Terra Magazine

outubro 22, 2008

Delegacia do Rio promove cursos de alfabetização e sessões de cinema

Por Ricardo Tacioli

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Jornalista e advogado, Zaccone instalou biblioteca e cursos na carceragem da 52a DP. Cia de Foto

O discurso é claro e envolvente. O orador desfila o texto citando Michel Foucault e Octavio Paz, e passa por temas caros à Sociologia e ao Direito. Assim foi a apresentação de Orlando Zaccone, 44, delegado titular da 52a DP de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense (RJ), no Itaú Cultural, nesta terça-feira, 21 de outubro, durante a programação do Antídoto - Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito.

Além da oratória ilustrada, Zaccone é um delegado que se diferencia do estereótipo do policial pela forma como lida com os detentos em sua delegacia. “O sistema prisional é uma máquina de moer pessoas”, disse Zaccone para quem o crime é uma forma de muitos se incluírem socialmente.

Baseado em sua formação acadêmica e na legislação que prevê assistência educacional e de saúde para aqueles que tiveram a liberdade cerceada, Zaccone implantou o projeto Carceragem Cidadã, que promove atividades culturais junto aos detentos de sua delegacia. Há cinema, com o Cine Clube 52ª, que exibe trabalhos audiovisuais seguidos de palestras e shows musicais, o jornal O Sol Quadrado Também Brilha!, feito pelos detentos, cursos de alfabetização, biblioteca e assistência médica. Os resultados positivos dessa experiência apontam caminhos para lidar com o problema da multilplicação e perpetuação da violência pós-prisão, desconstruindo a máxima de que cadeia é a escola do crime.

Mas antes de assumir a cadeira de delegado de Polícia Civil em 1999, Zaccone despejava seu nanquim em textos sobre comportamento e produção artística nos cadernos culturais de jornais cariocas. Somente depois, graduou-se em Direito e ingressou na Polícia. Mestre em Ciências Penais, atualmente faz doutourado em Ciências Políticas na Universidade Federal Fluminense.

“Tenho informações de diferentes áreas e procuro agir de acordo com o pensamento crítico que desenvolvi nesses cursos”, afirmou em entrevista do Blog Zonas de Conflito, que pode ser lida logo abaixo.

Zaccone, por que a Polícia?
Esse foi o primeiro concurso que passei. Quando fui fazer o curso de Direito, eu já trabalhava com o meu pai, que foi uma questão de foro íntimo, porque eu já tinha uma família constituída e o mercado de jornalismo não estava bom para mim. Tive uma brecha para trabalhar com o meu pai, mas teria de fazer o curso de Direito. E depois de formado vi que a vida de advogado é muito difícil para quem não tem um escritório forte de família. E o caminho natural para mim e para muitos brasileiros foi o concurso público. Comecei a prestar concurso sem definir nenhuma preferência. Fazia para Defensoria Pública, Polícia, Ministério Público, Magistratura. E o primeiro que passei foi pra Polícia Civil. Eu tinha muita vontade de fazer um mestrado, pois fiquei estudando três anos para o concurso. Assim que passei, priorizei minha formação acadêmica. Também sou professor. Depois de me aposentar como delegado, tenho vontade de me dedicar exclusivamente ao magistério.

Como jornalista, em qual editoria você atuava?
Por incrível que pareça, nunca trabalhei com (a editoria de) polícia, sempre foi com cultura. Trabalhei no Segundo Caderno, do Globo, e uma época na Revista de Domingo, do Jornal do Brasil. Sempre trabalhava com matérias de comportamento e da área de cultura.

Sua formação se diferencia muito do meio policial. Como ela é vista?
Infelizmente a formação dos policiais, principalmente dos delegados, é uma formação jurídica nos cursos de Direito. Há no Brasil um distanciamento muito grande do ensino jurídico das Ciências Sociais. Esse esvaziamento era uma estratégia. Então, matérias como Sociologia Jurídica e Filosofia do Direito, que são importantíssimas, sempre foram relegadas ao segundo plano nas Universidades. O que formamos hoje são técnicos em Direito. E os concursos públicos em todas as carreiras cobram um conhecimento técnico, um conhecimento da norma deslocado de qualquer visão social de sua aplicabilidade. Isso é muito ruim, porque temos hoje não somente delegados, mas tem juízes, promotores de justiça, defensores públicos que não têm uma visão crítica do trabalho que exercem. Aliás, isso não é um atributo somente de quem tem formação jurídica. Mesmo no jornalismo são poucos os que têm um conhecimento mais aprofundado e crítico da sua própria área de atuação. A mesma coisa com os médicos. Na verdade, se formos a fundo veremos que o tecnicismo tem prevalecido em todos os ramos do conhecimento, provocando esse esvaziamento das ações sociais dos agentes públicos. Você despolitizou a atuação profissional de vários segmentos; evidentemente que na área jurídica isso também se deu. E no caso da Polícia, a coisa fica mais gritante por conta do estereótipo do policial.

Zaccone, qual foi o estopim para você começar a trabalhar com cultura na carceragem?
Primeiro foi uma postura política que sempre tive. Tentei juntar a minha produção acadêmica com uma atuação profissional condizente. No mestrado produzi uma obra que foi publicada – Acionistas do Nada – Quem São os Traficantes de Droga. Então já tinha observado a seletividade punitiva, ou seja, os encarcerados são escolhidos entre os setores mais vulneráveis da sociedade. Isso existe por trás dos discursos punitivos de emergência, que tenta resolver os problemas do nosso modelo econômico por meio do encarceramento dos pobres, do extermínio dos que se rebelam. Então, tive muita vontade de aplicar essa visão crítica que adquiri por meio dos estudos. O criminoso que é preso em flagrante normalmente é o criminoso trapalhão, aquele cara enrolado, um batedor de carteira da pior qualidade. Esses caras estão enchendo os cárceres, assim como essas mulheres que tentam botar drogas nos presídios para os companheiros. Elas são selecionadas e rotuladas como verdadeiras traficantes. Então, estão ali por uma situação de vulnerabilidade e a gente tem de dar uma contrapartida. A sociedade tem de observar isso e entender que é mais do que necessário a gente dar um freio nesse sistema punitivo oferecendo algumas opções. Eu não trato mais a questão como ressocialização, porque acho que ressocializar é você devolver o cara para uma sociedade na qual ele já estava inserido, mas ele nunca esteve inserido nesse ambiente social. Hoje a gente trabalha com a idéia de redução de danos, ou seja, fazer com que a permanência o preso para cumprir sua medida punitiva seja feita de uma forma mais humana, que não gere violência institucional. Na verdade, pra mudar o quadro atual tem de atacar o modelo econômico, que já está mostrando que é fraco. Quando a gente iria imaginar que o Estado teria de botar dinheiro no sistema econômico. O papo não era que o capital se auto-regulava? E agora? É desse capitalismo tardio a estratégia de resolver problemas sociais por meio do encarceramento, do extermínio das “classes perigosas”. No entanto, isso é um processo autofágico, porque a reprodução da violência e da vulnerabilidade no cárcere depois retorna para a sociedade, porque esse preso não vai ficar lá pra sempre, ele vai voltar. Estamos alimentando o problema, e não resolvendo.

Há uma rotatividade de presos na delegacia?
Uma das nossas maiores dificuldades é exatamente essa. A rotatividade é muito grande. Para você ter idéia, conseguimos emitir 102 títulos eleitorais na unidade seis meses antes das eleições. Esse é o projeto Voto do Preso (permitido a presos provisórios). Seis meses se passaram e eu tinha somente 54 presos na unidade com o título para votar. Muitos saíram em liberdade. Mas tem um dado interessante: sete presos que estavam soltos foram à carceragem somente para votar. Isso foi muito legal, porque nem nós da administração esperávamos que um cara que já estava solto retornaria à carceragem para alguma coisa. Mas eles estiveram lá, acreditaram no projeto. Então, essa rotatividade é um problema, mas a gente não pára. Muitos presos começam a fazer o supletivo da primeira à quarta série do ensino fundamental, que dura um ano, mas com três, quatro meses conseguem o Alvará de Soltura. E o que vamos fazer? Aqueles dois, três meses estudados pra ele representam uma experiência de vida que a gente não consegue vislumbrar. Uma vez um preso, num debate em sala de aula, se emocionou, começou a chorar e disse para a professora que por alguns segundos teve a sensação de que estava livre. Então, criar dentro do cárcere um espaço para que os presos exponham suas idéias, dialoguem sobre vários temas, tenham sua voz colocada, representa muita coisa para eles.

E qual é a possibilidade de multiplicação dessa experiência em outras delegacias?
Vou ser sincero: atualmente vislumbro isso, porque os nossos esforços pra avançar naquele espaço são tão grandes e os resultados demoram tanto a vir que se tentássemos expandir isso acabaria encerrando o que conseguimos estruturar. Na verdade, são ações pequenas que darão um resultado maior. Em vez desse projeto ser estendido imediatamente a outras delegacias, prefiro que um preso que sair da carceragem e ingressar no sistema, se reúna com presos e eles mesmos consigam, junto às autoridades que estiverem gerenciando aquela unidade, implementar. São coisas que dependem de vontade política simples. Eu peguei um telefone, liguei para a Secretaria Estadual de Educação e disse que queria falar com o Secretário de Educação. “Tenho um espaço na carceragem. Posso conseguir doação de cadeiras, carteiras, quadro negro, mas eu preciso professor. Você consegue?” “Claro, consigo!” Botou dois! Sabe, às vezes com uma ligação telefônica você monta uma escola dentro da carceragem. Não é uma coisa que requer um volume grande de investimento, de recursos. É na simplicidade dos pequenos projetos que a gente vai avançar.

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outubro 9, 2008

Afro Samba, uma das vozes de Vigário Geral

Tags:, , , , , , - Ricardo Tacioli às 4:00 pm

Por Ricardo Tacioli

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O grupo Afro Samba com as crianças em Vigário Geral. Divulgação

1993 é um ano que nunca vai ser esquecido pela comunidade de Vigário Geral. Em janeiro, surgia o Grupo Cultural AfroReggae, entidade não-governamental que trabalha com projetos sociais e culturais, que tem no conjunto musical de mesmo nome seu principal embaixador. Mas foi em agosto daquele ano que o nome do bairro circulou o mundo. Um grupo de mais de 50 homens encapuzados e armados tomou a favela da zona norte da capital carioca e matou 21 pessoas. Nenhuma tinha vínculo com o tráfico. Foi uma das chacinas mais violentas que aconteceram no Brasil. Dos 52 PMs acusados pelo crime, apenas sete foram condenados.

Quatro anos mais tarde, na mesma comunidade, uma menina aceita o convite de um colega de escola para fazer uma música. Ambos eram estudantes do CIEP Mestre Cartola, localizado entre Vigário Geral e Parada de Lucas. Com dez anos de idade, Raquel não sabia nada de música. Apenas estudava. Picusha já tocava cavaquinho e participava das oficiais culturais do Grupo Cultural AfroReggae. A música foi apresentada na escola e Raquel levada ao Grupo Cultural. Começava ali a história do Afro Samba.

“Antigamente era Funk Samba. Depois de um tempo, quando grupo ia acabar, apareceu o Écio Salles, nosso ex-coordenador. Ele nos incentivava, botava CDs de samba para ouvirmos. E foi quando começamos a tocar samba-de-raiz. Antes a gente só barulhava; tocava qualquer coisa”, revela a percussionista Raquel Pretinha. “A gente gostava de músicas que falavam de amor, como as do Sorriso Maroto, Jeito Moleque, essa rapaziada aí”, intervem Jonatan Moraes, baterista do grupo. Perguntado se deixaram de gostar de pagode-romântico, Raquel não deixa a peteca cair. “Não, nós tocamos, não temos preconceito. Mas quando escutávamos os CDs que o Écio trazia, dizíamos Caraca, vamos tocar isso?  Essa música é de velho!” .

E assim começou o bate-papo com um dos grupos mais jovens do samba. Com idade entre 14 e 23 anos, os seis integrantes do Afro Samba distribuíam timidez, frases curtas e alegria na única entrevista do dia. Antes haviam ensaiados no palco do Itaú Cultural, onde se apresentam nesta quinta e sexta ao lado do Samba da Vela.

“Quando o Écio chegava no ensaio dava um desânimo, uma vontade de ir embora”, continuou Alexsander Maganola, o Lecão, pandeirista e um dos cantores do grupo. “Foi estranho. O cara chegou com Nelson Sargento, Cartola, Bezerra da Silva, e começou a explicar a história do samba. Aí a gente foi se interessando”, amenizou Jonatan, novamente seguido da única menina do grupo. “A gente não sabia cantar nada. O Lecão não era nem cantor. O Écio falou para gente: Se vocês conseguirem tocar 10 músicas em um mês, dou o maior festaço na minha casa.  Em menos de um mês fizemos as 10 músicas de samba-de-raiz. A festa encheu, ficou lotadão!”. Da festa de batismo, o grupo já emendou em outra, de aniversário do Centro Cultural do AfroReggae, o primeiro show num palco. “Mas subimos no palco preocupados. Será que o povo vai gostar de samba-de-raiz?  Estava cheio o campo. E aí todo mundo gostou”, responde a percussionista,  sorridente e orgulhosa.

E hoje, como vocês se definem? “Somos um grupo de samba-de-raiz moderno”, contemporiza Ivan, 23, um dos violonistas e o integrante mais recente do sexteto. “A gente pega músicas daqueles CDs bem antigos e transforma em sambas com a nossa cara”, defende Jonatan que, ao lado de Lekão e do baixista e violonista sete cordas Everton Gomes, o Tom, 18, forma a trinca de compositores do Afro Samba. “Às vezes, uma parte da letra, em vez de fazê-la cantada, a gente faz como se fosse um rap, um funk, um soul. A gente está modifica alguma coisa. Como uma música lenta do Gonzaguinha, em que a gente começa em reggae e depois muda para samba”, afirma Lecão. “Tudo para dar um brilho diferente”, arremata  Tom.

E foi esse brilho diferente, adicionado à juventude e talento do grupo, que fez com quem se apresentassem em palcos afamados, como do Canecão, Circo Voador, Teatro Rival, Arcos da Lapa e no São Paulo Fashion Week 2007, além de terem acompanhado estampas como da MPB e do samba, como Gilberto Gil, Martinália, Dudu Nobre, Nelson Sargento, Almir Guineto, Seu Jorge, Luiz Melodia e Beth Carvalho.

“Uma vez fizemos um show com o Nelson Sargento na Casa da Mãe Joana, na Lapa, e o Écio disse que ele seria um bom padrinho da gente. E a gente começou a considerá-lo como padrinho. Mas depois arrumamos o Arlindo Cruz e a Dorina, com quem fazemos shows de vez em quando”, explica Lecão.

Com mais de dez anos de história, o grupo - que um dia já teve bailarinos e capoeiristas, conforme revelaram às gargalhadas  - mescla seu repertório de clássicos do samba e partido-alto com músicas autorais, e tudo é arranjado coletivamente. Reúnem peças de Zeca Pagodinho, Paulinho da Viola, Almir Guineto, Dona Ivone Lara e Gilberto Gil com composições próprias que falam de amor, favela e samba-de-raiz, como as Lecão, Mucato e Junior Parente (“Retratos de Domingo”), e João Grilo e Écio Salles (“Dois a Um”).

“A base pra gente é o Fundo de Quintal. É o que a gente mais escuta. Um grupo de samba-de-raiz que ainda está em alta na mídia”, declara Ivan sobre a banda de quem tocam o sucesso “O Show Tem Que Continuar”.

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O Afro Samba durante ensaio no Itaú Cultural. Por Ricardo Tacioli

Vindos de uma das regiões mais violentas do Rio de Janeiro, os meninos reconhecem como a música e a participação em atividades como as promovidas pelo Grupo Cultural AfroReggae definiram novos rumos para suas vidas. “No Rio a violência está em alta. Os menores estão indo para o tráfico. A música traz uma coisa diferente, dá um futuro, uma oportunidade de crescer, de fazer algo que a gente gosta. O AfroReggae abriu as portas para a gente de um jeito que modificou a vida de todo mundo. Viajamos pelo Brasil, conhecemos vários lugares, fazemos shows”, declara Ivan.

“E detalhe: somos guerreiros. Na favela, onde a gente mora, é guerra, é tiroteiro. É a polícia atirando… Às vezes, quando traficante passa rolando no chão dá empolgação, mas a gente sabe que aquilo é errado e estamos sempre nos segurando. Não é dizer que estamos com vontade de ir (para o tráfico), mas você diz: Olha o cara, olha o cara. Que sinistro! O cara rolou no chão, que maneiro!  Somos guerreiros pelo que passamos na comunidade e no grupo”, confessa Lecão, que ainda revela que o Afro Samba já perdeu dois cavaquinistas: o pioneiro Picusha, levado pela violência, e Mauricio Machado, morto há um mês em decorrência de problemas cardíacos.

Questionados sobre onde vocês querem chegar, o grupo que ainda não gravou seu primeiro disco revela o desejo todo o artista. “O nosso sonho é ligar o rádio e ouvir a nossa música. Seria o auge do Afro Samba!”. E como “orkuteiros convictos”, querem falar pro mundo.

A conversa de 40 minutos chega ao fim. Calado, o caçula Luiz Henrique, o Luizinho, apenas observou. Disse pouco. O negócio do vocalista de 14 anos, que entrou no grupo há nove, é soltar a voz no palco e castigar o tantã. Tarefa que o repórter aprovou.

SERVIÇO
Show com Afro Samba e Samba da Vela
Dias 9 e 10 de outubro, às 19h30

Entrada franca (ingressos distribuídos com meia hora de antecedência)
Censura:14 anos

Itaú Cultural
Avenida Paulista, 149, Estação Brigadeiro do Metrô – São Paulo
Fones: 11 2168-1776/1777

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