Lirinha diz que a arte não deve ser a única opção nas zonas de conflito
O poeta e músico Lirinha, 30, debate a relação arte e negócio com um monólogo e um livro. Cia de Foto
José Paes de Lira, o Lirinha, é a voz e um dos compositores do grupo Cordel do Fogo Encantado. Artesão e zelador da palavra, este pernambucano de Arcoverde subiu no palco do SESC Pompéia/SP, em dezembro de 2007, para expor um dos dilemas que o provoca desde a meninice: a arte tem preço? E quanto vale?
Estreava, então, seu monólogo Mercadorias e Futuro, que co-dirigiu com a atriz Leandra Leal, sua mulher. Para completar o projeto, lançou no meio deste ano o livro de mesmo nome. Numa performance que conta com música, texto, luz e improviso, Lirinha interpreta o vendedor de livros Lirovsky, personagem que homenageia os escritores Micheliny Verunschk, Paulo Leminski e Grotowski.
Um dos convidados do AfroReggae, que se apresentou neste fim de semana em São Paulo no Itaú Cultural, Lirinha conversou com o Blog Zonas de Conflito e problematizou ainda mais sobre o tema-chave de sua peça e, claro, da sociedade contemporânea.
Você disse que entre a estréia no fim de 2007 e a retomada no meio deste ano, algumas coisas mudaram na peça Mercadorias e Futuro. É um trabalho que está encerrado ou é mutável, ainda mais considerando a dinâmica do tema?
É um lugar de experimento particular. É um lugar onde aprofundo a palavra, a utilização que faço desde o meu começo artístico. No espetáculo também experimento umas coisas de música. Esse tempo que dei entre a estréia no SESC Pompéia e sua reestréia foi por conta da espera do livro que estava para lançar. Eu precisava dele para completar o projeto. Nesse meio tempo algumas coisas foram mudadas, mas o espetáculo continua com a mesma alma, a mesma mensagem da estréia de dezembro.
O que principiou a peça e o livro foi sua questão entre a relação arte e negócios. Ao longo deste percurso, você teve algumas respostas que sanam esse dilema?
A primeira foi a descoberta que é um tema muito presente nas construções artísticas desde a Revolução Industrial, que é esse questionamento de quanto cobrar por um produto artístico. Então, o espetáculo não quer dar respostas sobre esses valores, e nem apontar uma moral, mas é um momento de muita reflexão sobre o tema, porque o personagem é um vendedor de livros que é procurado pelos profetas para que venda suas profecias. Ele é uma figura especial porque é procurado também para cumprir essa função. E essa função de intermediário, de atravessador, é chamado porque para os profetas não podem descer e cuidar dessas coisas. Não podem tratar com dinheiro. Então, é uma ironia que aplico que serve como questionamento: alguém que pode fazer esse link entre o sagrado, o divino, que é a poesia, e o vil metal. Parece ser incompatível, mas o ser humano vive dentro desse sistema há muitos e muitos anos. Outra coisa que descobri: isso é um conflito que não se resolve. Além de ser eterno, ele é indissolúvel.
Pra você, o que é arte, o que é o fazer artístico?
É a realização do impossível. É a nossa existência envolvida na criação de algo que fica além da nossa existência. Eu, depois dessa peça, não acredito em muita coisa, em muita definição, até porque muitas definições que a gente utiliza terminam servindo para o mercado, para esse comércio. Eu acredito que esse mistério que envolve o sentido da arte é a definição. É a floresta desconhecida. Eu enxergo dessa forma. Então, o que difere um trabalho de composição musical do trabalho de um padeiro que começa às cinco da manhã? Essas definições foram desenvolvidas, como dizer que o padeiro tem um trabalho mecânico e automático, e que segue uma receita que passaram, ou seja, um operário. Mas nos dias de hoje esse limite de definição se perde muito, porque a maioria dos grupos musicais e dos artistas, poetas, atores, artistas plásticos fazem seu trabalho como esse padeiro. Fica sendo sempre uma discussão de valores; discussão que, sinceramente, não tenho capacidade de definir o que é arte.
Lirinha, como você se vê?
Tive um contato com uma pessoa chamada Erickson Luna (1958-2007), um poeta considerado marginal lá em Recife, que é um rótulo que pregam. Ele era uma figuraça. Dizia que não existe artista, existem pessoas capazes de arte. Eu sempre achava uma frase de efeito, mas com o passar do tempo concordei com ela. Neste mundo em que a gente vive existe uma capacidade de arte que acompanha todo o ser humano, e existe o desenvolvimento e aproveitamento dessa capacidade ou não. E outros fatores, como os de mercado. Eu, com 12 anos de idade, fui chamado para fazer uma apresentação, para dizer poesia no 4o Congresso de Cantadores do Recife. E foi a primeira vez que eu ganhei cachê. Então incorporei essa história ao personagem Lirovsky, porque pra mim é um momento pregnante. Até então eu dizia poesia de graça e para quem pedisse, em qualquer lugar. Ainda continuo tendo uma relação assim com a poesia. Se eu estiver passando na rua e alguém pedir para eu dizer um verso, eu paro e digo, porque é uma escola em que fui criado. Patativa do Assaré exigia isso de quem recitasse poesia, que fosse um veículo de comunicação; essa sabedoria não é do cara, é da comunidade. A minha escola foi essa. Então, naquele momento – com 12 anos de idade - fui apresentado ao sistema, ao modo de produção que rege a nossa vida e que não se separa da arte, por mais bela e divina que seja, por mais distante que seja de um objeto comercial, ela acontece dentro de um sistema capitalista.
Lirinha em ação no monólogo Mercadorias e Futuro, que reestréia em novembro no Espaço Parlatapões, em SP. Divulgação
Lendo sobre as referências para a criação da peça e do personagem, vi que uma delas é o escritor João Antonio. Como se deu esse contato?
O João Antonio (1937-1996) foi a descoberta mais recente de literatura que eu tive. Minto, tive uma outra, que é J. Veiga, um escritor que eu não conhecia e que é muito bom. Escreve muito diferente de João Antonio. João Antonio foi Marcelino Freire quem me apresentou. E me deu logo o livro Abraçado ao Meu Rancor, que tem aquela passagem em que ele retorna para a casa da mãe num subúrdio de São Paulo, e é foda! Depois li Sete Vezes Rua, que é um outro trabalho dele, que me cativou muito. Lembra muito rap, mas não é a linguagem da rua que move. Ele tem uma estrutura clássica – pelo menos como eu vejo -, mas consegue fazer essa reunião entre uma determinada erudição e uma linguagem mais rítmica, musical.
O João Antonio era jornalista e seu texto é urbano, com aquele lance do flaneur, do observador que ouve com os olhos.
Em Sete Vezes Rua tem um conto em torno de um guardador de carros, um flanelinha, algo muito comum hoje na nossa vida. Ele é o protagonista. Isso parece ser um detalhe, uma besteira, mas não é. São poucas coisas escritas no Brasil que se dão voz a esse personagem. Não é alguém se passando por um mendigo, nem avaliando o mendigo, mas, sim, o personagem sendo o mendigo, sendo o flanelinha, e isso João Antonio faz como ninguém.
Que ponto comum você vê entre os artistas desse show – você, AfroReggae, Z’África Brasil e Ilê Aiyê?
O que eu vejo é um trabalho vai além do trabalho musical. São grupos que não apenas têm uma música para se comunicar, mas têm uma história e uma relação de discussão com problemas atuais. AfroReggae não precisa falar nada, é um trabalho que vai além da música. O Ilê é uma entidade. O Z’África Brasil é um orgulho. Um grupo muito coerente com suas idéias, com seus sons. E o Cordel do Fogo Encantado também tem uma existência que nunca é apenas ter uma música como fim de tudo, como ponto de chegada.
A questão-chave do Antídoto é a produção cultural em zonas de conflito. Você vê que a produção cultural pode ser uma ferramenta de transformação social?
Eu acredito muito nisso. Mas a gente não pode apenas acreditar que levar oficinas de percussão para as zonas de conflito dará uma oportunidade para aquele jovem sair de um mundo sem opções. A gente corre o risco de acreditar que com pouco esforço se resolve um problema tão complexo. São poucas pessoas que têm a condição de viver de percussão. Em Recife quantas pessoas vivem de percussão? Pouquíssimas. É possível que cinco pessoas vivam de percussão no estado inteiro. Naná Vasconcelos, os percussionistas do Cordel, da Nação Zumbi e vai parando por aí. O discurso “abrir possibilidades por meio da arte para o cara deixar a criminalidade” é perigoso. Ele não se basta, é muito pouco! Agora, a gente não pode esquecer os sentimentos que geram um grupo musical, a coisa da auto-estima, porque são elementos muito positivos. A arte tem de ser uma opção e não a única saída. Tem de ser uma opção dentro de outras opções. O cara pode ter um desejo seguir o caminho da engenharia, e a gente, como artista e como pessoas que pensam nessas coisas, tem de trabalhar para a construção dessas possibilidades, para o cara ser o que ele desejar ser.
Lirinha, como você lida com o tempo, com o envelhecer? Você pensa muito sobre isso?
Penso porque a gente vai se apegando. A gente se apega muito às coisas. E o tempo é uma aula de desapego constante. A gente sofre com os amigos que vai perdendo. Ao mesmo tempo, isso é uma das coisas boas que a proximidade com a poesia e a música me deram, essa consciência que as coisas vão ficando melhores, que a gente tem uma outra possibilidade de relação com o mundo. Embora nascido na cultura ocidental, da crepitude, que enxerga a velhice como deterioração, a poesia e a música me deram esse ensinamento que é de um outro lugar; dizem que é oriental. Tem uma cantoria que Jó Patriota fez de improviso e que diz: “Hoje eu não presto mais”. Aí, Manoel Xudu segue: “Todo poeta é capaz / É árvore que imuchesse / Caem as folhas / Fica o tronco / Por fora a casca apodrece / Mas quanto mais passa o tempo / Mais o miolo endurece”. E eu acredito nisso. Tanto que digo, “A bênção, Mestre Xudu!”.
Você falou que as pessoas te param na rua e pedem uma poesia. Não estou na rua, mas você pode mandar mais uma?
Uma poesia de Marcelino Freire, que é interessante para esse dia de hoje: “Enquanto Zumbi trabalha cortando cana / Na Zona da Mata Pernambucana / Oloroquê vende carne de segunda a segunda / Ninguém vive aqui com a bunda preta pra cima / Tá me ouvindo, bem?”.

