Terra Magazine

novembro 7, 2008

País dos Homens Íntegros é alvo de documentário de músicos brasileiros

por Ricardo Tacioli

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Em Burkina Faso. Ao fundo, com a filmadora na mão, Márcio Werneck. Patrick Lavaud

Provavelmente você nunca ouviu falar em Burkina Faso. Muito menos sabe onde fica, o que tem, quem vive lá e o que faz. Então, por que falar de um lugar que pouca gente conhece? Bom, se esse motivo não basta, outro é mais que suficiente: a possibilidade de reconhecer as semelhanças e diferenças com o Brasil.

Burkina Faso não é um lugar encantado de um livro de histórias. É um país localizado na África Ocidental, margeado por outros seis países, estendendo-se entre o deserto do Saara e o Golfo da Guiné. Ali tem floresta ao sul, deserto no norte e, ocupando a maior parte, savana. O país está a cerca mil quilômetros do mar. Com uma população em torno de 11 milhões de habitantes, uma taxa de alfabetização de 24%, e 80% da população dependente da agricultura de subsistência, Burkina Faso deixou de ser colônia francesa em 1960 mas não perdeu o posto no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Segundo levantamento de 2007 da Organização das Nações Unidas, o país possui o segundo pior IDH de uma lista com mais de 170 países. Ganha apenas de Serra Leoa. E para piorar, a realidade de um dos países mais pobres do mundo ainda fica nas mãos de São Pedro: durante todo ano, quase não chove em Burkina Faso.

Mas antes de ser Burkina Faso, Burkina Faso era Alto Volta e assistiu sucessivas ditaduras militares que se revezaram no poder pós-1960. Foi num desses golpes e contra-golpes que a história tomou outro rumo. Em 1983 o capitão Thomas Sankara assumiu o bastão e tentou ditar novas regras. Combateu a corrupção, incrementou a educação e a agricultura, ampliou os direitos da mulher e estimulou a democracia participativa. Em seus discursos, falava sobre “descolonizar a mente”. Mudou o nome do país para Burkina Faso, que quer dizer País dos Homens Íntegros. A classe média local e os países ocidentais não gostaram. Não deu outra. Foi assassinado em 15 de outubro de 1987. No poder desde então, Blaise Compaoré.

Impulsionado pela sua participação no NAK – Noites Atípicas de Koudougou, um dos mais importantes festivais de música da África, o violonista e historiador Carlinhos Antunes registrou em 2007 este cenário e produziu, ao lado do também músico e companheiro de viagem Márcio Werneck e do francês Patrick Lavaud, o criador do festival, o documentário Sete Dias em Burkina. Ao longo de 52 minutos, o vídeo retrata a trajetória de duas pessoas que, unidas pelo mesmo sonho, fundaram instituições culturais e educativas para crianças e jovens nas cidades de Koudougou e Bobo-Dioulasso.

“Foi muito difícil fazer esse trabalho, porque sobre a África a gente tem duas visões: de pena e de glamour, que abomino. O exótico é sempre glamouroso. Nesse sentido, o Brasil é legal, porque tem essa dupla faceta: é tanto Europa, quanto África, Índia”, declarou o violonista ao Blog Zonas de Conflito. O documentário foi exibido pela primeira vez no Brasil durante o Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito, realizado no Itaú Cultural, em São Paulo.

“A gente não foi com a visão Estamos aqui na África para entrevistar. Nenhuma entrevista teve um pré-roteiro. Eles não sabiam que estávamos fazendo um documentário. A gente fez milagre em oito dias em Burkina Faso, porque lá tem muita coisa. E gravamos tudo com uma câmera só. E ainda há muito para mostrar sobre o África, principalmente sobre as diferenças entre as etnias e os possíveis conflitos.”

Um dos protagonistas do documentário é Koudbi Koala, fundador da Associação Benebnooma que atende mais de 300 crianças todos os dias e mantém uma escola regular primária e cursos profissionalizantes de serralheria, carpintaria, informática, enfermagem, corte e costura, e rádio e TV. “O mundo é uma vila, uma cidadezinha”, declarou Koala, que esteve no Brasil para participar do Antídoto. “O meu sonho é que as pessoas dividam as coisas, que as pessoas se entendam e dividam tudo entre si e outros países; é a solidariedade”, revela o também fundador do grupo de música e dança Saaba.

“Na África, em uma família de 20 pessoas, somente uma pode estudar. E é muito raro quem pode estudar fora da África. A história desse documentário é a de uma pessoa que pôde estudar e voltou, e de outra que não pôde estudar e queria que todo mundo estudasse”, esclarece Carlinhos Antunes. “O índice de alfabetização ainda é muito baixo, mas antes apenas 5% do país era alfabetizado. Hoje você tem um índice de 25, 30%, que ainda é muito baixo. Isso foi abortado quando mataram Thomas Sankara, que investia muito em educação”, conta.

“O cara (Koudbi Koala) volta ao país, junta dinheiro dando aula e monta uma escola para as crianças. Descolonizar a mente é convencer as pessoas de que aquilo que ele está fazendo, e que ninguém acredita, é verdadeiro. É utilizar a arte como uma ferramenta revolucionária. Então, o que é capaz de descolonizar a mente é a arte”, filosofa o violonista-historiador.

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O violonista Carlinhos Antunes - em primeiro plano - em uma sala de aula em Burkina Faso. Patrick Lavaud

“Ela propicia que você valorize sua cultura; propicia que você conheça o mundo mas sem a visão de quem não quer ficar na África. Isso é muito sério: eles não vão para a França para ficar na França. Eles vão à França e voltam com mais vontade de ficar no país de origem”, conta Carlinhos.

“A França tirou tudo da gente. E quando as pessoas vão para lá, elas respeitam os franceses e sabem a distância entre o que são os outros e o que elas são”, elucida Koala sobre um dos princípios que alimentam a tese de “descolonizar a mente”.

“A gente acha que é como aqui (no Brasil), que o sonho é ir para os Estados Unidos, morar lá e se estrepar. É melhor ser nada lá do que digno aqui. Para eles, não! Você é um imigrante, como a maioria dos imigrantes que vivem mal. Eu sei porque morei cinco anos fora do Brasil. Então, você é um imigrante e vai perdendo a sua cultura. Você vai deixando de ser o que é e não se torna em nada. Você nunca vai ser um francês. Você vai se diluindo. Você pode dizer Ah! Mas eu tenho uma conta bancária… Tudo bem, estou falando de cultura. Você se dilui como pessoa. Descolonizar a mente seria isso, valorizar o que você tem. Isso veio do Thomas Sankara”, defende Carlinhos.

Num país há pouco tempo independente e com 60 etnias, a noção de identidade nacional é construída, segundo Koala, respeitando a diversidade. “Todos são diferentes, mas se complementam e se respeitam. Então, a diversidade é a riqueza, que é cultivada. Isso pode ser visto com relação à religião: numa mesma família pode-se ter um muçulmano, um cristão, um animista. Não existe briga por conta das diferentes religiões.” No entanto, Carlinhos Antunes aponta outros ângulos para defender a construção de identidade nacional.

“Burkina tem 60 etnias. Outros países tem mais de 200. Novamente, o papel do Thomas Sankara foi fundamental. Ele dizia que não bastava ser independente politicamente da França, porque se toda a dependência cultural e econômica continuasse, seria uma independência de fachada. Tinha de ser um país e não uma tribo. Ele diz que você somente consegue viver dignamente se pensar como um africano, e não como um europeu. E outra coisa é valorizar a sua cultura e suas diferenças; e as diferenças não são conflitos, mas riquezas. E a pobreza ajudou a uni-los. Se tivesse uma região muito rica em petróleo, outra em minério, outra em qualquer matéria-prima, o país estaria dividido. Então, os habitantes de Burkina Faso se igualaram pela pobreza. Isso faz com que exista menos discrepância social, portanto menos conflito. Em outras palavras, há menos donos dos meios de produção… E a partir de 1980, Sankara deu o nome de País dos Homens Íntegros; você pode ser corrupto, mas nasce com uma responsabilidade.”

Koudbi Koala estudou na França. Na volta, trabalhou no governo, que não entendeu o porquê de sua saída para montar a associação. “O governo não ajuda, mas não atrapalha. Na verdade, é o governo quem deveria educar essas crianças. Hoje, ele convida a Associação para fazer propostas de ensino técnico porque reconhece que ela está a frente”,  revela Koala.

E há pouco tempo o Brasil instalou  sua primeira embaixada em Uagadugu, capital de Burkina Faso.

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outubro 31, 2008

“Minha meta é tirar 100 meninos do crime”, afirma ex-detento

Por Ricardo Tacioli

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O policial civil Beto Chaves e o ex-presidiário Norton Guimarães. Cia de Foto

A parceria não somente parece, como é inusitada. Um jovem policial civil e um ex-presidiário de extensa ficha corrida promovem há um ano palestras em escolas e empresas para alertar jovens sobre os perigos do mundo do crime e das drogas. O primeiro é Beto Chaves, 32, inspetor da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA), do Rio de Janeiro. O segundo é Norton Guimarães, 51, ex-presidiário de Bangu III, onde cumpriu sete anos e seis meses de prisão.

Nas palestras, a dupla narra experiências pessoais, cada um de um lado da linha que os separou por muito tempo. Hoje falam a mesma língua e são grandes amigos.

Norton assaltou bancos, carros-forte, e liderou rebeliões em presídio. Tornou-se um símbolo na criminalidade. Mas foi o pedido de sua filha mais nova, Thayssa, então com cinco anos de idade, que fez com que abandonasse de vez a vida que levou por mais de 30 anos. A caçula disse no Natal de 2005 que o presente que gostaria de ganhar de Papai Noel era ver o pai fora da prisão. E em fevereiro de 2006 Norton se despediu da cadeia pela porta da frente.

Nunca envolvido com tráfico, como faz questão de grifar, Norton enfrentou um dos problemas que afetam todos os egressos do sistema penitenciário, a (re)integração à sociedade. Passou por maus bocados para tentar sustentar a mulher e a filha até se tornar agente de projetos sociais do Grupo Cultural AfroReggae, como o que tenta tirar meninos da marginalidade e empregá-los no mercado de trabalho. Mais de 70 garotos já foram empregados com carteira assinada, garante Norton.

“Fui assaltante, e sempre gostei muito de dinheiro para comprar jóias, carros e alimentar as minhas farras. Hoje, de coração, vejo que essa “mega-sena” não surte o mesmo efeito em mim como esse trabalho que faço, de ajudar as pessoas que estão saindo do sistema penitenciário, que estão querendo se livrar da criminalidade,  e que estão na beira da criminalidade… Hoje sou uma referência pra essas pessoas! Pô, já ganhei mais de 70 mega-senas”, afirma Norton. “O que mais me estimula nisso tudo é tentar transformar as pessoas no mesmo vitorioso que sou hoje.”

Dezenove anos mais novo que o parceiro e amigo, o cabeludo Beto Chaves também nasceu e se criou na Zona Norte carioca, onde empinou pipas, jogou futebol na rua e trabalhou no comércio. Hoje, além das investidas policiais em morros e das investigações de praxe, faz pós-graduação em Segurança Pública e representa o Escola Segura, projeto criado pela Polícia Civil carioca que promove ações sócio-pedagógicas em escolas.

Mas foi a partir de uma palestra do AfroReggae conduzida por Norton para os meninos-internos do Departamento Geral de Ações Socio Educativas (DEGASE) que Beto encontrou seu parceiro ideal. Nascia aí o projeto Papo de Responsa, braço do Escola Segura que, com discursos diretos de um policial e de um ex-presidiário, fala das armadilhas das drogas e do sistema que elas alimentam aos meninos das escolas do ensino fundamental e médio.

Leia a entrevista que Beto Chaves e Norton Guimarães cederam ao Blog Zonas de Conflito durante o Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito, promovido entre os dias 2 e 23 de outubro, no Itaú Cultural, em São Paulo.

Norton, o que é uma polícia ideal?
Uma polícia ideal é uma polícia cidadã, uma polícia interaja e que perceba os problemas da comunidade. Uma polícia que veja que um menino pode a qualquer momento se envolver com tráfico de drogas porque não tem opções; a vida não dá isso pra ele. A polícia ideal não é a polícia repressora, a polícia combativa, de confronto. É a polícia que respeita. Imagino um dia um policial, civil ou militar, passar na comunidade e falar para as pessoas “Bom dia!” e elas “Bom dia!”, mas ele armado com suas armas de policial sem precisar do fuzil e daqueles aparatos de guerra.

Beto, esse discurso de buscar uma nova polícia existe dentro da corporação?
Eu me pergunto todo dia a quem interessa tudo isso que a gente está vivendo. A quem interessa batermos todo dia na polícia? Ao policial não interessa. Ao cidadão não interessa. À sociedade não interessa. A quem interessa manter todo mundo acreditando que a polícia é somente isso? A quem está interessa fazer com que a sociedade acredite que não existe mais solução? E na polícia há o mesmo questionamento e também o desejo de querer ser vista de uma outra maneira. Brinco dizendo que a gente não veio de Poliçópolis. A gente veio dos bancos escolares, a gente fez faculdade - e na polícia civil do Rio quase 90% dos homens e mulheres tem curso superior -; muitos são músicos, professores, trabalham com segurança. Mas a polícia hoje é um gigante bobo, porque não consegue se colocar para a sociedade. Existe problema de corrupção na polícia? Existe, como também existe no hospital, no Congresso, na escola… A quem interessa pontuar somente este retrato de instituição corrupta? Quem é que diz não? Não são os bombeiros que dizem não. Não são os médicos quem dizem não. É a polícia que diz para você não fazer. Que cidadão quer que um policial o multe ou diga “Não faça isso!”? Que corrupto, que sonega imposto, que quer que o policial diga “O senhor está preso, porque a sonegação de impostos…”. O comerciante que faz isso quer que o policial o prenda? Então, pra muita gente interessa que o policial continue ganhando pouco, sendo mal visto. Mas para o policial, para os cidadãos de bem que necessitam do serviço de segurança pública não interessam. Para o policial não interessa vestir o uniforme e saber que o cidadão o vê um safado, um arbitrário, um corrupto, um truculento. E dentro da polícia há movimentos fortes de pessoas íntegras que dizem “Não quero isso! Olhem de uma outra maneira”. Mas existe um grande muro que a gente não ainda sabe a altura e o comprimento que tem. Sou uma pessoa extremamente otismista, mas muito realista, e essa movimentação está acontecendo.

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Norton Guimarães. Do crime e da prisão para o AfroReggae, em que atua como mediador social. Cia de Foto

Norton, entrevistei os meninos do Afro Samba (um dos projetos musicais do Grupo Cultural AfroReggae) e um deles me disse que “Sei que é errado, mas ver o bandido rolando com a arma dá uma empolgação”… Pra você, um mediador social, como buscar e estimular outra empolgação que não essa que o crime oferece?
Fico muito feliz quando vejo os meninos dos subgrupos do AfroReggae, como o Afro Mangue, Afro Samba, Afro Lata ou a trupe de teatro. Eles foram criados na comunidade, então viram o que é o outro sucesso, que é namorar meninas bonitas da comunidade, ter seus carros, seus ouros, portar um fuzil, ter dinheiro. Mas hoje em dia, a gente faz um trabalho social que mostra que eles podem ter isso tudo dignamente. Fico tão feliz quando vejo os meninos viajarem para shows no Uruguai , em Londres, Índia, China… Caramba, são pessoas da comunidade, da periferia! Esse é o sucesso real, porque quando voltam para seus familiares, podem ouvir “Meu filho voltou para mim!”. Há pouco tempo perdemos um menino do Afro Samba (o cavaquinista Mauricio que faleceu vítima de problemas cardíacos). Foi um choque para todos! Estávamos no cemitério quando ouvi uma frase muito interessante de uma parente dele. Eu a abracei, e ela falou assim: “Norton, ele morreu aos 20 anos de idade. Era muito feliz com o que fazia no AfroReggae. Fico triste vê-lo ir embora, mas o que me deixa mais feliz é saber que quem tirou a vida dele foi Deus, não foi o homem com um tiro, com uma granada, com uma facada”.

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Beto Chaves é um dos policiais que promovem palestras sobre drogas e segurança pública em escolas e empresas. Cia de Foto

Beto – Falo para o Norton que a polícia não pode ser a primeira a entrar nas comunidades. Tem de entrar primeiro a saúde, habitação, saneamento, asfalto, trabalho… Tudo para diminuir a desigualdade. “Vamos diminuir a maioridade penal?” “Vamos dar primeira a oportunidade? E depois a gente cobra?” É complicado cobrar sem dar. É o que acontece na polícia, que tem um salário muito pequeno, trabalha em condições precárias e aí é cobrada. “Pô, você vai cobrar de um mendigo para que se comporte no cinema se ele nunca teve oportunidade de ir ao cinema? Para muitos presentes no Antídoto foi uma surpresa ver que o policial sabe falar, que estuda.

Norton, como o seu trabalho é visto pelos amigos que estão em situação de risco – em presídios ou no crime ainda?
Ninguém gostaria de estar nesses lugares . Depois de nove meses de gestação, o médico bate na bundinha da criança e diz  “É homem ou mulher”, e não diz “Esse vai ser bandido!”. As oportunidades e as escolhas fazem a criança seguir um ou outro caminho. Então, tenho consciência e certeza de que a maior parte dos que estão no sistema prisional hoje me vêem como uma referência. E muitos gostariam de estar no lugar que estou ocupando. Mas agora o que mais almejo na vida é chegar em 2010 e ter tirado do sistema penitenciário, da criminalidade ou do risco da criminalidade, 200, 300, 400, quem sabe até 500 meninos. Quero chegar no fim deste ano tendo empregado 100 jovens. Esse é o meu ideal!

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outubro 27, 2008

“Temos de devolver homens e não bandidos para a sociedade”, afirma diretora de presídio

por Ricardo Tacioli

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A diretora do presídio de Caruaru (PE) Cirlene Rocha. Cia de Foto

Imagine um lugar feito para comportar 98 pessoas. Pode ser um vagão de metrô ou um salão de festas. Mas em vez de 98, imagine mais de 700 marmanjos. Qualquer um apontaria o indicador aos céus e protocolaria uma queixa, se desse para erguer o braço, claro. Bom, diferentemente de um vagão ou de um salão de festas, o lugar não tem esse mesmo clima e trânsito. Afinal, trata-se de uma penitenciária.

Assim, como em boa parte do sistema prisional brasileiro, a superlotação também é um dos problemas da Penitenciária de Caruaru (PE), administrada há seis anos por Cirlene Rocha.

Primeira mulher a assumir uma penitenciária masculina no Nordeste, Cirlene administra o presídio com muita criatividade. “Quando cheguei vi um lugar que tinha capacidade para 98 presos com 700. Setenta porcento eram homens entre 19 e 28 anos, ou seja, em plena fase produtiva. Eu tinha de fazer alguma coisa”, afirmou ao Blog Zonas de Conflito. “Ali inimigos têm de fazer as pazes porque não tem como separá-los.”

Graduada em Direito, a bem-humorada Cirlene nasceu há 38 anos em Vitória de Santo Antão, cidade com mais de 100 mil habitantes e próxima a Caruaru. Quando menina sonhava ser policial civil, porque defendia as pessoas. Em vez da polícia, prestou concurso para agente penitenciário no início dos anos 1990. “Fiquei uns meses em Recife fazendo revistas, guarda interna de presídio feminino; somente depois fui transferida para Caruaru, onde estou há 13 anos”, conta a diretora que antes trabalhava no Setor de Laborterapia da unidade que dirige, responsável pelos cursos profissionalizantes e atividades culturais.

Tendo como norte o “respeito ao homem encarcerado”, Cirlene notou que não era possível manter os internos em suas celas. “Tinha de tornar o ambiente menos tenso.” Em vez de deixá-los presos em suas celas - por falta de espaço dormem nos corredores e no refeitório -, viu que a melhor maneira de ocupar o tempo ocioso era prendê-los em atividades que, muitas vezes, eles mesmos gerenciam. “Tive de descobrir as potencialidades e capacidades de cada detento. Assim, eles passam os dias soltos, mas sempre ocupados, fazendo atividades”, relata.

Tem a Rádio Fênix, que é uma rádio interna em que os reclusos fazem a programação; biblioteca, concursos de redação e de decoração natalina dos pavilhões, com escolha da melhor por designers e artistas plásticos; atividades esportivas, cursos de alfabetização, capela ecumênica e até casamento gay, como a diretora contou à platéia do Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito, realizado no Itaú Cultural, em São Paulo. “Lá é uma comunidade, com suas necessidades e atividades, que cada preso assume”, afirma Cirlene.

Um dos empreendimentos que surgiu no presídio e que ganhou as páginas da imprensa internacional foi o projeto Liberta Moda, que é a marca das roupas que são inteiramente confeccionadas pelos detentos e apresentadas em desfile. Os modelitos são comercializados até em grandes lojas do Nordeste.

A experiência de inclusão social não se limita ao presídio. Segundo Cirlene, “os filhos dos presos têm chances, considerando o exemplo dos pais, de se tornarem futuros presos”. Para tentar inverter esse quadro, são promovidos encontros com palestras e atividades lúdicas em chácara e passeios em parques aquáticos (como no Dia das Crianças). “Falo para as crianças que existe um mundo além deste que vocês vivem nos semáforos”, conta. “E quando os vejo nos semáforos, sempre me perguntam quando haverá outros encontros.”

E hoje, 27 de outubro, às 21h45, no Canal Multishow, o Liberta Moda será tema do terceiro programa Conexões Urbanas, conduzido por José Junior, coordenador executivo e um dos fundadores do Grupo Cultural AfroReggae.

Leia a entrevista que Cirlene Rocha cedeu ao Blog Zonas de Conflito.

Qual é a fragilidade de você sair da direção, outra pessoa assumir e este trabalho terminar? Você teme isso? O que é feito para garantir a continuidade?
Na verdade houve um momento difícil quando teve a mudança de governo. Os presos ficaram ansiosos em saber se iria ou não haver troca da direção do presídio. Fiz um trabalho de preparação com eles, informando que a vida é feita de mudanças, e que eles deveriam aceitar. Eu aceitei a idéia da troca, afinal o cargo é de confiança e como havia mudado o governo… A tendência era de que todos os diretores saíssem, mas o governo não havia me comunicado nada. Na época, o Secretário de Segurança tinha ido pra lá para me tirar. Eu estava fazendo a aula inaugural no começo de ano, como tem em todo lugar. Chamo todo mundo para a quadra e digo “Teremos as seguintes aulas, os horários são esses, as regras são essas…”. Ele soube que eu ia fazer essa solenidade, que pra mim é normal, e foi lá… “Essa diretora pensa que é o quê?” Chegou lá meio revoltado e não falou nada. Eu disse: “Olha, Secretario, não tem convite porque é uma coisa muito administrativa. Já que o senhor está aqui, vamos conhecer o presídio?”. E saí mostrando os pavilhões e todos os departamentos da unidade.

Cheguei na quadra onde estavam todos reunidos. Um pessoal de hip hop e de capoeira fizeram se apresentaram. Quando o preso parou de tocar o berimbau, o Secretário disse: “Não, estou gostando… Mande mais uma música!” “Não dê ousadia pra eles, senão não vão parar mais de cantar!” Ele ficou perplexo! “Eu não acredito o que vi aqui. Tem de continuar!”. E hoje ele me defende, me elogia, fala mais do que eu mereço. A sociedade é muito participativa, porque espaço para ela participar. A Ordem dos Advogaos do Brasil (OAB) adotou o parlatório; as pastorais, as entidades religiosas e espíritas estão lá. Toda a sociedade está lá dentro. Se houver uma mudança que altere totalmente o que já foi feito será um boom social, porque todo mundo – empresários, Rotary Club, maçonaria, Lions – conhece e, de certa maneira, fiscaliza. A sociedade comenta e vê que não é um marketing, uma encenação. Então, se chegar alguém pra mudar, vai ter de brigar com a comunidade, porque ninguém quer ver aquilo explodir. Por mais aversão da sociedade que haja com o preso, eu não sou vista como “a doutora Cirlene que passa a mão na cabeça dos presos”, mas sim a diretora do presídio que busca capacitar e valorizar o preso para quando sair não ser mais um a agredir a comunidade.

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Como Caruaru vê esse trabalho?
Vê como um trabalho em que eles ajudam em tudo que a gente faz. E não é pedir, não, é intimar! “Vou fazer tal coisa e sua participação é com isso!” Então existe essa credibilidade, parceria e amizade… A capela ecumênica foi feita com doações. O Estado não entrou com nada. Isso é bom porque dou o direito do empresário fiscalizar, participar. Ele poderá dizer “Esse é um pedacinho de mim!”. Quando tem Festa das Crianças, festa de não-sei-de-quê, não tenho problema em conseguir um ônibus para levar as crianças para o parque. Quando a gente fez o desfile Liberta Moda, fui atrás de patrocinador. Uma empresa grande disse assim: “Adorei o projeto, amei!”. E silenciou por um tempo. E quando liguei de volta, “Veja bem, não é a política da instituição se ligar com presos… Veja, não é a minha opinião, não, mas é o que a instituição pensa…”  “Aé?! Fique sabendo que estou dando uma oportunidade da sua empresa fazer alguma coisa que preste, de mostrar uma coisa boa. Não sou eu quem estou pedindo, e sim quem está dando uma oportunidade para sua empresa.”

É essa mente retrógrada que não contribui com nada com a sociedade… Mas essa percepção está mudando na sociedade. E dois dias depois ela ligou e disse que iria participar… Então, é assim, eu acredito no projeto! Às vezes tem diretor que diz: “Cirlene só falta pedir esmola…” Não vejo por aí. Na verdade, eu me alio a várias pessoas para que a coisa funcione, mas também é uma oportunidade para que a sociedade esteja dentro, participando, contribuindo. É o dono da loja de construção que doa cerâmica, é o cara que ajuda a gente fazer uma obra.

A mediação com todos os atores – detentos, governo, sociedade – é sempre bem-humorada? 
É. A gente não pode ser truculento. Sou a diretora do presídio, o sistema em si já é difícil. Já cheguei a tirar o vigia do dia por ser mal-educado com as visitas. Tudo tem solução, se não tiver, solucionado está. Falo com os meus chefes desse jeito, eles sempre me dão apoio para fazer minhas atividades, não levo problemas para eles, sou daquelas “Se surgir o problema, eu tenho de ter uma solução!”

Você parece muito otimista, mas até onde vai este otimismo?
Às vezes tem o pessimismo… Têm pessoas dentro da instituição que se preocupam com coisas tão pequenas… Como a gente pode se preocupar com uma coisa tão pequena, se tem o macro, que é ação, a resolução? Eu não me preocupo com o marketing. Ele surge porque surge. Mas tem gente que se preocupa mais com o marketing do que com a obra. Tanto é que em todas as nossas ações a gente põe o nome da secretaria, do secretário, mesmo de alguns elementos que tentam boicotar a gente. Foi tão engraçado no dia em que ganhamos o primeiro lugar no Concurso de Fantasias Carnavalescas. A gente ralou, ralou. Disputávamos junto daqueles caras experientes de Carnaval. A gente nunca havia participado. Aí criamos uma fantasia que foi selecionada. Já foi uma vitória arretada! Mas rolou muita dificuldade, porque o pessoal da secretaria poderia ter facilitado, como na escolta, porque era um baile particular. Mas no desfile todo mundo torceu por nós: os seguranças, os faxineiros… Aí desfilamos e abalamos! Quando disseram que ficamos em primeiro lugar foi uma emoção! A primeira pessoa para quem eu liguei foi o cara que estava nos boicotando: “Alô, estou ligando para dizer que nós ganhamos, que o senhor é campeão!” “Eu, campeão? Parabéns pra você!” “Parabéns pra mim, não, parabéns para nós, porque fazemos parte da mesma secretaria, de uma mesma equipe, de um mesmo governo. Então, se eu ganhei, o senhor ganhou também. Ou não?” Essas coisas desanimam, mas em outros momentos, como esse em que ganhamos o concurso, dão sentido a tudo. É isso aí…

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outubro 25, 2008

“Sou uma sobrevivente”, diz cozinheira mais famosa de Vigário Geral

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Por Ricardo Tacioli

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A cozinheira Lizietia Rodrigues, mais conhecida como Chupetinha. Divulgação 

Era pra se chamar Elizeth. O escrivão dormiu no ponto. Virou Lizietia. Na certidão de nascimento, Lizietia Carmem Siqueira Rodrigues, lavrada há exatos 48 anos, idade que comemorou na semana que passou. Moradora da favela de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, onde nasceu e foi criada, Lizietia é uma figura querida e carimbada em toda a comunidade, tanto por nunca ter abandonado o hábito de usar chupeta, que lhe rendeu o apelido que a eterniza, Chupetinha, como também por ser a cozinheira mais famosa da região.

Chef de cozinha diplomada em junho de 2008 pelo SENAC, mantém há 12 anos na rua Paris o restaurante Pensão da Chupetinha que, além dos fregueses locais, já forrou o estômago de famosos como o músico escocês David Byrne (fundador da banda Talking Heads), o rapper Gabriel O Pensador, o jornalista Pedro Bial e a empresária Flora Gil. No cardápio, especialidades caseiras como feijão preto com arroz e farofa, frango à mineira, costelinha de porco e peixe à milanesa. “Tenho dois carros-chefe: a carne assada, que doro na cebola, e o creme fica parecendo molho madeira; e o bobó à mineira que, em vez de camarão, tem salgados e creme de aipim. É uma invenção minha. Menino, é um sucesso! Apresentei até no programa da Ana Maria Braga”, relatou ao Blog Zonas de Conflito.

Chupetinha comandou pela primeira vez, entre os dias 20 e 24 de outubro, uma cozinha que não a sua: assumiu o restaurante Café Cult, na sede do Itaú Cultural, em São Paulo, durante a terceira edição do Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito.

A entrevista de 20 minutos com a mulher que não se considera uma grande cozinheira (“Faço como todo mundo, mas cada mão é diferente…”) foi permeada de bom humor, lágrimas e três cigarros. Nela revelou que foi a partir da chacina de Vigário Geral, em novembro de 1993, quando 21 moradores inocentes foram assassinados por policiais, que sua vida tomou outro rumo. “Eu conhecia todo mundo (que morreu), porque nasci e me criei em Vigário Geral. Na casa em que morreram oito evangélicos fizeram uma ONG chamada Casa da Paz”, contou Chupetinha, que na época estava desempregada. “Aí fui trabalhar lá como faxineira e office-boy. Só que ela é próxima da minha casa. E como não havia nenhuma pensão na comunidade, na hora do almoço as meninas diziam: Bota mais água no feijão!” E foi botando mais água no feijão que Lizietia deixou a faxina e assumiu de vez o restaurante que fica na cobertura de sua casa.

“Sou uma sobrevivente, não somente da chacina de Vigário Geral, mas uma sobrevivente da vida, porque tive todas as oportunidades do mundo para ser uma mulher mundana, uma prostituta, uma mulher de bandido, mas Deus não deixou que isso acontecesse comigo. Tenho uma mania de brincar quando saio em jornais. Gente, saí n’O Globo, mas não foi na página policial!”, declara rindo.

Mas o riso rapidamente se transforma em lágrimas quando fala do passado ou das conquistas recentes. “Minha infância foi muito triste. Quando fiz sete anos de idade, meu pai faleceu. Vivia internado no Hospital Geral de Bonsucesso. Morreu do coração. E minha mãe ficou com sete filhos. O mais novo tinha nove meses. A mais velha tinha oito anos. Sou a segunda filha. Aí tive de ir para a luta. Fui trabalhar como babá na comunidade, senão como íamos comer?”.

Filha de Beatriz Felix Siqueira e Antônio Siqueira, Chupetinha estudou somente até a quarta série. Pelas dificuldades que enfrentou na infância, cravou no peito o sonho de nunca mais passar fome. “Hoje me sinto uma mulher muito rica, porque se eu quiser comer pão ou queijo, eu vou e como. Costumo dizer que já sonhei e não realizei. Mas já realizei o que não sonhei. Essa é a realidade da minha vida”, fala comovida. “Hoje posso dizer que sou o orgulho da minha família. Todos os meus irmãos estão empregados, mas eu sou a mídia. Não parece, mas para nós que moramos na periferia, isso é uma grande coisa, porque as pessoas acham que lá só se aprende coisas ruins. A luta não é pequena, mas eu consegui.”

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A cozinheira se encantou com o Mercado Municipal de São Paulo. Cia de Foto

Boa parte de sua trajetória é assistida, compartilhada e protagonizada com o marido João Azevedo Rodrigues, com quem se casou há 37 anos. Isso mesmo, Chupetinha tinha apenas 11 anos de idade quando trocou alianças com João, na época um rapazote de 17 anos. “O segredo deste casamento? É o amor. Toda vez que olho para o meu marido parece que estou com ele pela primeira vez, porque o João é uma pessoa muito amável.” Aposentado, João não cozinha, mas é o garçom, o administrador e o “faz-tudo” do restaurante. Da união nasceram Michele e Raphael, que fizeram cursos de inglês, de informática e faculdades; a primeira é dona de casa, e o segundo é bailarino e coreógrafo do Grupo Cultural AfroReggae, onde trabalha desde os 13 anos de idade.

“Nem meu marido, nem meus filhos fumam. Eu fumo. Chupo chupeta e nenhum deles – nem meus dois netos – chupam”, afirma Lizietia, que confessa que a preferência pelas chupetas mais ralés. “Só não gosto das transparentes e das ortodônticas. Você não tem idéia de que quantas chupetas eu tenho. Todo mês, quando meu marido vai fazer as compras para a pensão, ele traz um saquinho de 25 chupetas. A duração de cada uma depende do meu estado emocional. Hoje vou estourar uma, porque já são dez horas e a feijoada ainda está no fogo…”

Há alguns anos a saúde também fez com que estourasse muitas chupetas. “Tive um câncer de útero e tive de fazer esterilização. O tratamento é muito doloroso, mas estou curada. E há três anos tomei outro grande susto, fiquei doida, mas não era nada, somente um problema na tireóide.”

A mestre de Chupetinha na cozinha é sua mãe, de quem não nega uma pratada de macarrão. “Justamente o que eu não poderia comer, ainda mais depois da cirurgia da tireóide, já que fiquei diabética e hipertensa. Tive até síndrome do pânico, mas liberei tudo isso na cozinha e na chupeta.”

Além do clima caseiro e descontraído, a pensão também ostenta outras características. Ali não bebida alcoólica não é comercializada (“Se quiser, pode levar, mas somente cerveja”). E também não pode entrar armado. “Você sabe que em comunidade tem de tudo. Então implantei leis que, por eu ser muito respeitada, foram obedecidas. Tem uma placa bem grande que diz Mocinhos e bandidos são bem-vindos. Quem quiser almoçar na minha casa, pode, mas não pode entrar armado.”

Mas se o nobre leitor ficou com água na boca e quiser conhecer o tempero e as iguarias de Chupetinha, pode visitar sua pensão em Vigário Geral, que funciona de segunda a sábado, das 11h às 17h. Segundo a cozinheira que sonhava ser assistente social, não há problema algum com o tráfico caso queira em chegar até a sua pensão. “Basta dizer que vai ao AfroReggae, que é uma ONG muito respeitada, ou à Chupetinha, que ninguém coloca a mão. E ainda te levam”, garante.

Exemplo de superação dentro e fora da comunidade, que hoje agrega nove pensões (“Dá para todo mundo ganhar o seu trocadinho”), Chupetinha sonha em cursar a faculdade de gastronomia, mas nunca sonhou com um livro de receitas. Enquanto ele não vem, ela descreve o petisco que faz mais sucesso em suas mesas: aipim frito.

“Coloco aipim para cozinhar sem sal. Depois que está cozido, aí sim coloco sal e deixo mais um pouco na fervura. Tampo a panela e espero mais um pouquinho. Aí escorro e frito o aipim com bastante óleo. Por que bastante óleo? Se você botar pouco, o aipim vai ficar duro. Mas com bastante óleo, ele vai fritar tanto em cima quanto em baixo. Aí, quando você morde o aipim, ele está crocante por fora e molinho por dentro.”

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outubro 22, 2008

Delegacia do Rio promove cursos de alfabetização e sessões de cinema

Por Ricardo Tacioli

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Jornalista e advogado, Zaccone instalou biblioteca e cursos na carceragem da 52a DP. Cia de Foto

O discurso é claro e envolvente. O orador desfila o texto citando Michel Foucault e Octavio Paz, e passa por temas caros à Sociologia e ao Direito. Assim foi a apresentação de Orlando Zaccone, 44, delegado titular da 52a DP de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense (RJ), no Itaú Cultural, nesta terça-feira, 21 de outubro, durante a programação do Antídoto - Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito.

Além da oratória ilustrada, Zaccone é um delegado que se diferencia do estereótipo do policial pela forma como lida com os detentos em sua delegacia. “O sistema prisional é uma máquina de moer pessoas”, disse Zaccone para quem o crime é uma forma de muitos se incluírem socialmente.

Baseado em sua formação acadêmica e na legislação que prevê assistência educacional e de saúde para aqueles que tiveram a liberdade cerceada, Zaccone implantou o projeto Carceragem Cidadã, que promove atividades culturais junto aos detentos de sua delegacia. Há cinema, com o Cine Clube 52ª, que exibe trabalhos audiovisuais seguidos de palestras e shows musicais, o jornal O Sol Quadrado Também Brilha!, feito pelos detentos, cursos de alfabetização, biblioteca e assistência médica. Os resultados positivos dessa experiência apontam caminhos para lidar com o problema da multilplicação e perpetuação da violência pós-prisão, desconstruindo a máxima de que cadeia é a escola do crime.

Mas antes de assumir a cadeira de delegado de Polícia Civil em 1999, Zaccone despejava seu nanquim em textos sobre comportamento e produção artística nos cadernos culturais de jornais cariocas. Somente depois, graduou-se em Direito e ingressou na Polícia. Mestre em Ciências Penais, atualmente faz doutourado em Ciências Políticas na Universidade Federal Fluminense.

“Tenho informações de diferentes áreas e procuro agir de acordo com o pensamento crítico que desenvolvi nesses cursos”, afirmou em entrevista do Blog Zonas de Conflito, que pode ser lida logo abaixo.

Zaccone, por que a Polícia?
Esse foi o primeiro concurso que passei. Quando fui fazer o curso de Direito, eu já trabalhava com o meu pai, que foi uma questão de foro íntimo, porque eu já tinha uma família constituída e o mercado de jornalismo não estava bom para mim. Tive uma brecha para trabalhar com o meu pai, mas teria de fazer o curso de Direito. E depois de formado vi que a vida de advogado é muito difícil para quem não tem um escritório forte de família. E o caminho natural para mim e para muitos brasileiros foi o concurso público. Comecei a prestar concurso sem definir nenhuma preferência. Fazia para Defensoria Pública, Polícia, Ministério Público, Magistratura. E o primeiro que passei foi pra Polícia Civil. Eu tinha muita vontade de fazer um mestrado, pois fiquei estudando três anos para o concurso. Assim que passei, priorizei minha formação acadêmica. Também sou professor. Depois de me aposentar como delegado, tenho vontade de me dedicar exclusivamente ao magistério.

Como jornalista, em qual editoria você atuava?
Por incrível que pareça, nunca trabalhei com (a editoria de) polícia, sempre foi com cultura. Trabalhei no Segundo Caderno, do Globo, e uma época na Revista de Domingo, do Jornal do Brasil. Sempre trabalhava com matérias de comportamento e da área de cultura.

Sua formação se diferencia muito do meio policial. Como ela é vista?
Infelizmente a formação dos policiais, principalmente dos delegados, é uma formação jurídica nos cursos de Direito. Há no Brasil um distanciamento muito grande do ensino jurídico das Ciências Sociais. Esse esvaziamento era uma estratégia. Então, matérias como Sociologia Jurídica e Filosofia do Direito, que são importantíssimas, sempre foram relegadas ao segundo plano nas Universidades. O que formamos hoje são técnicos em Direito. E os concursos públicos em todas as carreiras cobram um conhecimento técnico, um conhecimento da norma deslocado de qualquer visão social de sua aplicabilidade. Isso é muito ruim, porque temos hoje não somente delegados, mas tem juízes, promotores de justiça, defensores públicos que não têm uma visão crítica do trabalho que exercem. Aliás, isso não é um atributo somente de quem tem formação jurídica. Mesmo no jornalismo são poucos os que têm um conhecimento mais aprofundado e crítico da sua própria área de atuação. A mesma coisa com os médicos. Na verdade, se formos a fundo veremos que o tecnicismo tem prevalecido em todos os ramos do conhecimento, provocando esse esvaziamento das ações sociais dos agentes públicos. Você despolitizou a atuação profissional de vários segmentos; evidentemente que na área jurídica isso também se deu. E no caso da Polícia, a coisa fica mais gritante por conta do estereótipo do policial.

Zaccone, qual foi o estopim para você começar a trabalhar com cultura na carceragem?
Primeiro foi uma postura política que sempre tive. Tentei juntar a minha produção acadêmica com uma atuação profissional condizente. No mestrado produzi uma obra que foi publicada – Acionistas do Nada – Quem São os Traficantes de Droga. Então já tinha observado a seletividade punitiva, ou seja, os encarcerados são escolhidos entre os setores mais vulneráveis da sociedade. Isso existe por trás dos discursos punitivos de emergência, que tenta resolver os problemas do nosso modelo econômico por meio do encarceramento dos pobres, do extermínio dos que se rebelam. Então, tive muita vontade de aplicar essa visão crítica que adquiri por meio dos estudos. O criminoso que é preso em flagrante normalmente é o criminoso trapalhão, aquele cara enrolado, um batedor de carteira da pior qualidade. Esses caras estão enchendo os cárceres, assim como essas mulheres que tentam botar drogas nos presídios para os companheiros. Elas são selecionadas e rotuladas como verdadeiras traficantes. Então, estão ali por uma situação de vulnerabilidade e a gente tem de dar uma contrapartida. A sociedade tem de observar isso e entender que é mais do que necessário a gente dar um freio nesse sistema punitivo oferecendo algumas opções. Eu não trato mais a questão como ressocialização, porque acho que ressocializar é você devolver o cara para uma sociedade na qual ele já estava inserido, mas ele nunca esteve inserido nesse ambiente social. Hoje a gente trabalha com a idéia de redução de danos, ou seja, fazer com que a permanência o preso para cumprir sua medida punitiva seja feita de uma forma mais humana, que não gere violência institucional. Na verdade, pra mudar o quadro atual tem de atacar o modelo econômico, que já está mostrando que é fraco. Quando a gente iria imaginar que o Estado teria de botar dinheiro no sistema econômico. O papo não era que o capital se auto-regulava? E agora? É desse capitalismo tardio a estratégia de resolver problemas sociais por meio do encarceramento, do extermínio das “classes perigosas”. No entanto, isso é um processo autofágico, porque a reprodução da violência e da vulnerabilidade no cárcere depois retorna para a sociedade, porque esse preso não vai ficar lá pra sempre, ele vai voltar. Estamos alimentando o problema, e não resolvendo.

Há uma rotatividade de presos na delegacia?
Uma das nossas maiores dificuldades é exatamente essa. A rotatividade é muito grande. Para você ter idéia, conseguimos emitir 102 títulos eleitorais na unidade seis meses antes das eleições. Esse é o projeto Voto do Preso (permitido a presos provisórios). Seis meses se passaram e eu tinha somente 54 presos na unidade com o título para votar. Muitos saíram em liberdade. Mas tem um dado interessante: sete presos que estavam soltos foram à carceragem somente para votar. Isso foi muito legal, porque nem nós da administração esperávamos que um cara que já estava solto retornaria à carceragem para alguma coisa. Mas eles estiveram lá, acreditaram no projeto. Então, essa rotatividade é um problema, mas a gente não pára. Muitos presos começam a fazer o supletivo da primeira à quarta série do ensino fundamental, que dura um ano, mas com três, quatro meses conseguem o Alvará de Soltura. E o que vamos fazer? Aqueles dois, três meses estudados pra ele representam uma experiência de vida que a gente não consegue vislumbrar. Uma vez um preso, num debate em sala de aula, se emocionou, começou a chorar e disse para a professora que por alguns segundos teve a sensação de que estava livre. Então, criar dentro do cárcere um espaço para que os presos exponham suas idéias, dialoguem sobre vários temas, tenham sua voz colocada, representa muita coisa para eles.

E qual é a possibilidade de multiplicação dessa experiência em outras delegacias?
Vou ser sincero: atualmente vislumbro isso, porque os nossos esforços pra avançar naquele espaço são tão grandes e os resultados demoram tanto a vir que se tentássemos expandir isso acabaria encerrando o que conseguimos estruturar. Na verdade, são ações pequenas que darão um resultado maior. Em vez desse projeto ser estendido imediatamente a outras delegacias, prefiro que um preso que sair da carceragem e ingressar no sistema, se reúna com presos e eles mesmos consigam, junto às autoridades que estiverem gerenciando aquela unidade, implementar. São coisas que dependem de vontade política simples. Eu peguei um telefone, liguei para a Secretaria Estadual de Educação e disse que queria falar com o Secretário de Educação. “Tenho um espaço na carceragem. Posso conseguir doação de cadeiras, carteiras, quadro negro, mas eu preciso professor. Você consegue?” “Claro, consigo!” Botou dois! Sabe, às vezes com uma ligação telefônica você monta uma escola dentro da carceragem. Não é uma coisa que requer um volume grande de investimento, de recursos. É na simplicidade dos pequenos projetos que a gente vai avançar.

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outubro 14, 2008

Lirinha diz que a arte não deve ser a única opção nas zonas de conflito

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O poeta e músico Lirinha, 30, debate a relação arte e negócio com um monólogo e um livro. Cia de Foto

José Paes de Lira, o Lirinha, é a voz e um dos compositores do grupo Cordel do Fogo Encantado. Artesão e zelador da palavra, este pernambucano de Arcoverde subiu no palco do SESC Pompéia/SP, em dezembro de 2007, para expor um dos dilemas que o provoca desde a meninice: a arte tem preço? E quanto vale?

Estreava, então, seu monólogo Mercadorias e Futuro, que co-dirigiu com a atriz Leandra Leal, sua mulher. Para completar o projeto, lançou no meio deste ano o livro de mesmo nome. Numa performance que conta com música, texto, luz e improviso, Lirinha interpreta o vendedor de livros Lirovsky, personagem que homenageia os escritores Micheliny Verunschk, Paulo Leminski e Grotowski.

Um dos convidados do AfroReggae, que se apresentou neste fim de semana em São Paulo no Itaú Cultural, Lirinha conversou com o Blog Zonas de Conflito e problematizou ainda mais sobre o tema-chave de sua peça e, claro, da sociedade contemporânea.

Você disse que entre a estréia no fim de 2007 e a retomada no meio deste ano, algumas coisas mudaram na peça Mercadorias e Futuro. É um trabalho que está encerrado ou é mutável, ainda mais considerando a dinâmica do tema?
É um lugar de experimento particular. É um lugar onde aprofundo a palavra, a utilização que faço desde o meu começo artístico. No espetáculo também experimento umas coisas de música. Esse tempo que dei entre a estréia no SESC Pompéia e sua reestréia foi por conta da espera do livro que estava para lançar. Eu precisava dele para completar o projeto. Nesse meio tempo algumas coisas foram mudadas, mas o espetáculo continua com a mesma alma, a mesma mensagem da estréia de dezembro.

O que principiou a peça e o livro foi sua questão entre a relação arte e negócios. Ao longo deste percurso, você teve algumas respostas que sanam esse dilema?
A primeira foi a descoberta que é um tema muito presente nas construções artísticas desde a Revolução Industrial, que é esse questionamento de quanto cobrar por um produto artístico. Então, o espetáculo não quer dar respostas sobre esses valores, e nem apontar uma moral, mas é um momento de muita reflexão sobre o tema, porque o personagem é um vendedor de livros que é procurado pelos profetas para que venda suas profecias. Ele é uma figura especial porque é procurado também para cumprir essa função. E essa função de intermediário, de atravessador, é chamado porque para os profetas não podem descer e cuidar dessas coisas. Não podem tratar com dinheiro. Então, é uma ironia que aplico que serve como questionamento: alguém que pode fazer esse link entre o sagrado, o divino, que é a poesia, e o vil metal. Parece ser incompatível, mas o ser humano vive dentro desse sistema há muitos e muitos anos. Outra coisa que descobri: isso é um conflito que não se resolve. Além de ser eterno, ele é indissolúvel.

Pra você, o que é arte, o que é o fazer artístico?
É a realização do impossível. É a nossa existência envolvida na criação de algo que fica além da nossa existência. Eu, depois dessa peça, não acredito em muita coisa, em muita definição, até porque muitas definições que a gente utiliza terminam servindo para o mercado, para esse comércio. Eu acredito que esse mistério que envolve o sentido da arte é a definição. É a floresta desconhecida. Eu enxergo dessa forma. Então, o que difere um trabalho de composição musical do trabalho de um padeiro que começa às cinco da manhã? Essas definições foram desenvolvidas, como dizer que o padeiro tem um trabalho mecânico e automático, e que segue uma receita que passaram, ou seja, um operário. Mas nos dias de hoje esse limite de definição se perde muito, porque a maioria dos grupos musicais e dos artistas, poetas, atores, artistas plásticos fazem seu trabalho como esse padeiro. Fica sendo sempre uma discussão de valores; discussão que, sinceramente, não tenho capacidade de definir o que é arte.

Lirinha, como você se vê?
Tive um contato com uma pessoa chamada Erickson Luna (1958-2007), um poeta considerado marginal lá em Recife, que é um rótulo que pregam. Ele era uma figuraça. Dizia que não existe artista, existem pessoas capazes de arte. Eu sempre achava uma frase de efeito, mas com o passar do tempo concordei com ela. Neste mundo em que a gente vive existe uma capacidade de arte que acompanha todo o ser humano, e existe o desenvolvimento e aproveitamento dessa capacidade ou não. E outros fatores, como os de mercado. Eu, com 12 anos de idade, fui chamado para fazer uma apresentação, para dizer poesia no 4o Congresso de Cantadores do Recife. E foi a primeira vez que eu ganhei cachê. Então incorporei essa história ao personagem Lirovsky, porque pra mim é um momento pregnante. Até então eu dizia poesia de graça e para quem pedisse, em qualquer lugar. Ainda continuo tendo uma relação assim com a poesia. Se eu estiver passando na rua e alguém pedir para eu dizer um verso, eu paro e digo, porque é uma escola em que fui criado. Patativa do Assaré exigia isso de quem recitasse poesia, que fosse um veículo de comunicação; essa sabedoria não é do cara, é da comunidade. A minha escola foi essa. Então, naquele momento – com 12 anos de idade - fui apresentado ao sistema, ao modo de produção que rege a nossa vida e que não se separa da arte, por mais bela e divina que seja, por mais distante que seja de um objeto comercial, ela acontece dentro de um sistema capitalista.

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Lirinha em ação no monólogo Mercadorias e Futuro, que reestréia em novembro no Espaço Parlatapões, em SP. Divulgação

Lendo sobre as referências para a criação da peça e do personagem, vi que uma delas é o escritor João Antonio. Como se deu esse contato?
O João Antonio (1937-1996) foi a descoberta mais recente de literatura que eu tive. Minto, tive uma outra, que é J. Veiga, um escritor que eu não conhecia e que é muito bom. Escreve muito diferente de João Antonio. João Antonio foi Marcelino Freire quem me apresentou. E me deu logo o livro Abraçado ao Meu Rancor, que tem aquela passagem em que ele retorna para a casa da mãe num subúrdio de São Paulo, e é foda! Depois li Sete Vezes Rua, que é um outro trabalho dele, que me cativou muito. Lembra muito rap, mas não é a linguagem da rua que move. Ele tem uma estrutura clássica – pelo menos como eu vejo -, mas consegue fazer essa reunião entre uma determinada erudição e uma linguagem mais rítmica, musical.

O João Antonio era jornalista e seu texto é urbano, com aquele lance do flaneur, do observador que ouve com os olhos.
Em Sete Vezes Rua tem um conto em torno de um guardador de carros, um flanelinha, algo muito comum hoje na nossa vida. Ele é o protagonista. Isso parece ser um detalhe, uma besteira, mas não é. São poucas coisas escritas no Brasil que se dão voz a esse personagem. Não é alguém se passando por um mendigo, nem avaliando o mendigo, mas, sim, o personagem sendo o mendigo, sendo o flanelinha, e isso João Antonio faz como ninguém.

Que ponto comum você vê entre os artistas desse show – você, AfroReggae, Z’África Brasil e Ilê Aiyê?
O que eu vejo é um trabalho vai além do trabalho musical. São grupos que não apenas têm uma música para se comunicar, mas têm uma história e uma relação de discussão com problemas atuais. AfroReggae não precisa falar nada, é um trabalho que vai além da música. O Ilê é uma entidade. O Z’África Brasil é um orgulho. Um grupo muito coerente com suas idéias, com seus sons. E o Cordel do Fogo Encantado também tem uma existência que nunca é apenas ter uma música como fim de tudo, como ponto de chegada.

A questão-chave do Antídoto é a produção cultural em zonas de conflito. Você vê que a produção cultural pode ser uma ferramenta de transformação social?
Eu acredito muito nisso. Mas a gente não pode apenas acreditar que levar oficinas de percussão para as zonas de conflito dará uma oportunidade para aquele jovem sair de um mundo sem opções. A gente corre o risco de acreditar que com pouco esforço se resolve um problema tão complexo. São poucas pessoas que têm a condição de viver de percussão. Em Recife quantas pessoas vivem de percussão? Pouquíssimas. É possível que cinco pessoas vivam de percussão no estado inteiro. Naná Vasconcelos, os percussionistas do Cordel, da Nação Zumbi e vai parando por aí. O discurso “abrir possibilidades por meio da arte para o cara deixar a criminalidade” é perigoso. Ele não se basta, é muito pouco! Agora, a gente não pode esquecer os sentimentos que geram um grupo musical, a coisa da auto-estima, porque são elementos muito positivos. A arte tem de ser uma opção e não a única saída. Tem de ser uma opção dentro de outras opções. O cara pode ter um desejo seguir o caminho da engenharia, e a gente, como artista e como pessoas que pensam nessas coisas, tem de trabalhar para a construção dessas possibilidades, para o cara ser o que ele desejar ser.

Lirinha, como você lida com o tempo, com o envelhecer? Você pensa muito sobre isso?
Penso porque a gente vai se apegando. A gente se apega muito às coisas. E o tempo é uma aula de desapego constante. A gente sofre com os amigos que vai perdendo. Ao mesmo tempo, isso é uma das coisas boas que a proximidade com a poesia e a música me deram, essa consciência que as coisas vão ficando melhores, que a gente tem uma outra possibilidade de relação com o mundo. Embora nascido na cultura ocidental, da crepitude, que enxerga a velhice como deterioração, a poesia e a música me deram esse ensinamento que é de um outro lugar; dizem que é oriental. Tem uma cantoria que Jó Patriota fez de improviso e que diz: “Hoje eu não presto mais”.  Aí, Manoel Xudu segue: “Todo poeta é capaz / É árvore que imuchesse / Caem as folhas / Fica o tronco / Por fora a casca apodrece / Mas quanto mais passa o tempo / Mais o miolo endurece”. E eu acredito nisso. Tanto que digo, “A bênção, Mestre Xudu!”.

Você falou que as pessoas te param na rua e pedem uma poesia. Não estou na rua, mas você pode mandar mais uma?
Uma poesia de Marcelino Freire, que é interessante para esse dia de hoje: “Enquanto Zumbi trabalha cortando cana / Na Zona da Mata Pernambucana / Oloroquê vende carne de segunda a segunda / Ninguém vive aqui com a bunda preta pra cima / Tá me ouvindo, bem?”.

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outubro 7, 2008

Grupo mostra que periferia “não é tão violenta quanto Datena diz”

Tags:, , , , , - Ricardo Tacioli às 6:48 pm

Por Ricardo Tacioli

Sergio Vaz_Cia de Foto 

“É macumba?! É uma igreja evangélica?! Não, é o sarau da Cooperifa”, diz Sérgio Vaz, clicado pela Cia de Foto.

“A gente comunga a palavra, a poesia!” A frase curta do poeta e agitador cultural Sérgio Vaz falada para explicar o sucesso de uma suas ações na periferia paulistana revela também o ponto comum entre ele, o escritor Alessandro Buzo, a rapper Nega Gizza e boa parte da garotada interessada por cultura nos centros urbanos.

As experiências relatadas pelos três no debate Produção, Cultura e Arte na Periferia, realizado no sábado, 4 de outubro, no Itaú Cultural, comprovam que a palavra escrita e falada está em alta e é uma ferramenta essencial para o construção da cidadania.

Um bom exemplo acontece todas as quartas-feiras, das 21 às 23h, no Garajão, um bar que se tornou centro cultural em Taboão da Serra, zona sul de São Paulo. São os saraus promovidos pela Cooperação Cultural da Periferia (Cooperifa) que reúnem cerca de 300 pessoas para lerem e ouvirem poesia. “O que está acontecendo hoje na Zona Sul de São Paulo há muito tempo eu não via. As pessoas estão instigadas pela cultura”, afirma Sérgio Vaz, um dos idealizadores do encontro poético. “A Cooperifa não incentiva as pessoas a serem artistas. A gente é contra quem acha que a arte salva alguém. Ela não salva ninguém. A arte é uma forma de levar cidadania às pessoas. Não podemos encarar a arte como tábua de salvação. Sou contra esse discurso de que se não fizermos um samba com a garotada, todo mundo vai fumar maconha!. Se não existesse um projeto na periferia todo mundo morreria viciado em droga ou estaria se matando?”, questiona o paulistano autor de livros como Colecionador de Pedras (Ed. Global) e A História da Cooperifa (Ed. Aeroplano).

O sucesso deste empreendimento cultural e o engajamento cada vez maior de seus freqüentadores garantem outras iniciativas e produtos. Desde livros como Rastilho da Pólvora: Antologia do Sarau da Cooperifa, que reuniu 43 artistas desconhecidos, até a 1a Semana de Arte Moderna da Periferia, realizada em novembro de 2007, e o documentário Povo Lindo, Povo Inteligente!, produzido pela DGT Filmes e lançado em agosto passado. A trajetória poética da Cooperifa, contada pelo filme, também já rendeu teses de mestrado e trabalhos de conclusão de curso.

“Não somos assistencialistas. Não somos novela para que nos sigam capítulo a capítulo. (A Cooperifa) é um movimento honesto. A pessoa chega, fala e ouve poesia. (…) É um movimento totalmente para a periferia, mas é muito legal quando as pessoas da classe média vão até lá e entendam o que estamos fazendo. A gente precisa delas para que digam Não está tão violento quanto o Datena diz!. E nem todo mundo lá tem más intenções”, defende Vaz, que tem uma agenda tomada. Logo será lançada a segunda antologia poética do Salão Cooperifa e, entre os dias 17 e 22 de novembro, a Semana Cultural da Cooperifa, uma mostra de artes da periferia, com grafite, literatura, dança, teatro, artes plásticas e música, movimentará Taboão da Serra, mas principalmente as escolas, que terão ônibus à disposição para levarem seus alunos. “Eu luto para que as pessoas tenham as mesmas oportunidades”, finaliza O Poeta da Periferia, que já chegou a ser chamado.

Nega Gizza_Cia de Foto

Nega Gizza, uma das articuladores da CUFA. Cia de Foto

Filha de empregada doméstica, nascida em Brás de Pina, subúrbio carioca, Gisele Gomes de Souza sonhava ser jornalista. Trabalha desde os sete anos, quando vendia refrigerante e cerveja com seus irmãos no centro do Rio. Hoje, Nega Gizza é uma importante rapper e articuladora cultural. “Eu me encontrei a partir das informações que obtive com a leitura, mas da leitura de assuntos diversos”, afirma a dona do contudente Na Humildade (2002), seu único disco de carreira.

“Eu achava que fazia poesia, mas quando lia em casa o pessoal não aprovava, achava muito forte. Você está pegando pesado. Que poesia é essa?  Quando ouvi o rap, vi que tinha sentido tudo o que eu escrevia, que era um pouco de música, de poema voltado para a realidade. Eu era novinha e não tinha oportunidade de trocar com ninguém, porque as pessoas que estavam ao meu lado não entendiam esse processo e eu não tinha oportunidade de entender o que nascia dentro de mim e que eu transformava em palavras. Hoje tem lugares e movimentos para as pessoas se encontrarem”, relata uma das fundadoras, ao lado do rapper MV Bill e do produtor Celso Athayde, da Central Única das Favelas (CUFA), uma organização não-governamental que promove a produção cultural nas favelas brasileiras.

O desejo de Nega Gizza ser jornalista, “de falar para muitas pessoas”, foi transferido para o rap. Em comum, a palavra e a vontade de informar e transformar. A moça que largou a escola na sétima série para trabalhar, que teve um irmão morto pela polícia – história contada no rap “Neném” -, descobriu seu novo caminho pelas ondas do rádio, quando escutou um programa de hip hop. Logo se tornou a primeira locutora de uma rádio de rap entre 1999 e 2000, na Imprensa FM; conquistou o Prêmio Hutúz (2001), o mais importante do gênero da América Latina, na categoria  de “melhor demo de rap”; e seu festejado CD de estréia, Na Humildade, foi pioneiro por apresentar a voz e as letras de uma mulher rapper.

Militante do hip hop, o escritor Alessandro Buzo também tem na palavra sua principal arma. E viu seu engajamento com o texto impresso ganhar outros terrenos. É o apresentador do quadro quinzenal Buzão – Circular Periférico, do programa Manos e Minas, da TV Cultura, que mostra projetos na periferia paulista até então não exibidos em canal aberto. E idealizou o evento Favela Toma Conta, realizado na Favela do Torresmo, na região do Itaim Paulista, o último bairro da Zona Leste de São Paulo, e que no Dia das Crianças chega à sua 16a edição.“A evolução desse trabalho é ver cada vez mais pessoas junto nessa guerrilha, que costumo chamar de guerrilha mesmo, porque a gente nasce com tudo contra. A gente nasce num bairro afastado, onde o que chega lá de governo é a polícia. E hoje conseguimos chegar em eventos como esse. Porque se a gente não contar a nossa própria história, vem um sociólogo para contá-la. Então, estamos escrevendo a nossa história da nossa forma. O Sérgio (Vaz) brinca com isso de que falamos nóis vai, mas quando nóis vai, nóis vai mesmo. A gente faz do nosso jeito. Existem intelectuais que não gostam, mas também seria querer demais que todos gostassem. Já não basta a ousadia de criarmos…”, filosofa Buzo, que também é dono de uma pequena livraria no Itaim Paulista, a Suburbano Convicto, e que se espantou quando começou a receber títulos novos para vender. “Daí percebi que a livraria mais perto ficava no Shopping Tatuapé”.

A palavra de Buzzo está na Caros Amigos, revista da qual é colaborador, e em seus cinco livros. A carreira literária começou em 2000, com O Trem – Baseado em Fatos Reais, e após um hiato de quatro anos, editou Suburbano Convicto – O Cotidiano do Itaim Paulista, e não parou mais. Em 2005 apresentou O Trem – Contestando a Versão Oficial; em 2007 Guerreira (Global Editora); e há uma semana Favela Toma Conta (Aeroplano Editora).

Assim, independentemente da definição que se dê a esta farta e autônoma produção cultural (que para a literatura uns chamam de marginal, outros de periférica), ou do julgamento de seus méritos (que também cabe a qualquer bem cultural), moradores da periferia das grandes cidades dão lições de como se tornar agente de sua própria história. Como sintetizou Sérgio Vaz, “tem que transformar o que você não tem em alguma coisa”.

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outubro 6, 2008

Evento discute a produção cultural em zonas de conflito

Tags:, , , - Ricardo Tacioli às 8:03 pm

Promovido em São Paulo pelo Itaú Cultural e pelo Grupo Cultural AfroReggae, o Antídoto - Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito reúne convidados internacionais e promove shows, peças, lançamentos de livros, debates e gastronomia

Todo mundo já deve ter ouvido uma história de um sujeito da periferia de um grande centro urbano que, fã de cinema, arrumou uma garagem e começou a exibir filmes para o bairro. Ou de grupo de amigos numa ocupação de sem-teto que, apaixonado por livros, decidiu montar a sua própria biblioteca, disponibilizando para a rapaziada gibis a obras completas de Machado de Assis.

Histórias como essas, de reviravoltas num quadro condenado pela falta de oportunidade, sugerem a questão: como a produção cultural pode influenciar áreas de conflitos sociais, religiosos ou étnicos?

Foi para refletir sobre isso e compartilhar testemunhos e os resultados que nasceu o Antídoto, seminário internacional promovido pelo Itaú Cultural e o Grupo Cultural AfroReggae que neste ano chega a sua terceira edição.

Desde quinta-feira, 2, até o dia 23 de outubro, no Itaú Cultural, em São Paulo, líderes sociais, artistas e pensadores do Brasil e de lugares tão distantes geograficamente como Burkina Faso, República Democrática do Congo, El Salvador, Índia e Inglaterra, participam de seminários, shows, mostra de cinema, teatro, lançamento de livros e gastronomia. Em comum, relatam e discutem experiências e alternativas para a produção cultural em comunidades e grupos sociais que habitam.

Para ampliar o alcance desta iniciativa no tempo e no espaço, os organizadores do evento firmaram parceria com o Terra Magazine. Além de sua transmissão ao vivo, o Antídoto conta pela primeira vez com um blog que, no decorrer do mês, apresentará matérias, entrevistas, vídeos, fotos e áudios que se relacionam tanto com sua programação, quanto com seu conceito, o que possibilita a abordagem de assuntos afins. Afinal, mais do que um encontro que se realiza num prédio cravado na Avenida Paulista, o Antídoto é um estopim para a reflexão e para a ação que ultrapassa qualquer fronteira e agenda.

Bom, como já foi escrito, a programação começou nesta quinta-feira e se estendeu até sábado, quando a Sala Itaú Cultural foi tomada pela Mostra CinePerifa, organizada pela Central Única das Favelas (CUFA SP). Foram exibidos 15 filmes - entre curtas e longas metragens - que tematizam a exclusão social, a pobreza, a violência e o preconceito. No fim da sessão, os produtores dos vídeos, como Jeferson De e Anderson Quak, e escritores - Sérgio Vaz e Alessandro Buzo - trocaram idéias com a platéia sobre a produção cultural na periferia.

Esse é o espírito da coisa, que ainda vai transitar pela música, teatro, gastronomia e outras bossas. Mas adianto que o leitor se defrontará muito mais com contradições que respostas. Mas é por meio desses dilemas que se pode vislumbrar algo novo, como a possibilidade do sujeito se ver como agente de sua própria história. Já deu para perceber que esse assunto serve para qualquer um, mesmo para você que está sentadão na poltrona.

Confira abaixo a programação resumida do Antídoto.

HOMENAGEM
Dia 8 de outubro
19h30 - Exibição da animação produzida pela Reebok Foundation que comemora os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

MÚSICA
Dias 9 e 10 de outubro
19h30 – Afrosamba e Samba da Vela

Dias 11 e 12 de outubro
19h30 – AfroReggae, Ilê Aiyê, Z´África Brasil e Lirinha

LANÇAMENTO DE LIVRO
14 de outubro
19h30 – A Cultura é a Nossa Arma: AfroReggae nas Favelas do Rio, de Damian Platt

TEATRO
De 15 a 19 de outubro
19h30  - Machado a 3X4, com o grupo Nós do Morro

SEMINÁRIO
20 de outubro
20h30 - Abertura, somente para convidados, com o lançamento do livro Antídoto (edição Itaú Cultural)

21 de outubro
15h - Documentário: Sete dias em Burkina Faso, dos brasileiros Carlinhos Antunes e Márcio Werneck
17h - Debate: Facções e Fronteiras Invisíveis, com Luis Romero Gavidia  (El Salvador) e Orlando Zaccone  (Brasil). Mediação de Bruno Paes Manso (Brasil)
20h - Debate: Produção Cultural: Experiências do Congo e Burkina Faso, com Lena Slachmuijlder (Congo) e Koudbi Koala (Burkina Faso). Mediação de Renata Bittencourt (Brasil)

22 de outubro
15h - Documentário: O Veneno e o Antídoto, de Estevão Ciavatta – 2008
17h - Debate: A Liberdade e Seus Perímetros, com os brasileiros Jucileide Mauger e Ronaldo Monteiro. Mediação de Renata Bittencourt
20h - Debate: O Futuro do Outro Lado do Muro, com os brasileiros Norton Guimarães e Beto Chaves. Mediação de Bruno Paes Manso

23 de outubro
15h - Filme Chitti Hatia, de Sharad Sharma (Índia)
17h - Debate Imagens: Enxergar Longe, Conviver Perto, com Sharma e os brasileiros Estevão Ciavatta e Edson Natale, na mediação
20h - Debate: O Ponto em que Estamos, com os brasileiros Francisco Pinhante e Cirlene Rocha. Mediação de Edson Natale

SERVIÇO
Antídoto – Seminário Internacional em Zonas de Conflito
De 2 a 23 de outubro de 2008

Entrada franca (ingressos distribuídos com meia hora de antecedência)
Censura:14 anos

Itaú Cultural
Avenida Paulista, 149, Estação Brigadeiro do Metrô – São Paulo
Fones: 11 2168-1776/1777

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