Terra Magazine

outubro 25, 2008

“Sou uma sobrevivente”, diz cozinheira mais famosa de Vigário Geral

Tags:, , , , , - Ricardo Tacioli às 8:58 pm

Por Ricardo Tacioli

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A cozinheira Lizietia Rodrigues, mais conhecida como Chupetinha. Divulgação 

Era pra se chamar Elizeth. O escrivão dormiu no ponto. Virou Lizietia. Na certidão de nascimento, Lizietia Carmem Siqueira Rodrigues, lavrada há exatos 48 anos, idade que comemorou na semana que passou. Moradora da favela de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, onde nasceu e foi criada, Lizietia é uma figura querida e carimbada em toda a comunidade, tanto por nunca ter abandonado o hábito de usar chupeta, que lhe rendeu o apelido que a eterniza, Chupetinha, como também por ser a cozinheira mais famosa da região.

Chef de cozinha diplomada em junho de 2008 pelo SENAC, mantém há 12 anos na rua Paris o restaurante Pensão da Chupetinha que, além dos fregueses locais, já forrou o estômago de famosos como o músico escocês David Byrne (fundador da banda Talking Heads), o rapper Gabriel O Pensador, o jornalista Pedro Bial e a empresária Flora Gil. No cardápio, especialidades caseiras como feijão preto com arroz e farofa, frango à mineira, costelinha de porco e peixe à milanesa. “Tenho dois carros-chefe: a carne assada, que doro na cebola, e o creme fica parecendo molho madeira; e o bobó à mineira que, em vez de camarão, tem salgados e creme de aipim. É uma invenção minha. Menino, é um sucesso! Apresentei até no programa da Ana Maria Braga”, relatou ao Blog Zonas de Conflito.

Chupetinha comandou pela primeira vez, entre os dias 20 e 24 de outubro, uma cozinha que não a sua: assumiu o restaurante Café Cult, na sede do Itaú Cultural, em São Paulo, durante a terceira edição do Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito.

A entrevista de 20 minutos com a mulher que não se considera uma grande cozinheira (“Faço como todo mundo, mas cada mão é diferente…”) foi permeada de bom humor, lágrimas e três cigarros. Nela revelou que foi a partir da chacina de Vigário Geral, em novembro de 1993, quando 21 moradores inocentes foram assassinados por policiais, que sua vida tomou outro rumo. “Eu conhecia todo mundo (que morreu), porque nasci e me criei em Vigário Geral. Na casa em que morreram oito evangélicos fizeram uma ONG chamada Casa da Paz”, contou Chupetinha, que na época estava desempregada. “Aí fui trabalhar lá como faxineira e office-boy. Só que ela é próxima da minha casa. E como não havia nenhuma pensão na comunidade, na hora do almoço as meninas diziam: Bota mais água no feijão!” E foi botando mais água no feijão que Lizietia deixou a faxina e assumiu de vez o restaurante que fica na cobertura de sua casa.

“Sou uma sobrevivente, não somente da chacina de Vigário Geral, mas uma sobrevivente da vida, porque tive todas as oportunidades do mundo para ser uma mulher mundana, uma prostituta, uma mulher de bandido, mas Deus não deixou que isso acontecesse comigo. Tenho uma mania de brincar quando saio em jornais. Gente, saí n’O Globo, mas não foi na página policial!”, declara rindo.

Mas o riso rapidamente se transforma em lágrimas quando fala do passado ou das conquistas recentes. “Minha infância foi muito triste. Quando fiz sete anos de idade, meu pai faleceu. Vivia internado no Hospital Geral de Bonsucesso. Morreu do coração. E minha mãe ficou com sete filhos. O mais novo tinha nove meses. A mais velha tinha oito anos. Sou a segunda filha. Aí tive de ir para a luta. Fui trabalhar como babá na comunidade, senão como íamos comer?”.

Filha de Beatriz Felix Siqueira e Antônio Siqueira, Chupetinha estudou somente até a quarta série. Pelas dificuldades que enfrentou na infância, cravou no peito o sonho de nunca mais passar fome. “Hoje me sinto uma mulher muito rica, porque se eu quiser comer pão ou queijo, eu vou e como. Costumo dizer que já sonhei e não realizei. Mas já realizei o que não sonhei. Essa é a realidade da minha vida”, fala comovida. “Hoje posso dizer que sou o orgulho da minha família. Todos os meus irmãos estão empregados, mas eu sou a mídia. Não parece, mas para nós que moramos na periferia, isso é uma grande coisa, porque as pessoas acham que lá só se aprende coisas ruins. A luta não é pequena, mas eu consegui.”

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A cozinheira se encantou com o Mercado Municipal de São Paulo. Cia de Foto

Boa parte de sua trajetória é assistida, compartilhada e protagonizada com o marido João Azevedo Rodrigues, com quem se casou há 37 anos. Isso mesmo, Chupetinha tinha apenas 11 anos de idade quando trocou alianças com João, na época um rapazote de 17 anos. “O segredo deste casamento? É o amor. Toda vez que olho para o meu marido parece que estou com ele pela primeira vez, porque o João é uma pessoa muito amável.” Aposentado, João não cozinha, mas é o garçom, o administrador e o “faz-tudo” do restaurante. Da união nasceram Michele e Raphael, que fizeram cursos de inglês, de informática e faculdades; a primeira é dona de casa, e o segundo é bailarino e coreógrafo do Grupo Cultural AfroReggae, onde trabalha desde os 13 anos de idade.

“Nem meu marido, nem meus filhos fumam. Eu fumo. Chupo chupeta e nenhum deles – nem meus dois netos – chupam”, afirma Lizietia, que confessa que a preferência pelas chupetas mais ralés. “Só não gosto das transparentes e das ortodônticas. Você não tem idéia de que quantas chupetas eu tenho. Todo mês, quando meu marido vai fazer as compras para a pensão, ele traz um saquinho de 25 chupetas. A duração de cada uma depende do meu estado emocional. Hoje vou estourar uma, porque já são dez horas e a feijoada ainda está no fogo…”

Há alguns anos a saúde também fez com que estourasse muitas chupetas. “Tive um câncer de útero e tive de fazer esterilização. O tratamento é muito doloroso, mas estou curada. E há três anos tomei outro grande susto, fiquei doida, mas não era nada, somente um problema na tireóide.”

A mestre de Chupetinha na cozinha é sua mãe, de quem não nega uma pratada de macarrão. “Justamente o que eu não poderia comer, ainda mais depois da cirurgia da tireóide, já que fiquei diabética e hipertensa. Tive até síndrome do pânico, mas liberei tudo isso na cozinha e na chupeta.”

Além do clima caseiro e descontraído, a pensão também ostenta outras características. Ali não bebida alcoólica não é comercializada (“Se quiser, pode levar, mas somente cerveja”). E também não pode entrar armado. “Você sabe que em comunidade tem de tudo. Então implantei leis que, por eu ser muito respeitada, foram obedecidas. Tem uma placa bem grande que diz Mocinhos e bandidos são bem-vindos. Quem quiser almoçar na minha casa, pode, mas não pode entrar armado.”

Mas se o nobre leitor ficou com água na boca e quiser conhecer o tempero e as iguarias de Chupetinha, pode visitar sua pensão em Vigário Geral, que funciona de segunda a sábado, das 11h às 17h. Segundo a cozinheira que sonhava ser assistente social, não há problema algum com o tráfico caso queira em chegar até a sua pensão. “Basta dizer que vai ao AfroReggae, que é uma ONG muito respeitada, ou à Chupetinha, que ninguém coloca a mão. E ainda te levam”, garante.

Exemplo de superação dentro e fora da comunidade, que hoje agrega nove pensões (“Dá para todo mundo ganhar o seu trocadinho”), Chupetinha sonha em cursar a faculdade de gastronomia, mas nunca sonhou com um livro de receitas. Enquanto ele não vem, ela descreve o petisco que faz mais sucesso em suas mesas: aipim frito.

“Coloco aipim para cozinhar sem sal. Depois que está cozido, aí sim coloco sal e deixo mais um pouco na fervura. Tampo a panela e espero mais um pouquinho. Aí escorro e frito o aipim com bastante óleo. Por que bastante óleo? Se você botar pouco, o aipim vai ficar duro. Mas com bastante óleo, ele vai fritar tanto em cima quanto em baixo. Aí, quando você morde o aipim, ele está crocante por fora e molinho por dentro.”

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outubro 9, 2008

Afro Samba, uma das vozes de Vigário Geral

Tags:, , , , , , - Ricardo Tacioli às 4:00 pm

Por Ricardo Tacioli

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O grupo Afro Samba com as crianças em Vigário Geral. Divulgação

1993 é um ano que nunca vai ser esquecido pela comunidade de Vigário Geral. Em janeiro, surgia o Grupo Cultural AfroReggae, entidade não-governamental que trabalha com projetos sociais e culturais, que tem no conjunto musical de mesmo nome seu principal embaixador. Mas foi em agosto daquele ano que o nome do bairro circulou o mundo. Um grupo de mais de 50 homens encapuzados e armados tomou a favela da zona norte da capital carioca e matou 21 pessoas. Nenhuma tinha vínculo com o tráfico. Foi uma das chacinas mais violentas que aconteceram no Brasil. Dos 52 PMs acusados pelo crime, apenas sete foram condenados.

Quatro anos mais tarde, na mesma comunidade, uma menina aceita o convite de um colega de escola para fazer uma música. Ambos eram estudantes do CIEP Mestre Cartola, localizado entre Vigário Geral e Parada de Lucas. Com dez anos de idade, Raquel não sabia nada de música. Apenas estudava. Picusha já tocava cavaquinho e participava das oficiais culturais do Grupo Cultural AfroReggae. A música foi apresentada na escola e Raquel levada ao Grupo Cultural. Começava ali a história do Afro Samba.

“Antigamente era Funk Samba. Depois de um tempo, quando grupo ia acabar, apareceu o Écio Salles, nosso ex-coordenador. Ele nos incentivava, botava CDs de samba para ouvirmos. E foi quando começamos a tocar samba-de-raiz. Antes a gente só barulhava; tocava qualquer coisa”, revela a percussionista Raquel Pretinha. “A gente gostava de músicas que falavam de amor, como as do Sorriso Maroto, Jeito Moleque, essa rapaziada aí”, intervem Jonatan Moraes, baterista do grupo. Perguntado se deixaram de gostar de pagode-romântico, Raquel não deixa a peteca cair. “Não, nós tocamos, não temos preconceito. Mas quando escutávamos os CDs que o Écio trazia, dizíamos Caraca, vamos tocar isso?  Essa música é de velho!” .

E assim começou o bate-papo com um dos grupos mais jovens do samba. Com idade entre 14 e 23 anos, os seis integrantes do Afro Samba distribuíam timidez, frases curtas e alegria na única entrevista do dia. Antes haviam ensaiados no palco do Itaú Cultural, onde se apresentam nesta quinta e sexta ao lado do Samba da Vela.

“Quando o Écio chegava no ensaio dava um desânimo, uma vontade de ir embora”, continuou Alexsander Maganola, o Lecão, pandeirista e um dos cantores do grupo. “Foi estranho. O cara chegou com Nelson Sargento, Cartola, Bezerra da Silva, e começou a explicar a história do samba. Aí a gente foi se interessando”, amenizou Jonatan, novamente seguido da única menina do grupo. “A gente não sabia cantar nada. O Lecão não era nem cantor. O Écio falou para gente: Se vocês conseguirem tocar 10 músicas em um mês, dou o maior festaço na minha casa.  Em menos de um mês fizemos as 10 músicas de samba-de-raiz. A festa encheu, ficou lotadão!”. Da festa de batismo, o grupo já emendou em outra, de aniversário do Centro Cultural do AfroReggae, o primeiro show num palco. “Mas subimos no palco preocupados. Será que o povo vai gostar de samba-de-raiz?  Estava cheio o campo. E aí todo mundo gostou”, responde a percussionista,  sorridente e orgulhosa.

E hoje, como vocês se definem? “Somos um grupo de samba-de-raiz moderno”, contemporiza Ivan, 23, um dos violonistas e o integrante mais recente do sexteto. “A gente pega músicas daqueles CDs bem antigos e transforma em sambas com a nossa cara”, defende Jonatan que, ao lado de Lekão e do baixista e violonista sete cordas Everton Gomes, o Tom, 18, forma a trinca de compositores do Afro Samba. “Às vezes, uma parte da letra, em vez de fazê-la cantada, a gente faz como se fosse um rap, um funk, um soul. A gente está modifica alguma coisa. Como uma música lenta do Gonzaguinha, em que a gente começa em reggae e depois muda para samba”, afirma Lecão. “Tudo para dar um brilho diferente”, arremata  Tom.

E foi esse brilho diferente, adicionado à juventude e talento do grupo, que fez com quem se apresentassem em palcos afamados, como do Canecão, Circo Voador, Teatro Rival, Arcos da Lapa e no São Paulo Fashion Week 2007, além de terem acompanhado estampas como da MPB e do samba, como Gilberto Gil, Martinália, Dudu Nobre, Nelson Sargento, Almir Guineto, Seu Jorge, Luiz Melodia e Beth Carvalho.

“Uma vez fizemos um show com o Nelson Sargento na Casa da Mãe Joana, na Lapa, e o Écio disse que ele seria um bom padrinho da gente. E a gente começou a considerá-lo como padrinho. Mas depois arrumamos o Arlindo Cruz e a Dorina, com quem fazemos shows de vez em quando”, explica Lecão.

Com mais de dez anos de história, o grupo - que um dia já teve bailarinos e capoeiristas, conforme revelaram às gargalhadas  - mescla seu repertório de clássicos do samba e partido-alto com músicas autorais, e tudo é arranjado coletivamente. Reúnem peças de Zeca Pagodinho, Paulinho da Viola, Almir Guineto, Dona Ivone Lara e Gilberto Gil com composições próprias que falam de amor, favela e samba-de-raiz, como as Lecão, Mucato e Junior Parente (“Retratos de Domingo”), e João Grilo e Écio Salles (“Dois a Um”).

“A base pra gente é o Fundo de Quintal. É o que a gente mais escuta. Um grupo de samba-de-raiz que ainda está em alta na mídia”, declara Ivan sobre a banda de quem tocam o sucesso “O Show Tem Que Continuar”.

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O Afro Samba durante ensaio no Itaú Cultural. Por Ricardo Tacioli

Vindos de uma das regiões mais violentas do Rio de Janeiro, os meninos reconhecem como a música e a participação em atividades como as promovidas pelo Grupo Cultural AfroReggae definiram novos rumos para suas vidas. “No Rio a violência está em alta. Os menores estão indo para o tráfico. A música traz uma coisa diferente, dá um futuro, uma oportunidade de crescer, de fazer algo que a gente gosta. O AfroReggae abriu as portas para a gente de um jeito que modificou a vida de todo mundo. Viajamos pelo Brasil, conhecemos vários lugares, fazemos shows”, declara Ivan.

“E detalhe: somos guerreiros. Na favela, onde a gente mora, é guerra, é tiroteiro. É a polícia atirando… Às vezes, quando traficante passa rolando no chão dá empolgação, mas a gente sabe que aquilo é errado e estamos sempre nos segurando. Não é dizer que estamos com vontade de ir (para o tráfico), mas você diz: Olha o cara, olha o cara. Que sinistro! O cara rolou no chão, que maneiro!  Somos guerreiros pelo que passamos na comunidade e no grupo”, confessa Lecão, que ainda revela que o Afro Samba já perdeu dois cavaquinistas: o pioneiro Picusha, levado pela violência, e Mauricio Machado, morto há um mês em decorrência de problemas cardíacos.

Questionados sobre onde vocês querem chegar, o grupo que ainda não gravou seu primeiro disco revela o desejo todo o artista. “O nosso sonho é ligar o rádio e ouvir a nossa música. Seria o auge do Afro Samba!”. E como “orkuteiros convictos”, querem falar pro mundo.

A conversa de 40 minutos chega ao fim. Calado, o caçula Luiz Henrique, o Luizinho, apenas observou. Disse pouco. O negócio do vocalista de 14 anos, que entrou no grupo há nove, é soltar a voz no palco e castigar o tantã. Tarefa que o repórter aprovou.

SERVIÇO
Show com Afro Samba e Samba da Vela
Dias 9 e 10 de outubro, às 19h30

Entrada franca (ingressos distribuídos com meia hora de antecedência)
Censura:14 anos

Itaú Cultural
Avenida Paulista, 149, Estação Brigadeiro do Metrô – São Paulo
Fones: 11 2168-1776/1777

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