País dos Homens Íntegros é alvo de documentário de músicos brasileiros
por Ricardo Tacioli
Em Burkina Faso. Ao fundo, com a filmadora na mão, Márcio Werneck. Patrick Lavaud
Provavelmente você nunca ouviu falar em Burkina Faso. Muito menos sabe onde fica, o que tem, quem vive lá e o que faz. Então, por que falar de um lugar que pouca gente conhece? Bom, se esse motivo não basta, outro é mais que suficiente: a possibilidade de reconhecer as semelhanças e diferenças com o Brasil.
Burkina Faso não é um lugar encantado de um livro de histórias. É um país localizado na África Ocidental, margeado por outros seis países, estendendo-se entre o deserto do Saara e o Golfo da Guiné. Ali tem floresta ao sul, deserto no norte e, ocupando a maior parte, savana. O país está a cerca mil quilômetros do mar. Com uma população em torno de 11 milhões de habitantes, uma taxa de alfabetização de 24%, e 80% da população dependente da agricultura de subsistência, Burkina Faso deixou de ser colônia francesa em 1960 mas não perdeu o posto no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Segundo levantamento de 2007 da Organização das Nações Unidas, o país possui o segundo pior IDH de uma lista com mais de 170 países. Ganha apenas de Serra Leoa. E para piorar, a realidade de um dos países mais pobres do mundo ainda fica nas mãos de São Pedro: durante todo ano, quase não chove em Burkina Faso.
Mas antes de ser Burkina Faso, Burkina Faso era Alto Volta e assistiu sucessivas ditaduras militares que se revezaram no poder pós-1960. Foi num desses golpes e contra-golpes que a história tomou outro rumo. Em 1983 o capitão Thomas Sankara assumiu o bastão e tentou ditar novas regras. Combateu a corrupção, incrementou a educação e a agricultura, ampliou os direitos da mulher e estimulou a democracia participativa. Em seus discursos, falava sobre “descolonizar a mente”. Mudou o nome do país para Burkina Faso, que quer dizer País dos Homens Íntegros. A classe média local e os países ocidentais não gostaram. Não deu outra. Foi assassinado em 15 de outubro de 1987. No poder desde então, Blaise Compaoré.
Impulsionado pela sua participação no NAK – Noites Atípicas de Koudougou, um dos mais importantes festivais de música da África, o violonista e historiador Carlinhos Antunes registrou em 2007 este cenário e produziu, ao lado do também músico e companheiro de viagem Márcio Werneck e do francês Patrick Lavaud, o criador do festival, o documentário Sete Dias em Burkina. Ao longo de 52 minutos, o vídeo retrata a trajetória de duas pessoas que, unidas pelo mesmo sonho, fundaram instituições culturais e educativas para crianças e jovens nas cidades de Koudougou e Bobo-Dioulasso.
“Foi muito difícil fazer esse trabalho, porque sobre a África a gente tem duas visões: de pena e de glamour, que abomino. O exótico é sempre glamouroso. Nesse sentido, o Brasil é legal, porque tem essa dupla faceta: é tanto Europa, quanto África, Índia”, declarou o violonista ao Blog Zonas de Conflito. O documentário foi exibido pela primeira vez no Brasil durante o Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito, realizado no Itaú Cultural, em São Paulo.
“A gente não foi com a visão Estamos aqui na África para entrevistar. Nenhuma entrevista teve um pré-roteiro. Eles não sabiam que estávamos fazendo um documentário. A gente fez milagre em oito dias em Burkina Faso, porque lá tem muita coisa. E gravamos tudo com uma câmera só. E ainda há muito para mostrar sobre o África, principalmente sobre as diferenças entre as etnias e os possíveis conflitos.”
Um dos protagonistas do documentário é Koudbi Koala, fundador da Associação Benebnooma que atende mais de 300 crianças todos os dias e mantém uma escola regular primária e cursos profissionalizantes de serralheria, carpintaria, informática, enfermagem, corte e costura, e rádio e TV. “O mundo é uma vila, uma cidadezinha”, declarou Koala, que esteve no Brasil para participar do Antídoto. “O meu sonho é que as pessoas dividam as coisas, que as pessoas se entendam e dividam tudo entre si e outros países; é a solidariedade”, revela o também fundador do grupo de música e dança Saaba.
“Na África, em uma família de 20 pessoas, somente uma pode estudar. E é muito raro quem pode estudar fora da África. A história desse documentário é a de uma pessoa que pôde estudar e voltou, e de outra que não pôde estudar e queria que todo mundo estudasse”, esclarece Carlinhos Antunes. “O índice de alfabetização ainda é muito baixo, mas antes apenas 5% do país era alfabetizado. Hoje você tem um índice de 25, 30%, que ainda é muito baixo. Isso foi abortado quando mataram Thomas Sankara, que investia muito em educação”, conta.
“O cara (Koudbi Koala) volta ao país, junta dinheiro dando aula e monta uma escola para as crianças. Descolonizar a mente é convencer as pessoas de que aquilo que ele está fazendo, e que ninguém acredita, é verdadeiro. É utilizar a arte como uma ferramenta revolucionária. Então, o que é capaz de descolonizar a mente é a arte”, filosofa o violonista-historiador.
O violonista Carlinhos Antunes - em primeiro plano - em uma sala de aula em Burkina Faso. Patrick Lavaud
“Ela propicia que você valorize sua cultura; propicia que você conheça o mundo mas sem a visão de quem não quer ficar na África. Isso é muito sério: eles não vão para a França para ficar na França. Eles vão à França e voltam com mais vontade de ficar no país de origem”, conta Carlinhos.
“A França tirou tudo da gente. E quando as pessoas vão para lá, elas respeitam os franceses e sabem a distância entre o que são os outros e o que elas são”, elucida Koala sobre um dos princípios que alimentam a tese de “descolonizar a mente”.
“A gente acha que é como aqui (no Brasil), que o sonho é ir para os Estados Unidos, morar lá e se estrepar. É melhor ser nada lá do que digno aqui. Para eles, não! Você é um imigrante, como a maioria dos imigrantes que vivem mal. Eu sei porque morei cinco anos fora do Brasil. Então, você é um imigrante e vai perdendo a sua cultura. Você vai deixando de ser o que é e não se torna em nada. Você nunca vai ser um francês. Você vai se diluindo. Você pode dizer Ah! Mas eu tenho uma conta bancária… Tudo bem, estou falando de cultura. Você se dilui como pessoa. Descolonizar a mente seria isso, valorizar o que você tem. Isso veio do Thomas Sankara”, defende Carlinhos.
Num país há pouco tempo independente e com 60 etnias, a noção de identidade nacional é construída, segundo Koala, respeitando a diversidade. “Todos são diferentes, mas se complementam e se respeitam. Então, a diversidade é a riqueza, que é cultivada. Isso pode ser visto com relação à religião: numa mesma família pode-se ter um muçulmano, um cristão, um animista. Não existe briga por conta das diferentes religiões.” No entanto, Carlinhos Antunes aponta outros ângulos para defender a construção de identidade nacional.
“Burkina tem 60 etnias. Outros países tem mais de 200. Novamente, o papel do Thomas Sankara foi fundamental. Ele dizia que não bastava ser independente politicamente da França, porque se toda a dependência cultural e econômica continuasse, seria uma independência de fachada. Tinha de ser um país e não uma tribo. Ele diz que você somente consegue viver dignamente se pensar como um africano, e não como um europeu. E outra coisa é valorizar a sua cultura e suas diferenças; e as diferenças não são conflitos, mas riquezas. E a pobreza ajudou a uni-los. Se tivesse uma região muito rica em petróleo, outra em minério, outra em qualquer matéria-prima, o país estaria dividido. Então, os habitantes de Burkina Faso se igualaram pela pobreza. Isso faz com que exista menos discrepância social, portanto menos conflito. Em outras palavras, há menos donos dos meios de produção… E a partir de 1980, Sankara deu o nome de País dos Homens Íntegros; você pode ser corrupto, mas nasce com uma responsabilidade.”
Koudbi Koala estudou na França. Na volta, trabalhou no governo, que não entendeu o porquê de sua saída para montar a associação. “O governo não ajuda, mas não atrapalha. Na verdade, é o governo quem deveria educar essas crianças. Hoje, ele convida a Associação para fazer propostas de ensino técnico porque reconhece que ela está a frente”, revela Koala.
E há pouco tempo o Brasil instalou sua primeira embaixada em Uagadugu, capital de Burkina Faso.


é impressionante o grau de doutrinação ideológica que vcs tentam passar para as pessoas que lêem essas reportagens.
Thomas Sankara era um ditador marxista e teve o fim que procurou. 80% da responsabilidade e da realidade africana é de responsabilidade deles mesmos. Governos corruptos, cleptocracias, ditaduras, etc…
Não tentem passar a imagem de que a culpa foi SOMENTE do ocidente. (…)
Comentário por Ítalo — novembro 7, 2008 @ 11:04 am
Temos que valorizar nosso modo próprio de viver. Isso deixa os países ricos atormentados. Não existe somente um modo de vida. A nossa cultura é bela e prazerosa.
Comentário por Sérgio R. Caliman — novembro 7, 2008 @ 11:14 am
Falar da África é sempre importante, pois parece que esquecemos de conhecer seus países e dar voz ao povo que sofre com conflitos , pobreza e ,muitas vezes, corrupção que leva a desigualdades …. Tomara que o documentário possa ser apreciado por mais pessoas aqui no Brasil…
Comentário por Roberto Ramos — novembro 7, 2008 @ 12:24 pm
“Você se dilui como pessoa. Descolonizar a mente seria isso, valorizar o que você tem”. =,)
Meu Deus, nesse mundo de inversão total de valores, é muito bom ver que alguém pensa e mais que isso, luta por igualdade e não se corrompe, em meio a tanta pobreza…mesmo tendo a oportunidade de estudar fora de seu país, volta para lutar pelo direito de todos…Brasileiros, vamos descolonizar nossas mentes!!!!
A sociedade capitalista tornou-se um ácido, corroendo o coração das pessoas que confundem “ética com éter”…
Que nosso Brasil lindo, com essa mistura de cultura, com toda essa riqueza se torne “Burkina Faso”!!!!!
Comentário por Géssica Peniche — novembro 7, 2008 @ 12:30 pm
mto boa esta matéria gostei um pouquino a mais de saber.
Comentário por Júlia — novembro 7, 2008 @ 12:46 pm
Parabéns aos autores do documentário e ao autor do texto que li! Onde posso ver o filme? Tem algum site na internet?
Comentário por Arue — novembro 8, 2008 @ 6:12 pm