Terra Magazine

outubro 31, 2008

“Minha meta é tirar 100 meninos do crime”, afirma ex-detento

Por Ricardo Tacioli

BetoNorton

O policial civil Beto Chaves e o ex-presidiário Norton Guimarães. Cia de Foto

A parceria não somente parece, como é inusitada. Um jovem policial civil e um ex-presidiário de extensa ficha corrida promovem há um ano palestras em escolas e empresas para alertar jovens sobre os perigos do mundo do crime e das drogas. O primeiro é Beto Chaves, 32, inspetor da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA), do Rio de Janeiro. O segundo é Norton Guimarães, 51, ex-presidiário de Bangu III, onde cumpriu sete anos e seis meses de prisão.

Nas palestras, a dupla narra experiências pessoais, cada um de um lado da linha que os separou por muito tempo. Hoje falam a mesma língua e são grandes amigos.

Norton assaltou bancos, carros-forte, e liderou rebeliões em presídio. Tornou-se um símbolo na criminalidade. Mas foi o pedido de sua filha mais nova, Thayssa, então com cinco anos de idade, que fez com que abandonasse de vez a vida que levou por mais de 30 anos. A caçula disse no Natal de 2005 que o presente que gostaria de ganhar de Papai Noel era ver o pai fora da prisão. E em fevereiro de 2006 Norton se despediu da cadeia pela porta da frente.

Nunca envolvido com tráfico, como faz questão de grifar, Norton enfrentou um dos problemas que afetam todos os egressos do sistema penitenciário, a (re)integração à sociedade. Passou por maus bocados para tentar sustentar a mulher e a filha até se tornar agente de projetos sociais do Grupo Cultural AfroReggae, como o que tenta tirar meninos da marginalidade e empregá-los no mercado de trabalho. Mais de 70 garotos já foram empregados com carteira assinada, garante Norton.

“Fui assaltante, e sempre gostei muito de dinheiro para comprar jóias, carros e alimentar as minhas farras. Hoje, de coração, vejo que essa “mega-sena” não surte o mesmo efeito em mim como esse trabalho que faço, de ajudar as pessoas que estão saindo do sistema penitenciário, que estão querendo se livrar da criminalidade,  e que estão na beira da criminalidade… Hoje sou uma referência pra essas pessoas! Pô, já ganhei mais de 70 mega-senas”, afirma Norton. “O que mais me estimula nisso tudo é tentar transformar as pessoas no mesmo vitorioso que sou hoje.”

Dezenove anos mais novo que o parceiro e amigo, o cabeludo Beto Chaves também nasceu e se criou na Zona Norte carioca, onde empinou pipas, jogou futebol na rua e trabalhou no comércio. Hoje, além das investidas policiais em morros e das investigações de praxe, faz pós-graduação em Segurança Pública e representa o Escola Segura, projeto criado pela Polícia Civil carioca que promove ações sócio-pedagógicas em escolas.

Mas foi a partir de uma palestra do AfroReggae conduzida por Norton para os meninos-internos do Departamento Geral de Ações Socio Educativas (DEGASE) que Beto encontrou seu parceiro ideal. Nascia aí o projeto Papo de Responsa, braço do Escola Segura que, com discursos diretos de um policial e de um ex-presidiário, fala das armadilhas das drogas e do sistema que elas alimentam aos meninos das escolas do ensino fundamental e médio.

Leia a entrevista que Beto Chaves e Norton Guimarães cederam ao Blog Zonas de Conflito durante o Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito, promovido entre os dias 2 e 23 de outubro, no Itaú Cultural, em São Paulo.

Norton, o que é uma polícia ideal?
Uma polícia ideal é uma polícia cidadã, uma polícia interaja e que perceba os problemas da comunidade. Uma polícia que veja que um menino pode a qualquer momento se envolver com tráfico de drogas porque não tem opções; a vida não dá isso pra ele. A polícia ideal não é a polícia repressora, a polícia combativa, de confronto. É a polícia que respeita. Imagino um dia um policial, civil ou militar, passar na comunidade e falar para as pessoas “Bom dia!” e elas “Bom dia!”, mas ele armado com suas armas de policial sem precisar do fuzil e daqueles aparatos de guerra.

Beto, esse discurso de buscar uma nova polícia existe dentro da corporação?
Eu me pergunto todo dia a quem interessa tudo isso que a gente está vivendo. A quem interessa batermos todo dia na polícia? Ao policial não interessa. Ao cidadão não interessa. À sociedade não interessa. A quem interessa manter todo mundo acreditando que a polícia é somente isso? A quem está interessa fazer com que a sociedade acredite que não existe mais solução? E na polícia há o mesmo questionamento e também o desejo de querer ser vista de uma outra maneira. Brinco dizendo que a gente não veio de Poliçópolis. A gente veio dos bancos escolares, a gente fez faculdade - e na polícia civil do Rio quase 90% dos homens e mulheres tem curso superior -; muitos são músicos, professores, trabalham com segurança. Mas a polícia hoje é um gigante bobo, porque não consegue se colocar para a sociedade. Existe problema de corrupção na polícia? Existe, como também existe no hospital, no Congresso, na escola… A quem interessa pontuar somente este retrato de instituição corrupta? Quem é que diz não? Não são os bombeiros que dizem não. Não são os médicos quem dizem não. É a polícia que diz para você não fazer. Que cidadão quer que um policial o multe ou diga “Não faça isso!”? Que corrupto, que sonega imposto, que quer que o policial diga “O senhor está preso, porque a sonegação de impostos…”. O comerciante que faz isso quer que o policial o prenda? Então, pra muita gente interessa que o policial continue ganhando pouco, sendo mal visto. Mas para o policial, para os cidadãos de bem que necessitam do serviço de segurança pública não interessam. Para o policial não interessa vestir o uniforme e saber que o cidadão o vê um safado, um arbitrário, um corrupto, um truculento. E dentro da polícia há movimentos fortes de pessoas íntegras que dizem “Não quero isso! Olhem de uma outra maneira”. Mas existe um grande muro que a gente não ainda sabe a altura e o comprimento que tem. Sou uma pessoa extremamente otismista, mas muito realista, e essa movimentação está acontecendo.

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Norton Guimarães. Do crime e da prisão para o AfroReggae, em que atua como mediador social. Cia de Foto

Norton, entrevistei os meninos do Afro Samba (um dos projetos musicais do Grupo Cultural AfroReggae) e um deles me disse que “Sei que é errado, mas ver o bandido rolando com a arma dá uma empolgação”… Pra você, um mediador social, como buscar e estimular outra empolgação que não essa que o crime oferece?
Fico muito feliz quando vejo os meninos dos subgrupos do AfroReggae, como o Afro Mangue, Afro Samba, Afro Lata ou a trupe de teatro. Eles foram criados na comunidade, então viram o que é o outro sucesso, que é namorar meninas bonitas da comunidade, ter seus carros, seus ouros, portar um fuzil, ter dinheiro. Mas hoje em dia, a gente faz um trabalho social que mostra que eles podem ter isso tudo dignamente. Fico tão feliz quando vejo os meninos viajarem para shows no Uruguai , em Londres, Índia, China… Caramba, são pessoas da comunidade, da periferia! Esse é o sucesso real, porque quando voltam para seus familiares, podem ouvir “Meu filho voltou para mim!”. Há pouco tempo perdemos um menino do Afro Samba (o cavaquinista Mauricio que faleceu vítima de problemas cardíacos). Foi um choque para todos! Estávamos no cemitério quando ouvi uma frase muito interessante de uma parente dele. Eu a abracei, e ela falou assim: “Norton, ele morreu aos 20 anos de idade. Era muito feliz com o que fazia no AfroReggae. Fico triste vê-lo ir embora, mas o que me deixa mais feliz é saber que quem tirou a vida dele foi Deus, não foi o homem com um tiro, com uma granada, com uma facada”.

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Beto Chaves é um dos policiais que promovem palestras sobre drogas e segurança pública em escolas e empresas. Cia de Foto

Beto – Falo para o Norton que a polícia não pode ser a primeira a entrar nas comunidades. Tem de entrar primeiro a saúde, habitação, saneamento, asfalto, trabalho… Tudo para diminuir a desigualdade. “Vamos diminuir a maioridade penal?” “Vamos dar primeira a oportunidade? E depois a gente cobra?” É complicado cobrar sem dar. É o que acontece na polícia, que tem um salário muito pequeno, trabalha em condições precárias e aí é cobrada. “Pô, você vai cobrar de um mendigo para que se comporte no cinema se ele nunca teve oportunidade de ir ao cinema? Para muitos presentes no Antídoto foi uma surpresa ver que o policial sabe falar, que estuda.

Norton, como o seu trabalho é visto pelos amigos que estão em situação de risco – em presídios ou no crime ainda?
Ninguém gostaria de estar nesses lugares . Depois de nove meses de gestação, o médico bate na bundinha da criança e diz  “É homem ou mulher”, e não diz “Esse vai ser bandido!”. As oportunidades e as escolhas fazem a criança seguir um ou outro caminho. Então, tenho consciência e certeza de que a maior parte dos que estão no sistema prisional hoje me vêem como uma referência. E muitos gostariam de estar no lugar que estou ocupando. Mas agora o que mais almejo na vida é chegar em 2010 e ter tirado do sistema penitenciário, da criminalidade ou do risco da criminalidade, 200, 300, 400, quem sabe até 500 meninos. Quero chegar no fim deste ano tendo empregado 100 jovens. Esse é o meu ideal!

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outubro 27, 2008

“Temos de devolver homens e não bandidos para a sociedade”, afirma diretora de presídio

por Ricardo Tacioli

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A diretora do presídio de Caruaru (PE) Cirlene Rocha. Cia de Foto

Imagine um lugar feito para comportar 98 pessoas. Pode ser um vagão de metrô ou um salão de festas. Mas em vez de 98, imagine mais de 700 marmanjos. Qualquer um apontaria o indicador aos céus e protocolaria uma queixa, se desse para erguer o braço, claro. Bom, diferentemente de um vagão ou de um salão de festas, o lugar não tem esse mesmo clima e trânsito. Afinal, trata-se de uma penitenciária.

Assim, como em boa parte do sistema prisional brasileiro, a superlotação também é um dos problemas da Penitenciária de Caruaru (PE), administrada há seis anos por Cirlene Rocha.

Primeira mulher a assumir uma penitenciária masculina no Nordeste, Cirlene administra o presídio com muita criatividade. “Quando cheguei vi um lugar que tinha capacidade para 98 presos com 700. Setenta porcento eram homens entre 19 e 28 anos, ou seja, em plena fase produtiva. Eu tinha de fazer alguma coisa”, afirmou ao Blog Zonas de Conflito. “Ali inimigos têm de fazer as pazes porque não tem como separá-los.”

Graduada em Direito, a bem-humorada Cirlene nasceu há 38 anos em Vitória de Santo Antão, cidade com mais de 100 mil habitantes e próxima a Caruaru. Quando menina sonhava ser policial civil, porque defendia as pessoas. Em vez da polícia, prestou concurso para agente penitenciário no início dos anos 1990. “Fiquei uns meses em Recife fazendo revistas, guarda interna de presídio feminino; somente depois fui transferida para Caruaru, onde estou há 13 anos”, conta a diretora que antes trabalhava no Setor de Laborterapia da unidade que dirige, responsável pelos cursos profissionalizantes e atividades culturais.

Tendo como norte o “respeito ao homem encarcerado”, Cirlene notou que não era possível manter os internos em suas celas. “Tinha de tornar o ambiente menos tenso.” Em vez de deixá-los presos em suas celas - por falta de espaço dormem nos corredores e no refeitório -, viu que a melhor maneira de ocupar o tempo ocioso era prendê-los em atividades que, muitas vezes, eles mesmos gerenciam. “Tive de descobrir as potencialidades e capacidades de cada detento. Assim, eles passam os dias soltos, mas sempre ocupados, fazendo atividades”, relata.

Tem a Rádio Fênix, que é uma rádio interna em que os reclusos fazem a programação; biblioteca, concursos de redação e de decoração natalina dos pavilhões, com escolha da melhor por designers e artistas plásticos; atividades esportivas, cursos de alfabetização, capela ecumênica e até casamento gay, como a diretora contou à platéia do Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito, realizado no Itaú Cultural, em São Paulo. “Lá é uma comunidade, com suas necessidades e atividades, que cada preso assume”, afirma Cirlene.

Um dos empreendimentos que surgiu no presídio e que ganhou as páginas da imprensa internacional foi o projeto Liberta Moda, que é a marca das roupas que são inteiramente confeccionadas pelos detentos e apresentadas em desfile. Os modelitos são comercializados até em grandes lojas do Nordeste.

A experiência de inclusão social não se limita ao presídio. Segundo Cirlene, “os filhos dos presos têm chances, considerando o exemplo dos pais, de se tornarem futuros presos”. Para tentar inverter esse quadro, são promovidos encontros com palestras e atividades lúdicas em chácara e passeios em parques aquáticos (como no Dia das Crianças). “Falo para as crianças que existe um mundo além deste que vocês vivem nos semáforos”, conta. “E quando os vejo nos semáforos, sempre me perguntam quando haverá outros encontros.”

E hoje, 27 de outubro, às 21h45, no Canal Multishow, o Liberta Moda será tema do terceiro programa Conexões Urbanas, conduzido por José Junior, coordenador executivo e um dos fundadores do Grupo Cultural AfroReggae.

Leia a entrevista que Cirlene Rocha cedeu ao Blog Zonas de Conflito.

Qual é a fragilidade de você sair da direção, outra pessoa assumir e este trabalho terminar? Você teme isso? O que é feito para garantir a continuidade?
Na verdade houve um momento difícil quando teve a mudança de governo. Os presos ficaram ansiosos em saber se iria ou não haver troca da direção do presídio. Fiz um trabalho de preparação com eles, informando que a vida é feita de mudanças, e que eles deveriam aceitar. Eu aceitei a idéia da troca, afinal o cargo é de confiança e como havia mudado o governo… A tendência era de que todos os diretores saíssem, mas o governo não havia me comunicado nada. Na época, o Secretário de Segurança tinha ido pra lá para me tirar. Eu estava fazendo a aula inaugural no começo de ano, como tem em todo lugar. Chamo todo mundo para a quadra e digo “Teremos as seguintes aulas, os horários são esses, as regras são essas…”. Ele soube que eu ia fazer essa solenidade, que pra mim é normal, e foi lá… “Essa diretora pensa que é o quê?” Chegou lá meio revoltado e não falou nada. Eu disse: “Olha, Secretario, não tem convite porque é uma coisa muito administrativa. Já que o senhor está aqui, vamos conhecer o presídio?”. E saí mostrando os pavilhões e todos os departamentos da unidade.

Cheguei na quadra onde estavam todos reunidos. Um pessoal de hip hop e de capoeira fizeram se apresentaram. Quando o preso parou de tocar o berimbau, o Secretário disse: “Não, estou gostando… Mande mais uma música!” “Não dê ousadia pra eles, senão não vão parar mais de cantar!” Ele ficou perplexo! “Eu não acredito o que vi aqui. Tem de continuar!”. E hoje ele me defende, me elogia, fala mais do que eu mereço. A sociedade é muito participativa, porque espaço para ela participar. A Ordem dos Advogaos do Brasil (OAB) adotou o parlatório; as pastorais, as entidades religiosas e espíritas estão lá. Toda a sociedade está lá dentro. Se houver uma mudança que altere totalmente o que já foi feito será um boom social, porque todo mundo – empresários, Rotary Club, maçonaria, Lions – conhece e, de certa maneira, fiscaliza. A sociedade comenta e vê que não é um marketing, uma encenação. Então, se chegar alguém pra mudar, vai ter de brigar com a comunidade, porque ninguém quer ver aquilo explodir. Por mais aversão da sociedade que haja com o preso, eu não sou vista como “a doutora Cirlene que passa a mão na cabeça dos presos”, mas sim a diretora do presídio que busca capacitar e valorizar o preso para quando sair não ser mais um a agredir a comunidade.

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Como Caruaru vê esse trabalho?
Vê como um trabalho em que eles ajudam em tudo que a gente faz. E não é pedir, não, é intimar! “Vou fazer tal coisa e sua participação é com isso!” Então existe essa credibilidade, parceria e amizade… A capela ecumênica foi feita com doações. O Estado não entrou com nada. Isso é bom porque dou o direito do empresário fiscalizar, participar. Ele poderá dizer “Esse é um pedacinho de mim!”. Quando tem Festa das Crianças, festa de não-sei-de-quê, não tenho problema em conseguir um ônibus para levar as crianças para o parque. Quando a gente fez o desfile Liberta Moda, fui atrás de patrocinador. Uma empresa grande disse assim: “Adorei o projeto, amei!”. E silenciou por um tempo. E quando liguei de volta, “Veja bem, não é a política da instituição se ligar com presos… Veja, não é a minha opinião, não, mas é o que a instituição pensa…”  “Aé?! Fique sabendo que estou dando uma oportunidade da sua empresa fazer alguma coisa que preste, de mostrar uma coisa boa. Não sou eu quem estou pedindo, e sim quem está dando uma oportunidade para sua empresa.”

É essa mente retrógrada que não contribui com nada com a sociedade… Mas essa percepção está mudando na sociedade. E dois dias depois ela ligou e disse que iria participar… Então, é assim, eu acredito no projeto! Às vezes tem diretor que diz: “Cirlene só falta pedir esmola…” Não vejo por aí. Na verdade, eu me alio a várias pessoas para que a coisa funcione, mas também é uma oportunidade para que a sociedade esteja dentro, participando, contribuindo. É o dono da loja de construção que doa cerâmica, é o cara que ajuda a gente fazer uma obra.

A mediação com todos os atores – detentos, governo, sociedade – é sempre bem-humorada? 
É. A gente não pode ser truculento. Sou a diretora do presídio, o sistema em si já é difícil. Já cheguei a tirar o vigia do dia por ser mal-educado com as visitas. Tudo tem solução, se não tiver, solucionado está. Falo com os meus chefes desse jeito, eles sempre me dão apoio para fazer minhas atividades, não levo problemas para eles, sou daquelas “Se surgir o problema, eu tenho de ter uma solução!”

Você parece muito otimista, mas até onde vai este otimismo?
Às vezes tem o pessimismo… Têm pessoas dentro da instituição que se preocupam com coisas tão pequenas… Como a gente pode se preocupar com uma coisa tão pequena, se tem o macro, que é ação, a resolução? Eu não me preocupo com o marketing. Ele surge porque surge. Mas tem gente que se preocupa mais com o marketing do que com a obra. Tanto é que em todas as nossas ações a gente põe o nome da secretaria, do secretário, mesmo de alguns elementos que tentam boicotar a gente. Foi tão engraçado no dia em que ganhamos o primeiro lugar no Concurso de Fantasias Carnavalescas. A gente ralou, ralou. Disputávamos junto daqueles caras experientes de Carnaval. A gente nunca havia participado. Aí criamos uma fantasia que foi selecionada. Já foi uma vitória arretada! Mas rolou muita dificuldade, porque o pessoal da secretaria poderia ter facilitado, como na escolta, porque era um baile particular. Mas no desfile todo mundo torceu por nós: os seguranças, os faxineiros… Aí desfilamos e abalamos! Quando disseram que ficamos em primeiro lugar foi uma emoção! A primeira pessoa para quem eu liguei foi o cara que estava nos boicotando: “Alô, estou ligando para dizer que nós ganhamos, que o senhor é campeão!” “Eu, campeão? Parabéns pra você!” “Parabéns pra mim, não, parabéns para nós, porque fazemos parte da mesma secretaria, de uma mesma equipe, de um mesmo governo. Então, se eu ganhei, o senhor ganhou também. Ou não?” Essas coisas desanimam, mas em outros momentos, como esse em que ganhamos o concurso, dão sentido a tudo. É isso aí…

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outubro 25, 2008

“Sou uma sobrevivente”, diz cozinheira mais famosa de Vigário Geral

Tags:, , , , , - Ricardo Tacioli às 8:58 pm

Por Ricardo Tacioli

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A cozinheira Lizietia Rodrigues, mais conhecida como Chupetinha. Divulgação 

Era pra se chamar Elizeth. O escrivão dormiu no ponto. Virou Lizietia. Na certidão de nascimento, Lizietia Carmem Siqueira Rodrigues, lavrada há exatos 48 anos, idade que comemorou na semana que passou. Moradora da favela de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, onde nasceu e foi criada, Lizietia é uma figura querida e carimbada em toda a comunidade, tanto por nunca ter abandonado o hábito de usar chupeta, que lhe rendeu o apelido que a eterniza, Chupetinha, como também por ser a cozinheira mais famosa da região.

Chef de cozinha diplomada em junho de 2008 pelo SENAC, mantém há 12 anos na rua Paris o restaurante Pensão da Chupetinha que, além dos fregueses locais, já forrou o estômago de famosos como o músico escocês David Byrne (fundador da banda Talking Heads), o rapper Gabriel O Pensador, o jornalista Pedro Bial e a empresária Flora Gil. No cardápio, especialidades caseiras como feijão preto com arroz e farofa, frango à mineira, costelinha de porco e peixe à milanesa. “Tenho dois carros-chefe: a carne assada, que doro na cebola, e o creme fica parecendo molho madeira; e o bobó à mineira que, em vez de camarão, tem salgados e creme de aipim. É uma invenção minha. Menino, é um sucesso! Apresentei até no programa da Ana Maria Braga”, relatou ao Blog Zonas de Conflito.

Chupetinha comandou pela primeira vez, entre os dias 20 e 24 de outubro, uma cozinha que não a sua: assumiu o restaurante Café Cult, na sede do Itaú Cultural, em São Paulo, durante a terceira edição do Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito.

A entrevista de 20 minutos com a mulher que não se considera uma grande cozinheira (“Faço como todo mundo, mas cada mão é diferente…”) foi permeada de bom humor, lágrimas e três cigarros. Nela revelou que foi a partir da chacina de Vigário Geral, em novembro de 1993, quando 21 moradores inocentes foram assassinados por policiais, que sua vida tomou outro rumo. “Eu conhecia todo mundo (que morreu), porque nasci e me criei em Vigário Geral. Na casa em que morreram oito evangélicos fizeram uma ONG chamada Casa da Paz”, contou Chupetinha, que na época estava desempregada. “Aí fui trabalhar lá como faxineira e office-boy. Só que ela é próxima da minha casa. E como não havia nenhuma pensão na comunidade, na hora do almoço as meninas diziam: Bota mais água no feijão!” E foi botando mais água no feijão que Lizietia deixou a faxina e assumiu de vez o restaurante que fica na cobertura de sua casa.

“Sou uma sobrevivente, não somente da chacina de Vigário Geral, mas uma sobrevivente da vida, porque tive todas as oportunidades do mundo para ser uma mulher mundana, uma prostituta, uma mulher de bandido, mas Deus não deixou que isso acontecesse comigo. Tenho uma mania de brincar quando saio em jornais. Gente, saí n’O Globo, mas não foi na página policial!”, declara rindo.

Mas o riso rapidamente se transforma em lágrimas quando fala do passado ou das conquistas recentes. “Minha infância foi muito triste. Quando fiz sete anos de idade, meu pai faleceu. Vivia internado no Hospital Geral de Bonsucesso. Morreu do coração. E minha mãe ficou com sete filhos. O mais novo tinha nove meses. A mais velha tinha oito anos. Sou a segunda filha. Aí tive de ir para a luta. Fui trabalhar como babá na comunidade, senão como íamos comer?”.

Filha de Beatriz Felix Siqueira e Antônio Siqueira, Chupetinha estudou somente até a quarta série. Pelas dificuldades que enfrentou na infância, cravou no peito o sonho de nunca mais passar fome. “Hoje me sinto uma mulher muito rica, porque se eu quiser comer pão ou queijo, eu vou e como. Costumo dizer que já sonhei e não realizei. Mas já realizei o que não sonhei. Essa é a realidade da minha vida”, fala comovida. “Hoje posso dizer que sou o orgulho da minha família. Todos os meus irmãos estão empregados, mas eu sou a mídia. Não parece, mas para nós que moramos na periferia, isso é uma grande coisa, porque as pessoas acham que lá só se aprende coisas ruins. A luta não é pequena, mas eu consegui.”

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A cozinheira se encantou com o Mercado Municipal de São Paulo. Cia de Foto

Boa parte de sua trajetória é assistida, compartilhada e protagonizada com o marido João Azevedo Rodrigues, com quem se casou há 37 anos. Isso mesmo, Chupetinha tinha apenas 11 anos de idade quando trocou alianças com João, na época um rapazote de 17 anos. “O segredo deste casamento? É o amor. Toda vez que olho para o meu marido parece que estou com ele pela primeira vez, porque o João é uma pessoa muito amável.” Aposentado, João não cozinha, mas é o garçom, o administrador e o “faz-tudo” do restaurante. Da união nasceram Michele e Raphael, que fizeram cursos de inglês, de informática e faculdades; a primeira é dona de casa, e o segundo é bailarino e coreógrafo do Grupo Cultural AfroReggae, onde trabalha desde os 13 anos de idade.

“Nem meu marido, nem meus filhos fumam. Eu fumo. Chupo chupeta e nenhum deles – nem meus dois netos – chupam”, afirma Lizietia, que confessa que a preferência pelas chupetas mais ralés. “Só não gosto das transparentes e das ortodônticas. Você não tem idéia de que quantas chupetas eu tenho. Todo mês, quando meu marido vai fazer as compras para a pensão, ele traz um saquinho de 25 chupetas. A duração de cada uma depende do meu estado emocional. Hoje vou estourar uma, porque já são dez horas e a feijoada ainda está no fogo…”

Há alguns anos a saúde também fez com que estourasse muitas chupetas. “Tive um câncer de útero e tive de fazer esterilização. O tratamento é muito doloroso, mas estou curada. E há três anos tomei outro grande susto, fiquei doida, mas não era nada, somente um problema na tireóide.”

A mestre de Chupetinha na cozinha é sua mãe, de quem não nega uma pratada de macarrão. “Justamente o que eu não poderia comer, ainda mais depois da cirurgia da tireóide, já que fiquei diabética e hipertensa. Tive até síndrome do pânico, mas liberei tudo isso na cozinha e na chupeta.”

Além do clima caseiro e descontraído, a pensão também ostenta outras características. Ali não bebida alcoólica não é comercializada (“Se quiser, pode levar, mas somente cerveja”). E também não pode entrar armado. “Você sabe que em comunidade tem de tudo. Então implantei leis que, por eu ser muito respeitada, foram obedecidas. Tem uma placa bem grande que diz Mocinhos e bandidos são bem-vindos. Quem quiser almoçar na minha casa, pode, mas não pode entrar armado.”

Mas se o nobre leitor ficou com água na boca e quiser conhecer o tempero e as iguarias de Chupetinha, pode visitar sua pensão em Vigário Geral, que funciona de segunda a sábado, das 11h às 17h. Segundo a cozinheira que sonhava ser assistente social, não há problema algum com o tráfico caso queira em chegar até a sua pensão. “Basta dizer que vai ao AfroReggae, que é uma ONG muito respeitada, ou à Chupetinha, que ninguém coloca a mão. E ainda te levam”, garante.

Exemplo de superação dentro e fora da comunidade, que hoje agrega nove pensões (“Dá para todo mundo ganhar o seu trocadinho”), Chupetinha sonha em cursar a faculdade de gastronomia, mas nunca sonhou com um livro de receitas. Enquanto ele não vem, ela descreve o petisco que faz mais sucesso em suas mesas: aipim frito.

“Coloco aipim para cozinhar sem sal. Depois que está cozido, aí sim coloco sal e deixo mais um pouco na fervura. Tampo a panela e espero mais um pouquinho. Aí escorro e frito o aipim com bastante óleo. Por que bastante óleo? Se você botar pouco, o aipim vai ficar duro. Mas com bastante óleo, ele vai fritar tanto em cima quanto em baixo. Aí, quando você morde o aipim, ele está crocante por fora e molinho por dentro.”

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outubro 9, 2008

Afro Samba, uma das vozes de Vigário Geral

Tags:, , , , , , - Ricardo Tacioli às 4:00 pm

Por Ricardo Tacioli

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O grupo Afro Samba com as crianças em Vigário Geral. Divulgação

1993 é um ano que nunca vai ser esquecido pela comunidade de Vigário Geral. Em janeiro, surgia o Grupo Cultural AfroReggae, entidade não-governamental que trabalha com projetos sociais e culturais, que tem no conjunto musical de mesmo nome seu principal embaixador. Mas foi em agosto daquele ano que o nome do bairro circulou o mundo. Um grupo de mais de 50 homens encapuzados e armados tomou a favela da zona norte da capital carioca e matou 21 pessoas. Nenhuma tinha vínculo com o tráfico. Foi uma das chacinas mais violentas que aconteceram no Brasil. Dos 52 PMs acusados pelo crime, apenas sete foram condenados.

Quatro anos mais tarde, na mesma comunidade, uma menina aceita o convite de um colega de escola para fazer uma música. Ambos eram estudantes do CIEP Mestre Cartola, localizado entre Vigário Geral e Parada de Lucas. Com dez anos de idade, Raquel não sabia nada de música. Apenas estudava. Picusha já tocava cavaquinho e participava das oficiais culturais do Grupo Cultural AfroReggae. A música foi apresentada na escola e Raquel levada ao Grupo Cultural. Começava ali a história do Afro Samba.

“Antigamente era Funk Samba. Depois de um tempo, quando grupo ia acabar, apareceu o Écio Salles, nosso ex-coordenador. Ele nos incentivava, botava CDs de samba para ouvirmos. E foi quando começamos a tocar samba-de-raiz. Antes a gente só barulhava; tocava qualquer coisa”, revela a percussionista Raquel Pretinha. “A gente gostava de músicas que falavam de amor, como as do Sorriso Maroto, Jeito Moleque, essa rapaziada aí”, intervem Jonatan Moraes, baterista do grupo. Perguntado se deixaram de gostar de pagode-romântico, Raquel não deixa a peteca cair. “Não, nós tocamos, não temos preconceito. Mas quando escutávamos os CDs que o Écio trazia, dizíamos Caraca, vamos tocar isso?  Essa música é de velho!” .

E assim começou o bate-papo com um dos grupos mais jovens do samba. Com idade entre 14 e 23 anos, os seis integrantes do Afro Samba distribuíam timidez, frases curtas e alegria na única entrevista do dia. Antes haviam ensaiados no palco do Itaú Cultural, onde se apresentam nesta quinta e sexta ao lado do Samba da Vela.

“Quando o Écio chegava no ensaio dava um desânimo, uma vontade de ir embora”, continuou Alexsander Maganola, o Lecão, pandeirista e um dos cantores do grupo. “Foi estranho. O cara chegou com Nelson Sargento, Cartola, Bezerra da Silva, e começou a explicar a história do samba. Aí a gente foi se interessando”, amenizou Jonatan, novamente seguido da única menina do grupo. “A gente não sabia cantar nada. O Lecão não era nem cantor. O Écio falou para gente: Se vocês conseguirem tocar 10 músicas em um mês, dou o maior festaço na minha casa.  Em menos de um mês fizemos as 10 músicas de samba-de-raiz. A festa encheu, ficou lotadão!”. Da festa de batismo, o grupo já emendou em outra, de aniversário do Centro Cultural do AfroReggae, o primeiro show num palco. “Mas subimos no palco preocupados. Será que o povo vai gostar de samba-de-raiz?  Estava cheio o campo. E aí todo mundo gostou”, responde a percussionista,  sorridente e orgulhosa.

E hoje, como vocês se definem? “Somos um grupo de samba-de-raiz moderno”, contemporiza Ivan, 23, um dos violonistas e o integrante mais recente do sexteto. “A gente pega músicas daqueles CDs bem antigos e transforma em sambas com a nossa cara”, defende Jonatan que, ao lado de Lekão e do baixista e violonista sete cordas Everton Gomes, o Tom, 18, forma a trinca de compositores do Afro Samba. “Às vezes, uma parte da letra, em vez de fazê-la cantada, a gente faz como se fosse um rap, um funk, um soul. A gente está modifica alguma coisa. Como uma música lenta do Gonzaguinha, em que a gente começa em reggae e depois muda para samba”, afirma Lecão. “Tudo para dar um brilho diferente”, arremata  Tom.

E foi esse brilho diferente, adicionado à juventude e talento do grupo, que fez com quem se apresentassem em palcos afamados, como do Canecão, Circo Voador, Teatro Rival, Arcos da Lapa e no São Paulo Fashion Week 2007, além de terem acompanhado estampas como da MPB e do samba, como Gilberto Gil, Martinália, Dudu Nobre, Nelson Sargento, Almir Guineto, Seu Jorge, Luiz Melodia e Beth Carvalho.

“Uma vez fizemos um show com o Nelson Sargento na Casa da Mãe Joana, na Lapa, e o Écio disse que ele seria um bom padrinho da gente. E a gente começou a considerá-lo como padrinho. Mas depois arrumamos o Arlindo Cruz e a Dorina, com quem fazemos shows de vez em quando”, explica Lecão.

Com mais de dez anos de história, o grupo - que um dia já teve bailarinos e capoeiristas, conforme revelaram às gargalhadas  - mescla seu repertório de clássicos do samba e partido-alto com músicas autorais, e tudo é arranjado coletivamente. Reúnem peças de Zeca Pagodinho, Paulinho da Viola, Almir Guineto, Dona Ivone Lara e Gilberto Gil com composições próprias que falam de amor, favela e samba-de-raiz, como as Lecão, Mucato e Junior Parente (“Retratos de Domingo”), e João Grilo e Écio Salles (“Dois a Um”).

“A base pra gente é o Fundo de Quintal. É o que a gente mais escuta. Um grupo de samba-de-raiz que ainda está em alta na mídia”, declara Ivan sobre a banda de quem tocam o sucesso “O Show Tem Que Continuar”.

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O Afro Samba durante ensaio no Itaú Cultural. Por Ricardo Tacioli

Vindos de uma das regiões mais violentas do Rio de Janeiro, os meninos reconhecem como a música e a participação em atividades como as promovidas pelo Grupo Cultural AfroReggae definiram novos rumos para suas vidas. “No Rio a violência está em alta. Os menores estão indo para o tráfico. A música traz uma coisa diferente, dá um futuro, uma oportunidade de crescer, de fazer algo que a gente gosta. O AfroReggae abriu as portas para a gente de um jeito que modificou a vida de todo mundo. Viajamos pelo Brasil, conhecemos vários lugares, fazemos shows”, declara Ivan.

“E detalhe: somos guerreiros. Na favela, onde a gente mora, é guerra, é tiroteiro. É a polícia atirando… Às vezes, quando traficante passa rolando no chão dá empolgação, mas a gente sabe que aquilo é errado e estamos sempre nos segurando. Não é dizer que estamos com vontade de ir (para o tráfico), mas você diz: Olha o cara, olha o cara. Que sinistro! O cara rolou no chão, que maneiro!  Somos guerreiros pelo que passamos na comunidade e no grupo”, confessa Lecão, que ainda revela que o Afro Samba já perdeu dois cavaquinistas: o pioneiro Picusha, levado pela violência, e Mauricio Machado, morto há um mês em decorrência de problemas cardíacos.

Questionados sobre onde vocês querem chegar, o grupo que ainda não gravou seu primeiro disco revela o desejo todo o artista. “O nosso sonho é ligar o rádio e ouvir a nossa música. Seria o auge do Afro Samba!”. E como “orkuteiros convictos”, querem falar pro mundo.

A conversa de 40 minutos chega ao fim. Calado, o caçula Luiz Henrique, o Luizinho, apenas observou. Disse pouco. O negócio do vocalista de 14 anos, que entrou no grupo há nove, é soltar a voz no palco e castigar o tantã. Tarefa que o repórter aprovou.

SERVIÇO
Show com Afro Samba e Samba da Vela
Dias 9 e 10 de outubro, às 19h30

Entrada franca (ingressos distribuídos com meia hora de antecedência)
Censura:14 anos

Itaú Cultural
Avenida Paulista, 149, Estação Brigadeiro do Metrô – São Paulo
Fones: 11 2168-1776/1777

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