Terra Magazine

outubro 23, 2008

“O professor tem de ter ousadia!”, afirma diretora de escola do Jardim Ângela

Tags:, , , , , , - Ricardo Tacioli às 7:11 pm

por Ricardo Tacioli

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A professora paranaense Jucileide durante evento no Itaú Cultural. Cia de Foto

Baixa. Olhos grandes atrás das lentes. Cabelos coloridos. Sorriso pronto. Essa é Jucileide Rodrigues Mauger, 55, filha de Paranavaí (PR) e de primos retirantes nordestinos, que fugiram para casar. “Fui gerada na Rio-Bahia”, contou ao Blog Zonas de Conflito. Em São Paulo desde 1956, Jucileide é diretora da escola municipal Oliveira Viana.

A história é como o de tantas outras professoras. No entanto, a particularidade da escola que Jucileide dirige desde 1992 reside no bairro em que está localizada. Jardim Ângela, sul da Zona Sul paulistana, uma das regiões urbanas mais violentas do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). “Era morto toda semana. Corpos de criança na frente da escola”, disse nesta quarta-feira, 22/10, na apresentação no Antídoto - Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito, realizado no Itaú Cultural, em São Paulo. De acordo com a diretora, o auge da violência ocorreu na década de 1990 e foi resultado do desemprego, da desestruturação da família e da falta de perspectivas. “Nenhuma criança nasce bandida. Já tive de esconder meninos da Rota. Mas na escola eu não tenho bandido, e sim aluno!”, confessa a pós-graduada em Psico-Pedagogia com especialização em Gestão de Projetos Educacionais

A virada se deu quando notou que o sentido de escola – que foi criada em 1976 e hoje conta 2400 alunos divididos em quatro turnos - estava deturpado. A escola tinha de ser de todos. E assim, em vez de lutar contra os traficantes, convidou-os a estudar. E eles aceitaram. Abriu a escola aos sábados para promover bailes de rap, e pecebeu que naquela semana não morria ninguém. Implantou cursos de crochê e tricô, xadrez, capoeira, dança afro, campanhas de castração de animais e campeonatos esportivos, além de abrir para qualquer tipo de encontro, inclusive os matrimoniais. A escola, que recebe ex-presidiários e meninos em liberdade assistida, tem ainda fanfarra e trabalhos com crianças deficientes. “A escola tem de ser inclusiva.”

Leia abaixo a conversa que o Blog Zonas de Conflito travou com Jucileide.

Como era a escola de sua infância?
Estudei sempre em escola pública. Aquela escola tradicional em que você não podia olhar para os lados, aquela em que a professora te beliscava se você falasse, aquela em que você tinha de prestar atenção o tempo todo, não podia nem piscar. Claro que eu falava demais e vivia apanhando das professoras.

Que experiência dessa escola da infância você levou para a sua, o Oliveira Viana?
Tive uma professora de 1a série, a Dona Teresinha, que tratava muito bem os alunos. Eu falava “Vou ser professora”, mas quando cresci fiz Psicologia e cliniquei um ano. Detestei. Então comecei a dar aula no Estado e vi que adorava. Tanto que dei 12 anos aulas de Psicologia. Entrei na Prefeitura em 1980, na Escola Oliveira Viana, onde estou até hoje.

E qual é o prazer maior do magistério?
A experiência mais bonita que tive foi de alfabetização. Você vê a criança florescer. Você pega aquela criança que não conhece uma letrinha e no fim do ano ela está fazendo livrinho, escrevendo histórias, descobrindo o mundo… É maravilhoso!

Como as boas experiências do Oliveira Viana são compartilhadas com outras escolas?
Essas experiências circulam. Têm algumas escolas que copiam o que a gente faz lá. Na verdade, o que dá certo é visto por outras pessoas, que vão lá conhecer os projetos e levar para outras escolas. Projetos que tratar dessa questão de trazer o aluno para dentro da escola, mas que ele sinta que a escola é o onde ele tem liberdade pra falar o que pensar, para criticar, elogiar, brigar e cobrar. A gente diz que quer formar o aluno crítico, então tem de ter o direito de criticar.

Mas existe algum fórum em que essas experiências são compartilhadas?
Existe a reunião de diretores que a Coordenadoria faz. A gente sempre está trocando figurinhas com os diretores, com os coordenadores pedagógicos que se encontram uma vez por mês.

Essas realizações me parecem autônomas, dependendo da diretoria…
Exato. Infelizmente o diretor tem uma prática muito desagradável: acha que a escola é dele. “A minha escola, os meus alunos, os meus professores.” É tudo dele, as coisas boas e os problemas. E ele não deixa os professores fazerem nada. Se o professor quer desenvolver um projeto, não pode! E eu parto do princípio que a gente tem de errar tentando, mas não errar por omissão. Você tenta, se der certo, ótimo! Se não der, a gente assume o erro junto. O professor tem de ter ousadia! Ser ousado! Se ele não for ousado, ele não é educador, é somente um professor. E professor é papagaio que repete o que aprendeu. E ainda com os preconceitos que tem. Internaliza o que aprendeu, junta com os preconceitos, faz uma mistura e repete. E ainda quer que o aluno seja igual a ele.

Jucileide, faz quase 30 anos que você entrou na escola Oliveira Vianna. O que mudou no entorno da escola?
Melhorou muito. Entrei na década de 1980, que era o começo da violência. Muitos vinham do Nordeste tentar a vida em São Paulo, tentar trabalhar nas metalúrgicas da região do Rio Pinheiros. Depois tudo isso acabou e o pessoal ficou desempregado. As mães tiveram de sair de casa para sustentar os filhos. Viraram arrimo de família. Os pais foram para os bares. Então houve uma desestruturação familiar muito grande. Foi aí que começou a violência. Segundo a ONU, o bairro era o mais perigoso do mundo. E era mesmo, porque tinha fim de semana que morriam quatro, cinco meninos. E eu via os meninos, sabia que iriam morrer, chamava-os, conversava. Eles não tinham para onde ir, não tinham perspectivas. “Quem nasce tem de morrer, né!”, diziam. “Quem mata, morre! Para ele matar, ele tem de vir até a mim!” E no final o menino morria. E isso é muito triste, ver um jovem que tem a vida toda pela frente e que não dá valor.

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Entre tantos eventos, a escola testemunhou o casamento de sua diretora. Cia de Foto  

E hoje o entorno da escola mudou bastante?
Mudou muito. E hoje também tem muito incentivo, há as organizações não-governamentais (ONGs). Na década de 1980 elas não existiam. Elas começaram nos anos 90. Se há numa família alguém que tem problema de álcool ou droga hoje tenho para onde encaminhá-la. Criança que está abandonada a gente tem para onde encaminhar. Criança que tem problema, há o Conselho Tutelar. Se o Conselho não resolve, vou direto na Vara da Infância e da Juventude. Se precisar fazer uma denúncia de pedofilia, vou, faço e levo a denúncia até o fim. Quero dizer, tenho para onde correr. E antes não tinha. Tinha de ouvir e ficar quieta.

Você mora por ali?
Não, moro na Avanhandava (região central da cidade de São Paulo). São 25 quilômetros daqui até a escola. E lá é um favelão. Temos a idéia de que em favela só moram bandidos, mas não é assim. Aprendi que quando você não consegue resolver uma coisa com aluno, você deve visitá-lo. Então eu ia visitá-lo, tomar um café com a família, ficavam todos envergonhados. E nunca fui numa casa para falar mal do filho, e sim para elogiá-lo. Às vezes ele não valia nada, mas eu ia, elogiava, convidava para voltar para a escola. O dia em que picharam a escola toda, tirei o menino da cama e falei “Você vai comigo! Nós vamos resolver lá na escola! Não vou falar perto da sua mãe, porque é um problema seu e meu!”. Ele foi e no fim pintou tudo. Fizemos os grafites e ele foi um dos que organizadores e pintou o logotipo da escola no portão. Então sempre fui assim. Aí fiquei muito conhecida no bairro, porque os bandidos da época foram meus alunos, e hoje são pais e avós dos alunos. Então tenho liberdade para ir em qualquer lugar, cobrar qualquer coisa, falar o que penso… Aceito críticas, porque às vezes os pais me criticam. “É direito seu, tenho de ouvir. Posso não gostar, mas tenho de ouvir, porque também quero falar!”. E a gente sempre entra num acordo.

Mas você não vive ou viveu uma situação de risco?
Não! Nunca fui ameaçada. Pelo contrário: quando eu fazia os bailes rap, havia renda. A gente cobrava três reais para entrar. E os meninos, os manos, me escoltavam até o comecinho da M’Boi-Mirim, onde já não tinha mais perigo. Nunca roubaram nada na escola. Tem laboratório de informática com 21 micros; a escola tem 50. Tem DVD, televisão de 29 polegadas, impressoras, xérox. Se alguém precisa, passa lá e “Posso usar?”. A escola nunca foi roubada! E no começo não era assim, era um horror!

Vendo a utilização que você dá para a escola e o envolvimento da comunidade com ela, me veio à cabeça o método de alfabetização do Paulo Freire, que considera o meio em que a pessoa está como ferramenta de educação.
Nós não somos prestadores de serviço? Não é um equipamento da população? Como posso dizer que a escola é da comunidade se ela não pode usar? Que coisa é essa, tenho uma coisa que não posso usar? Eles fazem encontros políticos, reuniões de pais, de igreja, encontros de jovens, casamentos. Eu me casei na escola. E não peço policiamento, não peço nada. “Olha, gente, a escola está na mão de vocês. Cuidem bem porque é de vocês.”

Com atividades tão diversas, como funciona a capacitação dos professores para lidar com essa variedade?
Essa capacitação é feita no começo do ano. E o plano da escola não fica pronto no começo do ano como em todas as escolas. É feita durante o ano. Montamos o esqueleto e vai mudando de acordo com a necessidade. E no fim do ano a gente faz uma avaliação, quando os pais e alunos participam, para ver em que se errou. Aí se faz uma tabulação para que no ano que vem mude. Nosso plano sempre fica pronto no outro ano, quando mando encaderná-lo. Ele se torna um livro para a escola. É um livro com foto que conta o que aconteceu naquele ano. E é documento de pesquisa para o pessoal que vai fazer estágio. Normalmente os professores se adaptam. E aqueles que não se adaptam, vão embora.

E qual é a escola ideal?
Não existe. Escola ideal é aquela real em que você consegue desenvolver o seu trabalho e os seus ideais ou, pelo menos, plantá-los. Afinal, o ser humano é real (e não ideal)…

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outubro 22, 2008

Delegacia do Rio promove cursos de alfabetização e sessões de cinema

Por Ricardo Tacioli

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Jornalista e advogado, Zaccone instalou biblioteca e cursos na carceragem da 52a DP. Cia de Foto

O discurso é claro e envolvente. O orador desfila o texto citando Michel Foucault e Octavio Paz, e passa por temas caros à Sociologia e ao Direito. Assim foi a apresentação de Orlando Zaccone, 44, delegado titular da 52a DP de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense (RJ), no Itaú Cultural, nesta terça-feira, 21 de outubro, durante a programação do Antídoto - Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito.

Além da oratória ilustrada, Zaccone é um delegado que se diferencia do estereótipo do policial pela forma como lida com os detentos em sua delegacia. “O sistema prisional é uma máquina de moer pessoas”, disse Zaccone para quem o crime é uma forma de muitos se incluírem socialmente.

Baseado em sua formação acadêmica e na legislação que prevê assistência educacional e de saúde para aqueles que tiveram a liberdade cerceada, Zaccone implantou o projeto Carceragem Cidadã, que promove atividades culturais junto aos detentos de sua delegacia. Há cinema, com o Cine Clube 52ª, que exibe trabalhos audiovisuais seguidos de palestras e shows musicais, o jornal O Sol Quadrado Também Brilha!, feito pelos detentos, cursos de alfabetização, biblioteca e assistência médica. Os resultados positivos dessa experiência apontam caminhos para lidar com o problema da multilplicação e perpetuação da violência pós-prisão, desconstruindo a máxima de que cadeia é a escola do crime.

Mas antes de assumir a cadeira de delegado de Polícia Civil em 1999, Zaccone despejava seu nanquim em textos sobre comportamento e produção artística nos cadernos culturais de jornais cariocas. Somente depois, graduou-se em Direito e ingressou na Polícia. Mestre em Ciências Penais, atualmente faz doutourado em Ciências Políticas na Universidade Federal Fluminense.

“Tenho informações de diferentes áreas e procuro agir de acordo com o pensamento crítico que desenvolvi nesses cursos”, afirmou em entrevista do Blog Zonas de Conflito, que pode ser lida logo abaixo.

Zaccone, por que a Polícia?
Esse foi o primeiro concurso que passei. Quando fui fazer o curso de Direito, eu já trabalhava com o meu pai, que foi uma questão de foro íntimo, porque eu já tinha uma família constituída e o mercado de jornalismo não estava bom para mim. Tive uma brecha para trabalhar com o meu pai, mas teria de fazer o curso de Direito. E depois de formado vi que a vida de advogado é muito difícil para quem não tem um escritório forte de família. E o caminho natural para mim e para muitos brasileiros foi o concurso público. Comecei a prestar concurso sem definir nenhuma preferência. Fazia para Defensoria Pública, Polícia, Ministério Público, Magistratura. E o primeiro que passei foi pra Polícia Civil. Eu tinha muita vontade de fazer um mestrado, pois fiquei estudando três anos para o concurso. Assim que passei, priorizei minha formação acadêmica. Também sou professor. Depois de me aposentar como delegado, tenho vontade de me dedicar exclusivamente ao magistério.

Como jornalista, em qual editoria você atuava?
Por incrível que pareça, nunca trabalhei com (a editoria de) polícia, sempre foi com cultura. Trabalhei no Segundo Caderno, do Globo, e uma época na Revista de Domingo, do Jornal do Brasil. Sempre trabalhava com matérias de comportamento e da área de cultura.

Sua formação se diferencia muito do meio policial. Como ela é vista?
Infelizmente a formação dos policiais, principalmente dos delegados, é uma formação jurídica nos cursos de Direito. Há no Brasil um distanciamento muito grande do ensino jurídico das Ciências Sociais. Esse esvaziamento era uma estratégia. Então, matérias como Sociologia Jurídica e Filosofia do Direito, que são importantíssimas, sempre foram relegadas ao segundo plano nas Universidades. O que formamos hoje são técnicos em Direito. E os concursos públicos em todas as carreiras cobram um conhecimento técnico, um conhecimento da norma deslocado de qualquer visão social de sua aplicabilidade. Isso é muito ruim, porque temos hoje não somente delegados, mas tem juízes, promotores de justiça, defensores públicos que não têm uma visão crítica do trabalho que exercem. Aliás, isso não é um atributo somente de quem tem formação jurídica. Mesmo no jornalismo são poucos os que têm um conhecimento mais aprofundado e crítico da sua própria área de atuação. A mesma coisa com os médicos. Na verdade, se formos a fundo veremos que o tecnicismo tem prevalecido em todos os ramos do conhecimento, provocando esse esvaziamento das ações sociais dos agentes públicos. Você despolitizou a atuação profissional de vários segmentos; evidentemente que na área jurídica isso também se deu. E no caso da Polícia, a coisa fica mais gritante por conta do estereótipo do policial.

Zaccone, qual foi o estopim para você começar a trabalhar com cultura na carceragem?
Primeiro foi uma postura política que sempre tive. Tentei juntar a minha produção acadêmica com uma atuação profissional condizente. No mestrado produzi uma obra que foi publicada – Acionistas do Nada – Quem São os Traficantes de Droga. Então já tinha observado a seletividade punitiva, ou seja, os encarcerados são escolhidos entre os setores mais vulneráveis da sociedade. Isso existe por trás dos discursos punitivos de emergência, que tenta resolver os problemas do nosso modelo econômico por meio do encarceramento dos pobres, do extermínio dos que se rebelam. Então, tive muita vontade de aplicar essa visão crítica que adquiri por meio dos estudos. O criminoso que é preso em flagrante normalmente é o criminoso trapalhão, aquele cara enrolado, um batedor de carteira da pior qualidade. Esses caras estão enchendo os cárceres, assim como essas mulheres que tentam botar drogas nos presídios para os companheiros. Elas são selecionadas e rotuladas como verdadeiras traficantes. Então, estão ali por uma situação de vulnerabilidade e a gente tem de dar uma contrapartida. A sociedade tem de observar isso e entender que é mais do que necessário a gente dar um freio nesse sistema punitivo oferecendo algumas opções. Eu não trato mais a questão como ressocialização, porque acho que ressocializar é você devolver o cara para uma sociedade na qual ele já estava inserido, mas ele nunca esteve inserido nesse ambiente social. Hoje a gente trabalha com a idéia de redução de danos, ou seja, fazer com que a permanência o preso para cumprir sua medida punitiva seja feita de uma forma mais humana, que não gere violência institucional. Na verdade, pra mudar o quadro atual tem de atacar o modelo econômico, que já está mostrando que é fraco. Quando a gente iria imaginar que o Estado teria de botar dinheiro no sistema econômico. O papo não era que o capital se auto-regulava? E agora? É desse capitalismo tardio a estratégia de resolver problemas sociais por meio do encarceramento, do extermínio das “classes perigosas”. No entanto, isso é um processo autofágico, porque a reprodução da violência e da vulnerabilidade no cárcere depois retorna para a sociedade, porque esse preso não vai ficar lá pra sempre, ele vai voltar. Estamos alimentando o problema, e não resolvendo.

Há uma rotatividade de presos na delegacia?
Uma das nossas maiores dificuldades é exatamente essa. A rotatividade é muito grande. Para você ter idéia, conseguimos emitir 102 títulos eleitorais na unidade seis meses antes das eleições. Esse é o projeto Voto do Preso (permitido a presos provisórios). Seis meses se passaram e eu tinha somente 54 presos na unidade com o título para votar. Muitos saíram em liberdade. Mas tem um dado interessante: sete presos que estavam soltos foram à carceragem somente para votar. Isso foi muito legal, porque nem nós da administração esperávamos que um cara que já estava solto retornaria à carceragem para alguma coisa. Mas eles estiveram lá, acreditaram no projeto. Então, essa rotatividade é um problema, mas a gente não pára. Muitos presos começam a fazer o supletivo da primeira à quarta série do ensino fundamental, que dura um ano, mas com três, quatro meses conseguem o Alvará de Soltura. E o que vamos fazer? Aqueles dois, três meses estudados pra ele representam uma experiência de vida que a gente não consegue vislumbrar. Uma vez um preso, num debate em sala de aula, se emocionou, começou a chorar e disse para a professora que por alguns segundos teve a sensação de que estava livre. Então, criar dentro do cárcere um espaço para que os presos exponham suas idéias, dialoguem sobre vários temas, tenham sua voz colocada, representa muita coisa para eles.

E qual é a possibilidade de multiplicação dessa experiência em outras delegacias?
Vou ser sincero: atualmente vislumbro isso, porque os nossos esforços pra avançar naquele espaço são tão grandes e os resultados demoram tanto a vir que se tentássemos expandir isso acabaria encerrando o que conseguimos estruturar. Na verdade, são ações pequenas que darão um resultado maior. Em vez desse projeto ser estendido imediatamente a outras delegacias, prefiro que um preso que sair da carceragem e ingressar no sistema, se reúna com presos e eles mesmos consigam, junto às autoridades que estiverem gerenciando aquela unidade, implementar. São coisas que dependem de vontade política simples. Eu peguei um telefone, liguei para a Secretaria Estadual de Educação e disse que queria falar com o Secretário de Educação. “Tenho um espaço na carceragem. Posso conseguir doação de cadeiras, carteiras, quadro negro, mas eu preciso professor. Você consegue?” “Claro, consigo!” Botou dois! Sabe, às vezes com uma ligação telefônica você monta uma escola dentro da carceragem. Não é uma coisa que requer um volume grande de investimento, de recursos. É na simplicidade dos pequenos projetos que a gente vai avançar.

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