Terra Magazine

outubro 27, 2008

“Temos de devolver homens e não bandidos para a sociedade”, afirma diretora de presídio

por Ricardo Tacioli

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A diretora do presídio de Caruaru (PE) Cirlene Rocha. Cia de Foto

Imagine um lugar feito para comportar 98 pessoas. Pode ser um vagão de metrô ou um salão de festas. Mas em vez de 98, imagine mais de 700 marmanjos. Qualquer um apontaria o indicador aos céus e protocolaria uma queixa, se desse para erguer o braço, claro. Bom, diferentemente de um vagão ou de um salão de festas, o lugar não tem esse mesmo clima e trânsito. Afinal, trata-se de uma penitenciária.

Assim, como em boa parte do sistema prisional brasileiro, a superlotação também é um dos problemas da Penitenciária de Caruaru (PE), administrada há seis anos por Cirlene Rocha.

Primeira mulher a assumir uma penitenciária masculina no Nordeste, Cirlene administra o presídio com muita criatividade. “Quando cheguei vi um lugar que tinha capacidade para 98 presos com 700. Setenta porcento eram homens entre 19 e 28 anos, ou seja, em plena fase produtiva. Eu tinha de fazer alguma coisa”, afirmou ao Blog Zonas de Conflito. “Ali inimigos têm de fazer as pazes porque não tem como separá-los.”

Graduada em Direito, a bem-humorada Cirlene nasceu há 38 anos em Vitória de Santo Antão, cidade com mais de 100 mil habitantes e próxima a Caruaru. Quando menina sonhava ser policial civil, porque defendia as pessoas. Em vez da polícia, prestou concurso para agente penitenciário no início dos anos 1990. “Fiquei uns meses em Recife fazendo revistas, guarda interna de presídio feminino; somente depois fui transferida para Caruaru, onde estou há 13 anos”, conta a diretora que antes trabalhava no Setor de Laborterapia da unidade que dirige, responsável pelos cursos profissionalizantes e atividades culturais.

Tendo como norte o “respeito ao homem encarcerado”, Cirlene notou que não era possível manter os internos em suas celas. “Tinha de tornar o ambiente menos tenso.” Em vez de deixá-los presos em suas celas - por falta de espaço dormem nos corredores e no refeitório -, viu que a melhor maneira de ocupar o tempo ocioso era prendê-los em atividades que, muitas vezes, eles mesmos gerenciam. “Tive de descobrir as potencialidades e capacidades de cada detento. Assim, eles passam os dias soltos, mas sempre ocupados, fazendo atividades”, relata.

Tem a Rádio Fênix, que é uma rádio interna em que os reclusos fazem a programação; biblioteca, concursos de redação e de decoração natalina dos pavilhões, com escolha da melhor por designers e artistas plásticos; atividades esportivas, cursos de alfabetização, capela ecumênica e até casamento gay, como a diretora contou à platéia do Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito, realizado no Itaú Cultural, em São Paulo. “Lá é uma comunidade, com suas necessidades e atividades, que cada preso assume”, afirma Cirlene.

Um dos empreendimentos que surgiu no presídio e que ganhou as páginas da imprensa internacional foi o projeto Liberta Moda, que é a marca das roupas que são inteiramente confeccionadas pelos detentos e apresentadas em desfile. Os modelitos são comercializados até em grandes lojas do Nordeste.

A experiência de inclusão social não se limita ao presídio. Segundo Cirlene, “os filhos dos presos têm chances, considerando o exemplo dos pais, de se tornarem futuros presos”. Para tentar inverter esse quadro, são promovidos encontros com palestras e atividades lúdicas em chácara e passeios em parques aquáticos (como no Dia das Crianças). “Falo para as crianças que existe um mundo além deste que vocês vivem nos semáforos”, conta. “E quando os vejo nos semáforos, sempre me perguntam quando haverá outros encontros.”

E hoje, 27 de outubro, às 21h45, no Canal Multishow, o Liberta Moda será tema do terceiro programa Conexões Urbanas, conduzido por José Junior, coordenador executivo e um dos fundadores do Grupo Cultural AfroReggae.

Leia a entrevista que Cirlene Rocha cedeu ao Blog Zonas de Conflito.

Qual é a fragilidade de você sair da direção, outra pessoa assumir e este trabalho terminar? Você teme isso? O que é feito para garantir a continuidade?
Na verdade houve um momento difícil quando teve a mudança de governo. Os presos ficaram ansiosos em saber se iria ou não haver troca da direção do presídio. Fiz um trabalho de preparação com eles, informando que a vida é feita de mudanças, e que eles deveriam aceitar. Eu aceitei a idéia da troca, afinal o cargo é de confiança e como havia mudado o governo… A tendência era de que todos os diretores saíssem, mas o governo não havia me comunicado nada. Na época, o Secretário de Segurança tinha ido pra lá para me tirar. Eu estava fazendo a aula inaugural no começo de ano, como tem em todo lugar. Chamo todo mundo para a quadra e digo “Teremos as seguintes aulas, os horários são esses, as regras são essas…”. Ele soube que eu ia fazer essa solenidade, que pra mim é normal, e foi lá… “Essa diretora pensa que é o quê?” Chegou lá meio revoltado e não falou nada. Eu disse: “Olha, Secretario, não tem convite porque é uma coisa muito administrativa. Já que o senhor está aqui, vamos conhecer o presídio?”. E saí mostrando os pavilhões e todos os departamentos da unidade.

Cheguei na quadra onde estavam todos reunidos. Um pessoal de hip hop e de capoeira fizeram se apresentaram. Quando o preso parou de tocar o berimbau, o Secretário disse: “Não, estou gostando… Mande mais uma música!” “Não dê ousadia pra eles, senão não vão parar mais de cantar!” Ele ficou perplexo! “Eu não acredito o que vi aqui. Tem de continuar!”. E hoje ele me defende, me elogia, fala mais do que eu mereço. A sociedade é muito participativa, porque espaço para ela participar. A Ordem dos Advogaos do Brasil (OAB) adotou o parlatório; as pastorais, as entidades religiosas e espíritas estão lá. Toda a sociedade está lá dentro. Se houver uma mudança que altere totalmente o que já foi feito será um boom social, porque todo mundo – empresários, Rotary Club, maçonaria, Lions – conhece e, de certa maneira, fiscaliza. A sociedade comenta e vê que não é um marketing, uma encenação. Então, se chegar alguém pra mudar, vai ter de brigar com a comunidade, porque ninguém quer ver aquilo explodir. Por mais aversão da sociedade que haja com o preso, eu não sou vista como “a doutora Cirlene que passa a mão na cabeça dos presos”, mas sim a diretora do presídio que busca capacitar e valorizar o preso para quando sair não ser mais um a agredir a comunidade.

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Como Caruaru vê esse trabalho?
Vê como um trabalho em que eles ajudam em tudo que a gente faz. E não é pedir, não, é intimar! “Vou fazer tal coisa e sua participação é com isso!” Então existe essa credibilidade, parceria e amizade… A capela ecumênica foi feita com doações. O Estado não entrou com nada. Isso é bom porque dou o direito do empresário fiscalizar, participar. Ele poderá dizer “Esse é um pedacinho de mim!”. Quando tem Festa das Crianças, festa de não-sei-de-quê, não tenho problema em conseguir um ônibus para levar as crianças para o parque. Quando a gente fez o desfile Liberta Moda, fui atrás de patrocinador. Uma empresa grande disse assim: “Adorei o projeto, amei!”. E silenciou por um tempo. E quando liguei de volta, “Veja bem, não é a política da instituição se ligar com presos… Veja, não é a minha opinião, não, mas é o que a instituição pensa…”  “Aé?! Fique sabendo que estou dando uma oportunidade da sua empresa fazer alguma coisa que preste, de mostrar uma coisa boa. Não sou eu quem estou pedindo, e sim quem está dando uma oportunidade para sua empresa.”

É essa mente retrógrada que não contribui com nada com a sociedade… Mas essa percepção está mudando na sociedade. E dois dias depois ela ligou e disse que iria participar… Então, é assim, eu acredito no projeto! Às vezes tem diretor que diz: “Cirlene só falta pedir esmola…” Não vejo por aí. Na verdade, eu me alio a várias pessoas para que a coisa funcione, mas também é uma oportunidade para que a sociedade esteja dentro, participando, contribuindo. É o dono da loja de construção que doa cerâmica, é o cara que ajuda a gente fazer uma obra.

A mediação com todos os atores – detentos, governo, sociedade – é sempre bem-humorada? 
É. A gente não pode ser truculento. Sou a diretora do presídio, o sistema em si já é difícil. Já cheguei a tirar o vigia do dia por ser mal-educado com as visitas. Tudo tem solução, se não tiver, solucionado está. Falo com os meus chefes desse jeito, eles sempre me dão apoio para fazer minhas atividades, não levo problemas para eles, sou daquelas “Se surgir o problema, eu tenho de ter uma solução!”

Você parece muito otimista, mas até onde vai este otimismo?
Às vezes tem o pessimismo… Têm pessoas dentro da instituição que se preocupam com coisas tão pequenas… Como a gente pode se preocupar com uma coisa tão pequena, se tem o macro, que é ação, a resolução? Eu não me preocupo com o marketing. Ele surge porque surge. Mas tem gente que se preocupa mais com o marketing do que com a obra. Tanto é que em todas as nossas ações a gente põe o nome da secretaria, do secretário, mesmo de alguns elementos que tentam boicotar a gente. Foi tão engraçado no dia em que ganhamos o primeiro lugar no Concurso de Fantasias Carnavalescas. A gente ralou, ralou. Disputávamos junto daqueles caras experientes de Carnaval. A gente nunca havia participado. Aí criamos uma fantasia que foi selecionada. Já foi uma vitória arretada! Mas rolou muita dificuldade, porque o pessoal da secretaria poderia ter facilitado, como na escolta, porque era um baile particular. Mas no desfile todo mundo torceu por nós: os seguranças, os faxineiros… Aí desfilamos e abalamos! Quando disseram que ficamos em primeiro lugar foi uma emoção! A primeira pessoa para quem eu liguei foi o cara que estava nos boicotando: “Alô, estou ligando para dizer que nós ganhamos, que o senhor é campeão!” “Eu, campeão? Parabéns pra você!” “Parabéns pra mim, não, parabéns para nós, porque fazemos parte da mesma secretaria, de uma mesma equipe, de um mesmo governo. Então, se eu ganhei, o senhor ganhou também. Ou não?” Essas coisas desanimam, mas em outros momentos, como esse em que ganhamos o concurso, dão sentido a tudo. É isso aí…

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