Terra Magazine

outubro 31, 2008

“Minha meta é tirar 100 meninos do crime”, afirma ex-detento

Por Ricardo Tacioli

BetoNorton

O policial civil Beto Chaves e o ex-presidiário Norton Guimarães. Cia de Foto

A parceria não somente parece, como é inusitada. Um jovem policial civil e um ex-presidiário de extensa ficha corrida promovem há um ano palestras em escolas e empresas para alertar jovens sobre os perigos do mundo do crime e das drogas. O primeiro é Beto Chaves, 32, inspetor da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA), do Rio de Janeiro. O segundo é Norton Guimarães, 51, ex-presidiário de Bangu III, onde cumpriu sete anos e seis meses de prisão.

Nas palestras, a dupla narra experiências pessoais, cada um de um lado da linha que os separou por muito tempo. Hoje falam a mesma língua e são grandes amigos.

Norton assaltou bancos, carros-forte, e liderou rebeliões em presídio. Tornou-se um símbolo na criminalidade. Mas foi o pedido de sua filha mais nova, Thayssa, então com cinco anos de idade, que fez com que abandonasse de vez a vida que levou por mais de 30 anos. A caçula disse no Natal de 2005 que o presente que gostaria de ganhar de Papai Noel era ver o pai fora da prisão. E em fevereiro de 2006 Norton se despediu da cadeia pela porta da frente.

Nunca envolvido com tráfico, como faz questão de grifar, Norton enfrentou um dos problemas que afetam todos os egressos do sistema penitenciário, a (re)integração à sociedade. Passou por maus bocados para tentar sustentar a mulher e a filha até se tornar agente de projetos sociais do Grupo Cultural AfroReggae, como o que tenta tirar meninos da marginalidade e empregá-los no mercado de trabalho. Mais de 70 garotos já foram empregados com carteira assinada, garante Norton.

“Fui assaltante, e sempre gostei muito de dinheiro para comprar jóias, carros e alimentar as minhas farras. Hoje, de coração, vejo que essa “mega-sena” não surte o mesmo efeito em mim como esse trabalho que faço, de ajudar as pessoas que estão saindo do sistema penitenciário, que estão querendo se livrar da criminalidade,  e que estão na beira da criminalidade… Hoje sou uma referência pra essas pessoas! Pô, já ganhei mais de 70 mega-senas”, afirma Norton. “O que mais me estimula nisso tudo é tentar transformar as pessoas no mesmo vitorioso que sou hoje.”

Dezenove anos mais novo que o parceiro e amigo, o cabeludo Beto Chaves também nasceu e se criou na Zona Norte carioca, onde empinou pipas, jogou futebol na rua e trabalhou no comércio. Hoje, além das investidas policiais em morros e das investigações de praxe, faz pós-graduação em Segurança Pública e representa o Escola Segura, projeto criado pela Polícia Civil carioca que promove ações sócio-pedagógicas em escolas.

Mas foi a partir de uma palestra do AfroReggae conduzida por Norton para os meninos-internos do Departamento Geral de Ações Socio Educativas (DEGASE) que Beto encontrou seu parceiro ideal. Nascia aí o projeto Papo de Responsa, braço do Escola Segura que, com discursos diretos de um policial e de um ex-presidiário, fala das armadilhas das drogas e do sistema que elas alimentam aos meninos das escolas do ensino fundamental e médio.

Leia a entrevista que Beto Chaves e Norton Guimarães cederam ao Blog Zonas de Conflito durante o Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito, promovido entre os dias 2 e 23 de outubro, no Itaú Cultural, em São Paulo.

Norton, o que é uma polícia ideal?
Uma polícia ideal é uma polícia cidadã, uma polícia interaja e que perceba os problemas da comunidade. Uma polícia que veja que um menino pode a qualquer momento se envolver com tráfico de drogas porque não tem opções; a vida não dá isso pra ele. A polícia ideal não é a polícia repressora, a polícia combativa, de confronto. É a polícia que respeita. Imagino um dia um policial, civil ou militar, passar na comunidade e falar para as pessoas “Bom dia!” e elas “Bom dia!”, mas ele armado com suas armas de policial sem precisar do fuzil e daqueles aparatos de guerra.

Beto, esse discurso de buscar uma nova polícia existe dentro da corporação?
Eu me pergunto todo dia a quem interessa tudo isso que a gente está vivendo. A quem interessa batermos todo dia na polícia? Ao policial não interessa. Ao cidadão não interessa. À sociedade não interessa. A quem interessa manter todo mundo acreditando que a polícia é somente isso? A quem está interessa fazer com que a sociedade acredite que não existe mais solução? E na polícia há o mesmo questionamento e também o desejo de querer ser vista de uma outra maneira. Brinco dizendo que a gente não veio de Poliçópolis. A gente veio dos bancos escolares, a gente fez faculdade - e na polícia civil do Rio quase 90% dos homens e mulheres tem curso superior -; muitos são músicos, professores, trabalham com segurança. Mas a polícia hoje é um gigante bobo, porque não consegue se colocar para a sociedade. Existe problema de corrupção na polícia? Existe, como também existe no hospital, no Congresso, na escola… A quem interessa pontuar somente este retrato de instituição corrupta? Quem é que diz não? Não são os bombeiros que dizem não. Não são os médicos quem dizem não. É a polícia que diz para você não fazer. Que cidadão quer que um policial o multe ou diga “Não faça isso!”? Que corrupto, que sonega imposto, que quer que o policial diga “O senhor está preso, porque a sonegação de impostos…”. O comerciante que faz isso quer que o policial o prenda? Então, pra muita gente interessa que o policial continue ganhando pouco, sendo mal visto. Mas para o policial, para os cidadãos de bem que necessitam do serviço de segurança pública não interessam. Para o policial não interessa vestir o uniforme e saber que o cidadão o vê um safado, um arbitrário, um corrupto, um truculento. E dentro da polícia há movimentos fortes de pessoas íntegras que dizem “Não quero isso! Olhem de uma outra maneira”. Mas existe um grande muro que a gente não ainda sabe a altura e o comprimento que tem. Sou uma pessoa extremamente otismista, mas muito realista, e essa movimentação está acontecendo.

Norton1

Norton Guimarães. Do crime e da prisão para o AfroReggae, em que atua como mediador social. Cia de Foto

Norton, entrevistei os meninos do Afro Samba (um dos projetos musicais do Grupo Cultural AfroReggae) e um deles me disse que “Sei que é errado, mas ver o bandido rolando com a arma dá uma empolgação”… Pra você, um mediador social, como buscar e estimular outra empolgação que não essa que o crime oferece?
Fico muito feliz quando vejo os meninos dos subgrupos do AfroReggae, como o Afro Mangue, Afro Samba, Afro Lata ou a trupe de teatro. Eles foram criados na comunidade, então viram o que é o outro sucesso, que é namorar meninas bonitas da comunidade, ter seus carros, seus ouros, portar um fuzil, ter dinheiro. Mas hoje em dia, a gente faz um trabalho social que mostra que eles podem ter isso tudo dignamente. Fico tão feliz quando vejo os meninos viajarem para shows no Uruguai , em Londres, Índia, China… Caramba, são pessoas da comunidade, da periferia! Esse é o sucesso real, porque quando voltam para seus familiares, podem ouvir “Meu filho voltou para mim!”. Há pouco tempo perdemos um menino do Afro Samba (o cavaquinista Mauricio que faleceu vítima de problemas cardíacos). Foi um choque para todos! Estávamos no cemitério quando ouvi uma frase muito interessante de uma parente dele. Eu a abracei, e ela falou assim: “Norton, ele morreu aos 20 anos de idade. Era muito feliz com o que fazia no AfroReggae. Fico triste vê-lo ir embora, mas o que me deixa mais feliz é saber que quem tirou a vida dele foi Deus, não foi o homem com um tiro, com uma granada, com uma facada”.

Beto1

Beto Chaves é um dos policiais que promovem palestras sobre drogas e segurança pública em escolas e empresas. Cia de Foto

Beto – Falo para o Norton que a polícia não pode ser a primeira a entrar nas comunidades. Tem de entrar primeiro a saúde, habitação, saneamento, asfalto, trabalho… Tudo para diminuir a desigualdade. “Vamos diminuir a maioridade penal?” “Vamos dar primeira a oportunidade? E depois a gente cobra?” É complicado cobrar sem dar. É o que acontece na polícia, que tem um salário muito pequeno, trabalha em condições precárias e aí é cobrada. “Pô, você vai cobrar de um mendigo para que se comporte no cinema se ele nunca teve oportunidade de ir ao cinema? Para muitos presentes no Antídoto foi uma surpresa ver que o policial sabe falar, que estuda.

Norton, como o seu trabalho é visto pelos amigos que estão em situação de risco – em presídios ou no crime ainda?
Ninguém gostaria de estar nesses lugares . Depois de nove meses de gestação, o médico bate na bundinha da criança e diz  “É homem ou mulher”, e não diz “Esse vai ser bandido!”. As oportunidades e as escolhas fazem a criança seguir um ou outro caminho. Então, tenho consciência e certeza de que a maior parte dos que estão no sistema prisional hoje me vêem como uma referência. E muitos gostariam de estar no lugar que estou ocupando. Mas agora o que mais almejo na vida é chegar em 2010 e ter tirado do sistema penitenciário, da criminalidade ou do risco da criminalidade, 200, 300, 400, quem sabe até 500 meninos. Quero chegar no fim deste ano tendo empregado 100 jovens. Esse é o meu ideal!

Blogs que citam este Post

10 Comentários »

  1. Muito boa a iniciativa, espero que cada vez mais nossa sociedade tenha a consciência de que estas medidas são necessárias se queremos melhorar nossas vidas. Pena que pra maioria que está no crime é muito mais fácil se afundar de vez do que tentar ir atrás e recomeçar. Mas parabens aos dois pelo projeto.

    Comentário por Filipe Schulz — outubro 31, 2008 @ 2:50 pm

  2. voces dois etao de parabens se todos cidadaos tivessem pelo menos 20% desta conscientizaçao que voces tem, o mundo com certeza seria melhor para todos ,desejo com todo o coraçao que o norton consiga almejar todos os seus objetivos inclusive de salvar estas pessoas da criminalidade,fiquem com DEUS.

    Comentário por marina dos santos — outubro 31, 2008 @ 2:54 pm

  3. Belíssimos depoimentos e grandioso trabalho de resgate de cidadania destes homens brilhantes: o policial Beto Guedes e Norton Guimarães. Exemplos a serem seguidos e ação grandiosa a ser multiplicada pelo país. Neste momento, orgulho-me de ser brasileira.

    Nossos jovens através de diversas desigualdades sociais e dificuldades do gerenciamento emocional partem para a marginalidade de forma crescente. A educação é um dos grandes recursos para a prevenção. Mas, como educar se eles tem fome de: comida, condições básicas de vida, amor, paz e esperanças de dias melhores.

    Realmente, depois dos atos cometidos de forma equivocada fica dificil de oportunizar as reais chances de RECOMEÇAR. E, estes dois brasileiros estão fazendo aquilo que a maioria de nós não tem coragem de fazer. Iluminar o coração e conscientizá-los de que as escolhas feitas terão sempre um resultado positivo ou negativo conforme o discernimento de separar o joio do trigo. O relato das experiências de Norton exemplefica através de fatos as dificuldades da escolha errada e mostra como ele deu a volta por cima. Este estímulo por ter alcançado 01 adolescente já vale a pena.

    Parabéns para todos os envolvidos neste Trabalho De Resgate da Cidadania dos Jovens representados tão bem conforme a entrevista de Beto Chaves e de Norton.

    QUE DEUS CONTINUE ABENÇOANDO ESTE MOVIMENTO DE AMOR AO PRÓXIMO.

    Comentário por CIDDA SILVA — outubro 31, 2008 @ 3:00 pm

  4. Isso é para ver o que as pessoas merecem uma segunda chance e que o Estado Brasileiro não tem estrutura para cuidar das pessoas, cobram um imposto absurdo, pagam um salário absurdo aos politicos e deixam a Saúde, Educação, Moradia e Seneamento Básico de lado. Outro dia vi uma reportagem no SBT com a Hebe em Dhubai, lá não tem Vereador, Prefeito, Deputado Estadual, Governador, Deputado Federal, Senador e Presidente e as coisas funcionam bem!
    Se acabasse isso aqui, com certeza as coisas seriam melhor, os Politicos Brasileios são um Câncer no Coração do Brasil!!!
    Paabéns pela atitude!

    Comentário por Iuri — outubro 31, 2008 @ 3:07 pm

  5. OBRIGADO SENHOR POR COMECAR TRABALHAR PROFUNDAMENTE NESSE BRASIL,PRESCISAMOS DE URGENCIA……NORTO, NAO LIGUE PARA QUE OS NOSSOS IRMAOZINHOS PENSEN O IMPORTANTE E O QUE NOS FAZEMOS O QUE DEUS PERMITE.PARABENS PELA SUA ATITUDE CAMARADA…NOTA MIL….
    BETAO MARAVILHA MEU QUERIDO..
    QUE DEUS CONTINUE TE ILUMIANDO
    HOJE E SEMPRE….OS DOIS JA GANHARAM O CEU ….GLORIA A DEUS OBRIGADO SENHOR…………

    Comentário por FELIPE PIRACICABA S/P — outubro 31, 2008 @ 3:07 pm

  6. Sabemos que existem sim policiais honestos que querem fazer a sua parte.
    Infelizmente, os maus exemplos é que são amplamente divulgados e ótimos exemplos como os citados acima não têm tanto IBOPE. E hoje, a boa-fé não é mais presumida e sim o contrário… é a má-fé que é presumida. Ainda mais vindo de policiais e antigos bandidos.
    Graças a Deus que ainda existem pessoas que querem fazer a diferença!
    Que mais pessoas sigam o exemplo deles e também queiram fazer a sua parte para que o mundo se torne um pouquinho melhor!

    Comentário por Cintia — outubro 31, 2008 @ 3:32 pm

  7. Parabens homens do bem, que Deus os ilumine para que vcs possam ter forças e determinação para continuar essa batalha, pedirei ao nosso pai Deus e a Jesus nosso mestre para os protgerem. Fico feliz pelo trabalho de ambos, pois perante Deus somos todo irmãos. Portanto irmãos vão em frente estarei sempre por vcs atraves das orações. Fiquem com Deus e Jesus um grande abraço.

    Comentário por Lina — outubro 31, 2008 @ 4:36 pm

  8. Falar oque de pessoas como estas que sabem tudo da vida, para o bem e para o mal. Só orar por eles e dizer que Deus os proteja. Também dizer porque os politicos dessa terra que se acham os deuses da humanidade e estão acima do bem e do mal são eles que criam tantos fundos pra tudo, porque criam também para esses Anjos da terra que são essas pessoas. Parabéns Beto e Norton e que só Deus poderá lhes compensar.

    Comentário por Dario Morais — outubro 31, 2008 @ 4:53 pm

  9. Esse tipo de coisa deveria se copiado por prefeitos de inúmeras cidades onde o problema está crônico, em cidades da região de Campinas por exemplo o crime avança rapidamente por conta de drogas, o maldito vício que assola a juventude. Iniciativas de prefeitos de pequenas cidades deveriam ser compromissos de campanha para trazer policiais como Beto as escolas.

    Comentário por Calssavara — novembro 7, 2008 @ 11:44 am

  10. Parabéns ao Beto Guedes e ao Norton Guimarães.
    Faltam mais iniciativas como a de vocês dois.
    Todos tem direito a dignidade e acredito que Deus tem usado a vida de vocês para restaurar a dignidade destes jovens. Continuem com este excelente trabalho, espero que mais policiais sigam este exemplo.
    Chamo também a atenção dos nossos governantes, que tem fechado os olhos para a população carceraria e deixam a sensação de “se vira” com os policias. Isso não pode continuar, os policiais precisam de uma remuneração digna. Cobrar é fácil mas ajudar é complicado.

    Policias, nunca se esqueçam, vocês trabalham para a comunidade. Somos todos parceiros e o trabalho de vocês é muito importante.

    Que Deus continue abençoando e protegendo todos os policias que trabalham com dignidade e honestidade.

    Comentário por Daniel Pina — novembro 7, 2008 @ 12:24 pm

Feed RSS para os comentários do post. Link de TrackBack

Deixe seu comentário

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol