“Sou uma sobrevivente”, diz cozinheira mais famosa de Vigário Geral
Por Ricardo Tacioli
A cozinheira Lizietia Rodrigues, mais conhecida como Chupetinha. Divulgação
Era pra se chamar Elizeth. O escrivão dormiu no ponto. Virou Lizietia. Na certidão de nascimento, Lizietia Carmem Siqueira Rodrigues, lavrada há exatos 48 anos, idade que comemorou na semana que passou. Moradora da favela de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, onde nasceu e foi criada, Lizietia é uma figura querida e carimbada em toda a comunidade, tanto por nunca ter abandonado o hábito de usar chupeta, que lhe rendeu o apelido que a eterniza, Chupetinha, como também por ser a cozinheira mais famosa da região.
Chef de cozinha diplomada em junho de 2008 pelo SENAC, mantém há 12 anos na rua Paris o restaurante Pensão da Chupetinha que, além dos fregueses locais, já forrou o estômago de famosos como o músico escocês David Byrne (fundador da banda Talking Heads), o rapper Gabriel O Pensador, o jornalista Pedro Bial e a empresária Flora Gil. No cardápio, especialidades caseiras como feijão preto com arroz e farofa, frango à mineira, costelinha de porco e peixe à milanesa. “Tenho dois carros-chefe: a carne assada, que doro na cebola, e o creme fica parecendo molho madeira; e o bobó à mineira que, em vez de camarão, tem salgados e creme de aipim. É uma invenção minha. Menino, é um sucesso! Apresentei até no programa da Ana Maria Braga”, relatou ao Blog Zonas de Conflito.
Chupetinha comandou pela primeira vez, entre os dias 20 e 24 de outubro, uma cozinha que não a sua: assumiu o restaurante Café Cult, na sede do Itaú Cultural, em São Paulo, durante a terceira edição do Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito.
A entrevista de 20 minutos com a mulher que não se considera uma grande cozinheira (“Faço como todo mundo, mas cada mão é diferente…”) foi permeada de bom humor, lágrimas e três cigarros. Nela revelou que foi a partir da chacina de Vigário Geral, em novembro de 1993, quando 21 moradores inocentes foram assassinados por policiais, que sua vida tomou outro rumo. “Eu conhecia todo mundo (que morreu), porque nasci e me criei em Vigário Geral. Na casa em que morreram oito evangélicos fizeram uma ONG chamada Casa da Paz”, contou Chupetinha, que na época estava desempregada. “Aí fui trabalhar lá como faxineira e office-boy. Só que ela é próxima da minha casa. E como não havia nenhuma pensão na comunidade, na hora do almoço as meninas diziam: Bota mais água no feijão!” E foi botando mais água no feijão que Lizietia deixou a faxina e assumiu de vez o restaurante que fica na cobertura de sua casa.
“Sou uma sobrevivente, não somente da chacina de Vigário Geral, mas uma sobrevivente da vida, porque tive todas as oportunidades do mundo para ser uma mulher mundana, uma prostituta, uma mulher de bandido, mas Deus não deixou que isso acontecesse comigo. Tenho uma mania de brincar quando saio em jornais. Gente, saí n’O Globo, mas não foi na página policial!”, declara rindo.
Mas o riso rapidamente se transforma em lágrimas quando fala do passado ou das conquistas recentes. “Minha infância foi muito triste. Quando fiz sete anos de idade, meu pai faleceu. Vivia internado no Hospital Geral de Bonsucesso. Morreu do coração. E minha mãe ficou com sete filhos. O mais novo tinha nove meses. A mais velha tinha oito anos. Sou a segunda filha. Aí tive de ir para a luta. Fui trabalhar como babá na comunidade, senão como íamos comer?”.
Filha de Beatriz Felix Siqueira e Antônio Siqueira, Chupetinha estudou somente até a quarta série. Pelas dificuldades que enfrentou na infância, cravou no peito o sonho de nunca mais passar fome. “Hoje me sinto uma mulher muito rica, porque se eu quiser comer pão ou queijo, eu vou e como. Costumo dizer que já sonhei e não realizei. Mas já realizei o que não sonhei. Essa é a realidade da minha vida”, fala comovida. “Hoje posso dizer que sou o orgulho da minha família. Todos os meus irmãos estão empregados, mas eu sou a mídia. Não parece, mas para nós que moramos na periferia, isso é uma grande coisa, porque as pessoas acham que lá só se aprende coisas ruins. A luta não é pequena, mas eu consegui.”
A cozinheira se encantou com o Mercado Municipal de São Paulo. Cia de Foto
Boa parte de sua trajetória é assistida, compartilhada e protagonizada com o marido João Azevedo Rodrigues, com quem se casou há 37 anos. Isso mesmo, Chupetinha tinha apenas 11 anos de idade quando trocou alianças com João, na época um rapazote de 17 anos. “O segredo deste casamento? É o amor. Toda vez que olho para o meu marido parece que estou com ele pela primeira vez, porque o João é uma pessoa muito amável.” Aposentado, João não cozinha, mas é o garçom, o administrador e o “faz-tudo” do restaurante. Da união nasceram Michele e Raphael, que fizeram cursos de inglês, de informática e faculdades; a primeira é dona de casa, e o segundo é bailarino e coreógrafo do Grupo Cultural AfroReggae, onde trabalha desde os 13 anos de idade.
“Nem meu marido, nem meus filhos fumam. Eu fumo. Chupo chupeta e nenhum deles – nem meus dois netos – chupam”, afirma Lizietia, que confessa que a preferência pelas chupetas mais ralés. “Só não gosto das transparentes e das ortodônticas. Você não tem idéia de que quantas chupetas eu tenho. Todo mês, quando meu marido vai fazer as compras para a pensão, ele traz um saquinho de 25 chupetas. A duração de cada uma depende do meu estado emocional. Hoje vou estourar uma, porque já são dez horas e a feijoada ainda está no fogo…”
Há alguns anos a saúde também fez com que estourasse muitas chupetas. “Tive um câncer de útero e tive de fazer esterilização. O tratamento é muito doloroso, mas estou curada. E há três anos tomei outro grande susto, fiquei doida, mas não era nada, somente um problema na tireóide.”
A mestre de Chupetinha na cozinha é sua mãe, de quem não nega uma pratada de macarrão. “Justamente o que eu não poderia comer, ainda mais depois da cirurgia da tireóide, já que fiquei diabética e hipertensa. Tive até síndrome do pânico, mas liberei tudo isso na cozinha e na chupeta.”
Além do clima caseiro e descontraído, a pensão também ostenta outras características. Ali não bebida alcoólica não é comercializada (“Se quiser, pode levar, mas somente cerveja”). E também não pode entrar armado. “Você sabe que em comunidade tem de tudo. Então implantei leis que, por eu ser muito respeitada, foram obedecidas. Tem uma placa bem grande que diz Mocinhos e bandidos são bem-vindos. Quem quiser almoçar na minha casa, pode, mas não pode entrar armado.”
Mas se o nobre leitor ficou com água na boca e quiser conhecer o tempero e as iguarias de Chupetinha, pode visitar sua pensão em Vigário Geral, que funciona de segunda a sábado, das 11h às 17h. Segundo a cozinheira que sonhava ser assistente social, não há problema algum com o tráfico caso queira em chegar até a sua pensão. “Basta dizer que vai ao AfroReggae, que é uma ONG muito respeitada, ou à Chupetinha, que ninguém coloca a mão. E ainda te levam”, garante.
Exemplo de superação dentro e fora da comunidade, que hoje agrega nove pensões (“Dá para todo mundo ganhar o seu trocadinho”), Chupetinha sonha em cursar a faculdade de gastronomia, mas nunca sonhou com um livro de receitas. Enquanto ele não vem, ela descreve o petisco que faz mais sucesso em suas mesas: aipim frito.
“Coloco aipim para cozinhar sem sal. Depois que está cozido, aí sim coloco sal e deixo mais um pouco na fervura. Tampo a panela e espero mais um pouquinho. Aí escorro e frito o aipim com bastante óleo. Por que bastante óleo? Se você botar pouco, o aipim vai ficar duro. Mas com bastante óleo, ele vai fritar tanto em cima quanto em baixo. Aí, quando você morde o aipim, ele está crocante por fora e molinho por dentro.”



