Terra Magazine

outubro 9, 2008

Afro Samba, uma das vozes de Vigário Geral

Tags:, , , , , , - Ricardo Tacioli às 4:00 pm

Por Ricardo Tacioli

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O grupo Afro Samba com as crianças em Vigário Geral. Divulgação

1993 é um ano que nunca vai ser esquecido pela comunidade de Vigário Geral. Em janeiro, surgia o Grupo Cultural AfroReggae, entidade não-governamental que trabalha com projetos sociais e culturais, que tem no conjunto musical de mesmo nome seu principal embaixador. Mas foi em agosto daquele ano que o nome do bairro circulou o mundo. Um grupo de mais de 50 homens encapuzados e armados tomou a favela da zona norte da capital carioca e matou 21 pessoas. Nenhuma tinha vínculo com o tráfico. Foi uma das chacinas mais violentas que aconteceram no Brasil. Dos 52 PMs acusados pelo crime, apenas sete foram condenados.

Quatro anos mais tarde, na mesma comunidade, uma menina aceita o convite de um colega de escola para fazer uma música. Ambos eram estudantes do CIEP Mestre Cartola, localizado entre Vigário Geral e Parada de Lucas. Com dez anos de idade, Raquel não sabia nada de música. Apenas estudava. Picusha já tocava cavaquinho e participava das oficiais culturais do Grupo Cultural AfroReggae. A música foi apresentada na escola e Raquel levada ao Grupo Cultural. Começava ali a história do Afro Samba.

“Antigamente era Funk Samba. Depois de um tempo, quando grupo ia acabar, apareceu o Écio Salles, nosso ex-coordenador. Ele nos incentivava, botava CDs de samba para ouvirmos. E foi quando começamos a tocar samba-de-raiz. Antes a gente só barulhava; tocava qualquer coisa”, revela a percussionista Raquel Pretinha. “A gente gostava de músicas que falavam de amor, como as do Sorriso Maroto, Jeito Moleque, essa rapaziada aí”, intervem Jonatan Moraes, baterista do grupo. Perguntado se deixaram de gostar de pagode-romântico, Raquel não deixa a peteca cair. “Não, nós tocamos, não temos preconceito. Mas quando escutávamos os CDs que o Écio trazia, dizíamos Caraca, vamos tocar isso?  Essa música é de velho!” .

E assim começou o bate-papo com um dos grupos mais jovens do samba. Com idade entre 14 e 23 anos, os seis integrantes do Afro Samba distribuíam timidez, frases curtas e alegria na única entrevista do dia. Antes haviam ensaiados no palco do Itaú Cultural, onde se apresentam nesta quinta e sexta ao lado do Samba da Vela.

“Quando o Écio chegava no ensaio dava um desânimo, uma vontade de ir embora”, continuou Alexsander Maganola, o Lecão, pandeirista e um dos cantores do grupo. “Foi estranho. O cara chegou com Nelson Sargento, Cartola, Bezerra da Silva, e começou a explicar a história do samba. Aí a gente foi se interessando”, amenizou Jonatan, novamente seguido da única menina do grupo. “A gente não sabia cantar nada. O Lecão não era nem cantor. O Écio falou para gente: Se vocês conseguirem tocar 10 músicas em um mês, dou o maior festaço na minha casa.  Em menos de um mês fizemos as 10 músicas de samba-de-raiz. A festa encheu, ficou lotadão!”. Da festa de batismo, o grupo já emendou em outra, de aniversário do Centro Cultural do AfroReggae, o primeiro show num palco. “Mas subimos no palco preocupados. Será que o povo vai gostar de samba-de-raiz?  Estava cheio o campo. E aí todo mundo gostou”, responde a percussionista,  sorridente e orgulhosa.

E hoje, como vocês se definem? “Somos um grupo de samba-de-raiz moderno”, contemporiza Ivan, 23, um dos violonistas e o integrante mais recente do sexteto. “A gente pega músicas daqueles CDs bem antigos e transforma em sambas com a nossa cara”, defende Jonatan que, ao lado de Lekão e do baixista e violonista sete cordas Everton Gomes, o Tom, 18, forma a trinca de compositores do Afro Samba. “Às vezes, uma parte da letra, em vez de fazê-la cantada, a gente faz como se fosse um rap, um funk, um soul. A gente está modifica alguma coisa. Como uma música lenta do Gonzaguinha, em que a gente começa em reggae e depois muda para samba”, afirma Lecão. “Tudo para dar um brilho diferente”, arremata  Tom.

E foi esse brilho diferente, adicionado à juventude e talento do grupo, que fez com quem se apresentassem em palcos afamados, como do Canecão, Circo Voador, Teatro Rival, Arcos da Lapa e no São Paulo Fashion Week 2007, além de terem acompanhado estampas como da MPB e do samba, como Gilberto Gil, Martinália, Dudu Nobre, Nelson Sargento, Almir Guineto, Seu Jorge, Luiz Melodia e Beth Carvalho.

“Uma vez fizemos um show com o Nelson Sargento na Casa da Mãe Joana, na Lapa, e o Écio disse que ele seria um bom padrinho da gente. E a gente começou a considerá-lo como padrinho. Mas depois arrumamos o Arlindo Cruz e a Dorina, com quem fazemos shows de vez em quando”, explica Lecão.

Com mais de dez anos de história, o grupo - que um dia já teve bailarinos e capoeiristas, conforme revelaram às gargalhadas  - mescla seu repertório de clássicos do samba e partido-alto com músicas autorais, e tudo é arranjado coletivamente. Reúnem peças de Zeca Pagodinho, Paulinho da Viola, Almir Guineto, Dona Ivone Lara e Gilberto Gil com composições próprias que falam de amor, favela e samba-de-raiz, como as Lecão, Mucato e Junior Parente (“Retratos de Domingo”), e João Grilo e Écio Salles (“Dois a Um”).

“A base pra gente é o Fundo de Quintal. É o que a gente mais escuta. Um grupo de samba-de-raiz que ainda está em alta na mídia”, declara Ivan sobre a banda de quem tocam o sucesso “O Show Tem Que Continuar”.

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O Afro Samba durante ensaio no Itaú Cultural. Por Ricardo Tacioli

Vindos de uma das regiões mais violentas do Rio de Janeiro, os meninos reconhecem como a música e a participação em atividades como as promovidas pelo Grupo Cultural AfroReggae definiram novos rumos para suas vidas. “No Rio a violência está em alta. Os menores estão indo para o tráfico. A música traz uma coisa diferente, dá um futuro, uma oportunidade de crescer, de fazer algo que a gente gosta. O AfroReggae abriu as portas para a gente de um jeito que modificou a vida de todo mundo. Viajamos pelo Brasil, conhecemos vários lugares, fazemos shows”, declara Ivan.

“E detalhe: somos guerreiros. Na favela, onde a gente mora, é guerra, é tiroteiro. É a polícia atirando… Às vezes, quando traficante passa rolando no chão dá empolgação, mas a gente sabe que aquilo é errado e estamos sempre nos segurando. Não é dizer que estamos com vontade de ir (para o tráfico), mas você diz: Olha o cara, olha o cara. Que sinistro! O cara rolou no chão, que maneiro!  Somos guerreiros pelo que passamos na comunidade e no grupo”, confessa Lecão, que ainda revela que o Afro Samba já perdeu dois cavaquinistas: o pioneiro Picusha, levado pela violência, e Mauricio Machado, morto há um mês em decorrência de problemas cardíacos.

Questionados sobre onde vocês querem chegar, o grupo que ainda não gravou seu primeiro disco revela o desejo todo o artista. “O nosso sonho é ligar o rádio e ouvir a nossa música. Seria o auge do Afro Samba!”. E como “orkuteiros convictos”, querem falar pro mundo.

A conversa de 40 minutos chega ao fim. Calado, o caçula Luiz Henrique, o Luizinho, apenas observou. Disse pouco. O negócio do vocalista de 14 anos, que entrou no grupo há nove, é soltar a voz no palco e castigar o tantã. Tarefa que o repórter aprovou.

SERVIÇO
Show com Afro Samba e Samba da Vela
Dias 9 e 10 de outubro, às 19h30

Entrada franca (ingressos distribuídos com meia hora de antecedência)
Censura:14 anos

Itaú Cultural
Avenida Paulista, 149, Estação Brigadeiro do Metrô – São Paulo
Fones: 11 2168-1776/1777

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