferentes; o Olodum, a Timbalada e outros blocos que já existiam tocavam com duas baquetas. Aí conversamos com a diretoria e pedimos apoio para fazer aquilo acontecer… Foi um processo, mas criamos uma batida diferente dentro da nossa casa. O Mestre Marivaldo – que hoje mora em Paris -  foi o professor da gente e quem começou a implantar no Ilê essas novas informações, as convenções e ritmos diferentes. Mas tudo em conjunto com a gente. Tínhamos muita sincronia. Mestre presente tem de falar com o músico. Não pode existir uma relação em que o mestre não fala com o músico.

Isso não existia até a chegada do Mestre Marivaldo?
Eram informações novas, que deixamos registradas no terceiro CD do Ilê Aiyê, Canto Negro 3 (Velas, 1996). Antes o Ilê tinha uma batida muito suingada, mas contínua, que você pode conferir nos CDs Canto Negro 1 e 2. Implantamos algumas variações e convenções, e a incorporação do ritmo do candomblé aos tambores, com a divisão dos tons. E a gente toca outros ritmos, porque pode aparecer um intercâmbio, como este de agora com o pessoal do AfroReggae.

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Três dos quatro discos do Ilê Aiyê. Reprodução

Como funcionam esses intercâmbios, Mário?
O Ilê Aiyê é uma organização estruturada, com uma sede no Curuzu, onde temos os projetos, as aulas de alfabetização, os cursos profissionalizantes que já falei. E os intercâmbios. Tem grupos que vêm de Cuba para se apresentar em Salvador e passam no Ilê para fazer intercâmbio com a comunidade… E a gente faz oficinas de percussão. Pessoas que vêm da Alemanha e que já fizeram esssas oficinas há dez anos, hoje têm grupos em Hannover, o Chucrute com Banana; tem o grupo Explosão, em Berlim; o Molambo no País Basco; em Paris tem vários. Todos grupos de percussão inspirados no Ilê Aiyê.

Mas não é uma espécie de franquia, né?
Não, não. Eles desenvolvem seus próprios grupos e fazem muitos shows na Europa. Inclusive tocam até em casamento. Eles servem o público de lá. E isso viabilizou a saída do Ilê e de outros grupos para a Europa num certo período, mas todos sabem que o Ilê é o tradicional, é a raiz. Sempre estamos fazendo alguma coisa no Velho Mundo. Atualmente melhorou porque estamos fazendo intercâmbio com países da América Latina. Antes não tínhamos acesso a esses países devido às questões econômicas que não permitem um governo disponibilizar passagens de avião, hotel, cachê. Agora as coisas estão diferente. Hoje, por exemplo, tem um grupo do Ilê em Bogotá, Colômbia, no Festival VivAmérica. No próximo domingo faremos um show em Roma, num festival de cinema (III Festival Internacional de Cinema de Roma, com presença de Caetano Veloso e Vanessa da Mata). No dia 5 de novembro faremos um show em Buenos Aires no 1o Encontro de Negros Afro-Argentinos. A Argentina até hoje esconde que tem negros. O Ilê Aiyê vai mostrar o jeito diferenciado do negro se ver, sua estética. O legado histórico deixou para a gente um banzo, um grande ressentimento, e muitas pessoas não conseguem se desfazer dele. O Ilê Aiyê foi um choque, um acorda. As pessoas na rua de roupa africana, falando de temas de países africanos diferentes. Cada ano o Ilê escolhe um tema. Já falou da história de países como Gana, Zimbábue, Costa do Marfim. Nessa pesquisa o Ilê pesquisa a economia, a cultura, a política. E aí os compositores do Curuzu e de outras comunidades pegam o tema e fazem suas músicas para participar do festival. Agora em novembro a gente começa o Festival de Música Negra do Ilê Aiyê. Daí escolhe-se a melhor música para cantar no carnaval. E já saiu cada música maravilhosa que, infelizmente, não circula mais porque há discriminação com a música percussiva. E a gente tenta mostrar que a música percussiva não é barulho, que é som, é a arte milenar que chamava boi, que avisava a chegada do inimigo, que chamava a chuva.

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outubro 14, 2008

Lirinha diz que a arte não deve ser a única opção nas zonas de conflito

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O poeta e músico Lirinha, 30, debate a relação arte e negócio com um monólogo e um livro. Cia de Foto

José Paes de Lira, o Lirinha, é a voz e um dos compositores do grupo Cordel do Fogo Encantado. Artesão e zelador da palavra, este pernambucano de Arcoverde subiu no palco do SESC Pompéia/SP, em dezembro de 2007, para expor um dos dilemas que o provoca desde a meninice: a arte tem preço? E quanto vale?

Estreava, então, seu monólogo Mercadorias e Futuro, que co-dirigiu com a atriz Leandra Leal, sua mulher. Para completar o projeto, lançou no meio deste ano o livro de mesmo nome. Numa performance que conta com música, texto, luz e improviso, Lirinha interpreta o vendedor de livros Lirovsky, personagem que homenageia os escritores Micheliny Verunschk, Paulo Leminski e Grotowski.

Um dos convidados do AfroReggae, que se apresentou neste fim de semana em São Paulo no Itaú Cultural, Lirinha conversou com o Blog Zonas de Conflito e problematizou ainda mais sobre o tema-chave de sua peça e, claro, da sociedade contemporânea.

Você disse que entre a estréia no fim de 2007 e a retomada no meio deste ano, algumas coisas mudaram na peça Mercadorias e Futuro. É um trabalho que está encerrado ou é mutável, ainda mais considerando a dinâmica do tema?
É um lugar de experimento particular. É um lugar onde aprofundo a palavra, a utilização que faço desde o meu começo artístico. No espetáculo também experimento umas coisas de música. Esse tempo que dei entre a estréia no SESC Pompéia e sua reestréia foi por conta da espera do livro que estava para lançar. Eu precisava dele para completar o projeto. Nesse meio tempo algumas coisas foram mudadas, mas o espetáculo continua com a mesma alma, a mesma mensagem da estréia de dezembro.

O que principiou a peça e o livro foi sua questão entre a relação arte e negócios. Ao longo deste percurso, você teve algumas respostas que sanam esse dilema?
A primeira foi a descoberta que é um tema muito presente nas construções artísticas desde a Revolução Industrial, que é esse questionamento de quanto cobrar por um produto artístico. Então, o espetáculo não quer dar respostas sobre esses valores, e nem apontar uma moral, mas é um momento de muita reflexão sobre o tema, porque o personagem é um vendedor de livros que é procurado pelos profetas para que venda suas profecias. Ele é uma figura especial porque é procurado também para cumprir essa função. E essa função de intermediário, de atravessador, é chamado porque para os profetas não podem descer e cuidar dessas coisas. Não podem tratar com dinheiro. Então, é uma ironia que aplico que serve como questionamento: alguém que pode fazer esse link entre o sagrado, o divino, que é a poesia, e o vil metal. Parece ser incompatível, mas o ser humano vive dentro desse sistema há muitos e muitos anos. Outra coisa que descobri: isso é um conflito que não se resolve. Além de ser eterno, ele é indissolúvel.

Pra você, o que é arte, o que é o fazer artístico?
É a realização do impossível. É a nossa existência envolvida na criação de algo que fica além da nossa existência. Eu, depois dessa peça, não acredito em muita coisa, em muita definição, até porque muitas definições que a gente utiliza terminam servindo para o mercado, para esse comércio. Eu acredito que esse mistério que envolve o sentido da arte é a definição. É a floresta desconhecida. Eu enxergo dessa forma. Então, o que difere um trabalho de composição musical do trabalho de um padeiro que começa às cinco da manhã? Essas definições foram desenvolvidas, como dizer que o padeiro tem um trabalho mecânico e automático, e que segue uma receita que passaram, ou seja, um operário. Mas nos dias de hoje esse limite de definição se perde muito, porque a maioria dos grupos musicais e dos artistas, poetas, atores, artistas plásticos fazem seu trabalho como esse padeiro. Fica sendo sempre uma discussão de valores; discussão que, sinceramente, não tenho capacidade de definir o que é arte.

Lirinha, como você se vê?
Tive um contato com uma pessoa chamada Erickson Luna (1958-2007), um poeta considerado marginal lá em Recife, que é um rótulo que pregam. Ele era uma figuraça. Dizia que não existe artista, existem pessoas capazes de arte. Eu sempre achava uma frase de efeito, mas com o passar do tempo concordei com ela. Neste mundo em que a gente vive existe uma capacidade de arte que acompanha todo o ser humano, e existe o desenvolvimento e aproveitamento dessa capacidade ou não. E outros fatores, como os de mercado. Eu, com 12 anos de idade, fui chamado para fazer uma apresentação, para dizer poesia no 4o Congresso de Cantadores do Recife. E foi a primeira vez que eu ganhei cachê. Então incorporei essa história ao personagem Lirovsky, porque pra mim é um momento pregnante. Até então eu dizia poesia de graça e para quem pedisse, em qualquer lugar. Ainda continuo tendo uma relação assim com a poesia. Se eu estiver passando na rua e alguém pedir para eu dizer um verso, eu paro e digo, porque é uma escola em que fui criado. Patativa do Assaré exigia isso de quem recitasse poesia, que fosse um veículo de comunicação; essa sabedoria não é do cara, é da comunidade. A minha escola foi essa. Então, naquele momento – com 12 anos de idade - fui apresentado ao sistema, ao modo de produção que rege a nossa vida e que não se separa da arte, por mais bela e divina que seja, por mais distante que seja de um objeto comercial, ela acontece dentro de um sistema capitalista.

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Lirinha em ação no monólogo Mercadorias e Futuro, que reestréia em novembro no Espaço Parlatapões, em SP. Divulgação

Lendo sobre as referências para a criação da peça e do personagem, vi que uma delas é o escritor João Antonio. Como se deu esse contato?
O João Antonio (1937-1996) foi a descoberta mais recente de literatura que eu tive. Minto, tive uma outra, que é J. Veiga, um escritor que eu não conhecia e que é muito bom. Escreve muito diferente de João Antonio. João Antonio foi Marcelino Freire quem me apresentou. E me deu logo o livro Abraçado ao Meu Rancor, que tem aquela passagem em que ele retorna para a casa da mãe num subúrdio de São Paulo, e é foda! Depois li Sete Vezes Rua, que é um outro trabalho dele, que me cativou muito. Lembra muito rap, mas não é a linguagem da rua que move. Ele tem uma estrutura clássica – pelo menos como eu vejo -, mas consegue fazer essa reunião entre uma determinada erudição e uma linguagem mais rítmica, musical.

O João Antonio era jornalista e seu texto é urbano, com aquele lance do flaneur, do observador que ouve com os olhos.
Em Sete Vezes Rua tem um conto em torno de um guardador de carros, um flanelinha, algo muito comum hoje na nossa vida. Ele é o protagonista. Isso parece ser um detalhe, uma besteira, mas não é. São poucas coisas escritas no Brasil que se dão voz a esse personagem. Não é alguém se passando por um mendigo, nem avaliando o mendigo, mas, sim, o personagem sendo o mendigo, sendo o flanelinha, e isso João Antonio faz como ninguém.

Que ponto comum você vê entre os artistas desse show – você, AfroReggae, Z’África Brasil e Ilê Aiyê?
O que eu vejo é um trabalho vai além do trabalho musical. São grupos que não apenas têm uma música para se comunicar, mas têm uma história e uma relação de discussão com problemas atuais. AfroReggae não precisa falar nada, é um trabalho que vai além da música. O Ilê é uma entidade. O Z’África Brasil é um orgulho. Um grupo muito coerente com suas idéias, com seus sons. E o Cordel do Fogo Encantado também tem uma existência que nunca é apenas ter uma música como fim de tudo, como ponto de chegada.

A questão-chave do Antídoto é a produção cultural em zonas de conflito. Você vê que a produção cultural pode ser uma ferramenta de transformação social?
Eu acredito muito nisso. Mas a gente não pode apenas acreditar que levar oficinas de percussão para as zonas de conflito dará uma oportunidade para aquele jovem sair de um mundo sem opções. A gente corre o risco de acreditar que com pouco esforço se resolve um problema tão complexo. São poucas pessoas que têm a condição de viver de percussão. Em Recife quantas pessoas vivem de percussão? Pouquíssimas. É possível que cinco pessoas vivam de percussão no estado inteiro. Naná Vasconcelos, os percussionistas do Cordel, da Nação Zumbi e vai parando por aí. O discurso “abrir possibilidades por meio da arte para o cara deixar a criminalidade” é perigoso. Ele não se basta, é muito pouco! Agora, a gente não pode esquecer os sentimentos que geram um grupo musical, a coisa da auto-estima, porque são elementos muito positivos. A arte tem de ser uma opção e não a única saída. Tem de ser uma opção dentro de outras opções. O cara pode ter um desejo seguir o caminho da engenharia, e a gente, como artista e como pessoas que pensam nessas coisas, tem de trabalhar para a construção dessas possibilidades, para o cara ser o que ele desejar ser.

Lirinha, como você lida com o tempo, com o envelhecer? Você pensa muito sobre isso?
Penso porque a gente vai se apegando. A gente se apega muito às coisas. E o tempo é uma aula de desapego constante. A gente sofre com os amigos que vai perdendo. Ao mesmo tempo, isso é uma das coisas boas que a proximidade com a poesia e a música me deram, essa consciência que as coisas vão ficando melhores, que a gente tem uma outra possibilidade de relação com o mundo. Embora nascido na cultura ocidental, da crepitude, que enxerga a velhice como deterioração, a poesia e a música me deram esse ensinamento que é de um outro lugar; dizem que é oriental. Tem uma cantoria que Jó Patriota fez de improviso e que diz: “Hoje eu não presto mais”.  Aí, Manoel Xudu segue: “Todo poeta é capaz / É árvore que imuchesse / Caem as folhas / Fica o tronco / Por fora a casca apodrece / Mas quanto mais passa o tempo / Mais o miolo endurece”. E eu acredito nisso. Tanto que digo, “A bênção, Mestre Xudu!”.

Você falou que as pessoas te param na rua e pedem uma poesia. Não estou na rua, mas você pode mandar mais uma?
Uma poesia de Marcelino Freire, que é interessante para esse dia de hoje: “Enquanto Zumbi trabalha cortando cana / Na Zona da Mata Pernambucana / Oloroquê vende carne de segunda a segunda / Ninguém vive aqui com a bunda preta pra cima / Tá me ouvindo, bem?”.

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outubro 13, 2008

“A arte é um limite entre a marginalidade e a criminalidade”, diz Gaspar, do Z’África Brasil

Por Ricardo Tacioli

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O MC Gaspar, do Z’África Brasil, cumprimenta uma senhora de 88 anos de idade durante show no Itaú Cultural/SP. Cia de Foto

Criado em 1995 por Gaspar e Fernandinho Beatbox, o Z’África Brasil é um dos representantes do rap nacional com um dos discursos mais coerentes da praça. Mergulhadas no universo afro-brasileiro, as letras versam sobre preconceito racial, opressão e desigualdades sociais. “O que importa é a cor / E quem tem cor age / Tem coragem de mudar o rumo da história / Coragem para transformar cada dia em vitória / É o canto da sabedoria / É o ataque / Reage agora, reage / Tem cor age, capoeira de maloca / Do fundo do coração proliferam idéias/ Centuplicando o pão a cada passo de uma centopéia”, expõe em “Tem Cor Age”, faixa-título do álbum de 2006 cantada no palco do Itaú Cultural neste sábado e domingo (11 e 12/10). “Os caras ficam com medo de ir ao Capão, a Campo Limpo, mas basta pegar o ônibus na Consolação, descer no fim da linha que você estará na quebrada! Agora, quem te impediu de ir lá? A barreira é mental. A gente canta esses mundos, essa diversidade de gente, de povo, mas do lado oprimido”, resume MC Gaspar, 30, durante entrevista ao Blog Zonas de Conflito.

O rap do grupo paulistano não se resume à herança norte-americana e jamaicana. Sintetiza batuques, música eletrônica e nordestina com o canto falado brasileiro, como a embolada. “Tudo tem a mesma origem. E posso usar as 80 modalidades (do canto falado) em meu trabalho em vez de ficar parado no quatro por quatro mal rimado”, provoca Gaspar que, em 2003, participou de um projeto com repentistas radicados em São Paulo.

Por essas e outras (como a atuação em movimentos sociais), o grupo se diferencia no cenário musical brasileiro e roda o mundo. Além de Gaspar e Fernandinho Beatbox, conta ainda com Pitchô, Funk Buia e DJ Tano. Tem dois discos de carreira (Antigamente Quilombos, Hoje Periferia, 2002, e Tem Cor Age, 2006) e o EP Verdade e Traumatismo (2007).

Abaixo, trechos da entrevista que Gaspar cedeu ao Blog Zonas de Conflito, encerrada com a declamação de “Caboclo Roceiro”, de Patativa do Assaré (…“De noite tu vives na tua palhoça / De dia na roça, de enxada na mão / Caboclo  roceiro, sem lar, sem abrigo / Tu és meu amigo, tu és meu irmão”).

Gaspar, como a música chegou em sua casa?
A música chegou em casa pelo meu pai, que toca sanfona. Desde que me conheço por gente ouço forró: Ari Lobo, Três do Nordeste, Trio Nordestino, Luiz Gonzaga, Dominguinhos. E crescendo no Campo Limpo, Capão Redondo e no Jardim Maria Sampaio é inevitável não ter acesso ao rap ou ao samba-de-raiz.

O Z’África Brasil é um grupo representativo do rap. E você lida com muitos ritmos musicais. O rótulo rap é limitante para entender o trabalho do grupo?
Eu odeio rótulos, tá ligado? Tenho até um som que diz “Tira o Rótulo”, mas o mais importante é a mensagem e o entendimento da arte que você está desenvolvendo. O nosso trabalho gira em torno da obra e não de uma opinião. E o Brasil sabe misturar as coisas - os ritmos que vêm de fora e os ritmos regionais. A gente começou a fazer isso com o rap, que até então era muito (calcado no) tradicional norte-americano. O Z’África veio com uma mistura brasileira, pegando as raízes jamaicanas, o bumbo e a caixa universais do rap norte-americano. O Funk Buia veio do samba; eu vim da embolada, do baião, do forró; o pai do Tano é de Pernambuco. O meu é do Rio Grande do Norte. O Pitchô é da Bahia. Somente o Buia não tem origem nordestina. A nordestinidade é um papel importante no trabalho do Z’África, junto com a africanidade, que todo o brasileiro tem. E a cultura hip hop, com a música rap, fez aflorar isso dentro da gente para que a nossa música - o ritmo e as misturas - tivesse uma verdade no contexto social, que representasse uma comunidade. (…) Como falo, todo brasileiro é afro-descendente, é afro-ascendente, assim como todo maloqueiro é o verdadeiro brasileiro, porque maloca é casa de índio, e quem nasce em maloca é maloqueiro. O Z’África conta essas histórias. Infelizmente, somos quase todos doentes, mas nem tudo se infectou.

E o que infecta, Gaspar?
O que infecta é o racismo, o preconceito, a discriminação. Uma pós-abolição que não teve reparação. Um país que comemora 200 anos da Corte, mas foi o D. João VI quem fugiu de Napoleão, enquanto aqui havia a Revolta dos Malês, Quilombo dos Palmares; várias revoluções que foram ocultadas na história e que estão sendo recontadas por meio do hip hop, do movimento negro. E contar a verdadeira história dos caras que construíram esse país. Aqui na Avenida Paulista qualquer prédio tem mão nordestina e africana. [ canta ] “Não tenha medo em dizer que tu é preto / Não tenha espanto em dizer que tu é branco / Não seja omisso em dizer que tu é índio / Nos tambores correm sangue nordestino / É brasileiro”. Do ponto de vista do multiculturalismo é lindo ver São Paulo, mas São Paulo está pouco se fudendo para entender sua mistura cultural e diversidade étnica. A última forma de escravidão no Brasil já não distingüe tanto a cor da pele, mas o ser humano.

Qual é a utopia, então?
A utopia está se realizando… A Europa tentou fazer o que o Brasil fez em 500 anos. A tendência agora com essas novas tecnologias é as pessoas se misturarem mesmo. Faço parte de um movimento chamado Humanitude. “Indígena atitude, branquitude, negritude, mas para a plenitude precisamos mais de humanitude.” Entender a riqueza cultural e a diversidade étnica de cada um. Eu falo que se você me jogar na África, vou usar meu lado africano que o Brasil me deu. Se você me jogar na Europa, vou usar meu lado europeu. E qualquer afro-descendente do Brasil também fala português e não adianta negar seu ascendência européia. O que eu faço? Não é ser camaleão, mas um cara que se adapta ao mundo. (…) Sei das minhas riquezas. Em vez de discriminar e tirar isso de mim, que está na frente e só não vê quem não quer, trago pra mim. Tudo quanto é riqueza indígena, eu trago pra mim. Se a gente come mandioca e toma banho todo dia é por causa dos indígenas. Eu moro na estrada do Pirajussara-Valo Velho, não tem como não buscar minha “indigenatitude”.

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Funk Buia (esq.) e Gaspar durante show no Itaú Cultural. Cia de Foto

O artista tem um papel em relação à sociedade?
Eu vejo a arte, não vejo o artista. Minha mãe sempre falava que eu era arteiro; então não me defino como artista. Sou um arteiro. O artista é quando chega num topo que não precisa alcançar e mudar mais nada. Continuo lutando, porque preciso mudar o meu redor… Na sociedade, os caras misturam marginalidade e criminalidade. Tenho orgulho de ser marginal, mas não sou criminal. Então, no limite da marginalidade e da criminalidade a arte é necessária porque é ela quem mantém o diálogo. É a única forma de’u poder estar aqui na Avenida Paulista, dentro do centro financeiro do Brasil podendo captar e conversar com pessoas que têm acesso aos caras da grana que podem ajudar nossos projetos. Em vez de chegar revoltado, vou dialogar. Então, a arte nos oferece e permite isso. Tenho uma poesia em que falo: “Venho do mocambo para fazer escambo / Quando os homens vêm, eu cambo / Eu volto para o quilombo / (…) / Eu podia estar roubando / Mas estou criando / Criando harmonia por onde estou passando”. Poderíamos estar fazendo coisas piores, mas temos a arte, que é o limite entre a marginalidade e a criminalidade. E, graças a Deus, fui salvo não somente pelo hip hop, mas pela arte. E o poder de diálogo que o Z’África tem pode contribuir muito para a quebrada. E a gente vem contribuindo. Estamos comemorando o oitavo aniversário da Ponte Preta do Jardim Leme – Taboão da Serra. Temos um projeto lá que se chama A Firma e fazemos a festa para as crianças no Campus do Jardim Leme todos os anos. E cada vez mais as expectativas e a responsabilidade aumentam. E é isso que é trabalho de comunidade, como faz o Ilê Aiyê e o AfroReggae. Você está lá dentro, dentro da problemática. Vamos falar de Paulo Freire? A gente trabalha com a problemática! Tenta-se resolver lá e depois trazer (os resultados) pra cá… É um grande escambo!

Gaspar, de onde vem seu conhecimento musical e de assuntos diversos?
Hoje a gente compõe, não rima somente. Se eu quiser rimar, faço um improviso, é mais fácil. Para escrever, a gente compõe. Dependendo do tema, leio dois, três livros, pesquiso na internet. Tem coisas que faço em 15 minutos com aquilo que pesquisei em um ano. No CD Tem Cor Age a última faixa é a “Rei do Cangaço”, em que fiquei seis meses fazendo a letra e pesquisando a história do cangaço. E se você for lá na Elemental, que é o nosso espaço, tem livros. A toda hora estou escambeando nos saraus da Cooperifa. O músico tem de estudar, pesquisar e buscar sempre novas coisas. O rap está muito óbvio! Então o Z’África busca o que não fizeram. Por isso que dá gosto misturar rap com embolada.

O rap pode se renovar?
Sempre. O rap tradicional se perdeu no jamaicano e no norte-americano. Não se olha para o nosso canto falado, e é isso que eu digo, que há muita coisa para evoluir, porque quando se mistura com o nosso, fica louco. “E quem foi que falou que repente e embolada não é rap? Na certa estava enganado, ele é rap, sim, senhor”. Isso é que dá gosto. E você vai quebrando preconceitos.

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