“O professor tem de ter ousadia!”, afirma diretora de escola do Jardim Ângela
por Ricardo Tacioli
A professora paranaense Jucileide durante evento no Itaú Cultural. Cia de Foto
Baixa. Olhos grandes atrás das lentes. Cabelos coloridos. Sorriso pronto. Essa é Jucileide Rodrigues Mauger, 55, filha de Paranavaí (PR) e de primos retirantes nordestinos, que fugiram para casar. “Fui gerada na Rio-Bahia”, contou ao Blog Zonas de Conflito. Em São Paulo desde 1956, Jucileide é diretora da escola municipal Oliveira Viana.
A história é como o de tantas outras professoras. No entanto, a particularidade da escola que Jucileide dirige desde 1992 reside no bairro em que está localizada. Jardim Ângela, sul da Zona Sul paulistana, uma das regiões urbanas mais violentas do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). “Era morto toda semana. Corpos de criança na frente da escola”, disse nesta quarta-feira, 22/10, na apresentação no Antídoto - Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito, realizado no Itaú Cultural, em São Paulo. De acordo com a diretora, o auge da violência ocorreu na década de 1990 e foi resultado do desemprego, da desestruturação da família e da falta de perspectivas. “Nenhuma criança nasce bandida. Já tive de esconder meninos da Rota. Mas na escola eu não tenho bandido, e sim aluno!”, confessa a pós-graduada em Psico-Pedagogia com especialização em Gestão de Projetos Educacionais
A virada se deu quando notou que o sentido de escola – que foi criada em 1976 e hoje conta 2400 alunos divididos em quatro turnos - estava deturpado. A escola tinha de ser de todos. E assim, em vez de lutar contra os traficantes, convidou-os a estudar. E eles aceitaram. Abriu a escola aos sábados para promover bailes de rap, e pecebeu que naquela semana não morria ninguém. Implantou cursos de crochê e tricô, xadrez, capoeira, dança afro, campanhas de castração de animais e campeonatos esportivos, além de abrir para qualquer tipo de encontro, inclusive os matrimoniais. A escola, que recebe ex-presidiários e meninos em liberdade assistida, tem ainda fanfarra e trabalhos com crianças deficientes. “A escola tem de ser inclusiva.”
Leia abaixo a conversa que o Blog Zonas de Conflito travou com Jucileide.
Como era a escola de sua infância?
Estudei sempre em escola pública. Aquela escola tradicional em que você não podia olhar para os lados, aquela em que a professora te beliscava se você falasse, aquela em que você tinha de prestar atenção o tempo todo, não podia nem piscar. Claro que eu falava demais e vivia apanhando das professoras.
Que experiência dessa escola da infância você levou para a sua, o Oliveira Viana?
Tive uma professora de 1a série, a Dona Teresinha, que tratava muito bem os alunos. Eu falava “Vou ser professora”, mas quando cresci fiz Psicologia e cliniquei um ano. Detestei. Então comecei a dar aula no Estado e vi que adorava. Tanto que dei 12 anos aulas de Psicologia. Entrei na Prefeitura em 1980, na Escola Oliveira Viana, onde estou até hoje.
E qual é o prazer maior do magistério?
A experiência mais bonita que tive foi de alfabetização. Você vê a criança florescer. Você pega aquela criança que não conhece uma letrinha e no fim do ano ela está fazendo livrinho, escrevendo histórias, descobrindo o mundo… É maravilhoso!
Como as boas experiências do Oliveira Viana são compartilhadas com outras escolas?
Essas experiências circulam. Têm algumas escolas que copiam o que a gente faz lá. Na verdade, o que dá certo é visto por outras pessoas, que vão lá conhecer os projetos e levar para outras escolas. Projetos que tratar dessa questão de trazer o aluno para dentro da escola, mas que ele sinta que a escola é o onde ele tem liberdade pra falar o que pensar, para criticar, elogiar, brigar e cobrar. A gente diz que quer formar o aluno crítico, então tem de ter o direito de criticar.
Mas existe algum fórum em que essas experiências são compartilhadas?
Existe a reunião de diretores que a Coordenadoria faz. A gente sempre está trocando figurinhas com os diretores, com os coordenadores pedagógicos que se encontram uma vez por mês.
Essas realizações me parecem autônomas, dependendo da diretoria…
Exato. Infelizmente o diretor tem uma prática muito desagradável: acha que a escola é dele. “A minha escola, os meus alunos, os meus professores.” É tudo dele, as coisas boas e os problemas. E ele não deixa os professores fazerem nada. Se o professor quer desenvolver um projeto, não pode! E eu parto do princípio que a gente tem de errar tentando, mas não errar por omissão. Você tenta, se der certo, ótimo! Se não der, a gente assume o erro junto. O professor tem de ter ousadia! Ser ousado! Se ele não for ousado, ele não é educador, é somente um professor. E professor é papagaio que repete o que aprendeu. E ainda com os preconceitos que tem. Internaliza o que aprendeu, junta com os preconceitos, faz uma mistura e repete. E ainda quer que o aluno seja igual a ele.
Jucileide, faz quase 30 anos que você entrou na escola Oliveira Vianna. O que mudou no entorno da escola?
Melhorou muito. Entrei na década de 1980, que era o começo da violência. Muitos vinham do Nordeste tentar a vida em São Paulo, tentar trabalhar nas metalúrgicas da região do Rio Pinheiros. Depois tudo isso acabou e o pessoal ficou desempregado. As mães tiveram de sair de casa para sustentar os filhos. Viraram arrimo de família. Os pais foram para os bares. Então houve uma desestruturação familiar muito grande. Foi aí que começou a violência. Segundo a ONU, o bairro era o mais perigoso do mundo. E era mesmo, porque tinha fim de semana que morriam quatro, cinco meninos. E eu via os meninos, sabia que iriam morrer, chamava-os, conversava. Eles não tinham para onde ir, não tinham perspectivas. “Quem nasce tem de morrer, né!”, diziam. “Quem mata, morre! Para ele matar, ele tem de vir até a mim!” E no final o menino morria. E isso é muito triste, ver um jovem que tem a vida toda pela frente e que não dá valor.
Entre tantos eventos, a escola testemunhou o casamento de sua diretora. Cia de Foto
E hoje o entorno da escola mudou bastante?
Mudou muito. E hoje também tem muito incentivo, há as organizações não-governamentais (ONGs). Na década de 1980 elas não existiam. Elas começaram nos anos 90. Se há numa família alguém que tem problema de álcool ou droga hoje tenho para onde encaminhá-la. Criança que está abandonada a gente tem para onde encaminhar. Criança que tem problema, há o Conselho Tutelar. Se o Conselho não resolve, vou direto na Vara da Infância e da Juventude. Se precisar fazer uma denúncia de pedofilia, vou, faço e levo a denúncia até o fim. Quero dizer, tenho para onde correr. E antes não tinha. Tinha de ouvir e ficar quieta.
Você mora por ali?
Não, moro na Avanhandava (região central da cidade de São Paulo). São 25 quilômetros daqui até a escola. E lá é um favelão. Temos a idéia de que em favela só moram bandidos, mas não é assim. Aprendi que quando você não consegue resolver uma coisa com aluno, você deve visitá-lo. Então eu ia visitá-lo, tomar um café com a família, ficavam todos envergonhados. E nunca fui numa casa para falar mal do filho, e sim para elogiá-lo. Às vezes ele não valia nada, mas eu ia, elogiava, convidava para voltar para a escola. O dia em que picharam a escola toda, tirei o menino da cama e falei “Você vai comigo! Nós vamos resolver lá na escola! Não vou falar perto da sua mãe, porque é um problema seu e meu!”. Ele foi e no fim pintou tudo. Fizemos os grafites e ele foi um dos que organizadores e pintou o logotipo da escola no portão. Então sempre fui assim. Aí fiquei muito conhecida no bairro, porque os bandidos da época foram meus alunos, e hoje são pais e avós dos alunos. Então tenho liberdade para ir em qualquer lugar, cobrar qualquer coisa, falar o que penso… Aceito críticas, porque às vezes os pais me criticam. “É direito seu, tenho de ouvir. Posso não gostar, mas tenho de ouvir, porque também quero falar!”. E a gente sempre entra num acordo.
Mas você não vive ou viveu uma situação de risco?
Não! Nunca fui ameaçada. Pelo contrário: quando eu fazia os bailes rap, havia renda. A gente cobrava três reais para entrar. E os meninos, os manos, me escoltavam até o comecinho da M’Boi-Mirim, onde já não tinha mais perigo. Nunca roubaram nada na escola. Tem laboratório de informática com 21 micros; a escola tem 50. Tem DVD, televisão de 29 polegadas, impressoras, xérox. Se alguém precisa, passa lá e “Posso usar?”. A escola nunca foi roubada! E no começo não era assim, era um horror!
Vendo a utilização que você dá para a escola e o envolvimento da comunidade com ela, me veio à cabeça o método de alfabetização do Paulo Freire, que considera o meio em que a pessoa está como ferramenta de educação.
Nós não somos prestadores de serviço? Não é um equipamento da população? Como posso dizer que a escola é da comunidade se ela não pode usar? Que coisa é essa, tenho uma coisa que não posso usar? Eles fazem encontros políticos, reuniões de pais, de igreja, encontros de jovens, casamentos. Eu me casei na escola. E não peço policiamento, não peço nada. “Olha, gente, a escola está na mão de vocês. Cuidem bem porque é de vocês.”
Com atividades tão diversas, como funciona a capacitação dos professores para lidar com essa variedade?
Essa capacitação é feita no começo do ano. E o plano da escola não fica pronto no começo do ano como em todas as escolas. É feita durante o ano. Montamos o esqueleto e vai mudando de acordo com a necessidade. E no fim do ano a gente faz uma avaliação, quando os pais e alunos participam, para ver em que se errou. Aí se faz uma tabulação para que no ano que vem mude. Nosso plano sempre fica pronto no outro ano, quando mando encaderná-lo. Ele se torna um livro para a escola. É um livro com foto que conta o que aconteceu naquele ano. E é documento de pesquisa para o pessoal que vai fazer estágio. Normalmente os professores se adaptam. E aqueles que não se adaptam, vão embora.
E qual é a escola ideal?
Não existe. Escola ideal é aquela real em que você consegue desenvolver o seu trabalho e os seus ideais ou, pelo menos, plantá-los. Afinal, o ser humano é real (e não ideal)…

